As Cruzadas

Designação pela qual são conhecidas as expedições operadas pelos cristãos da Europa Ocidental entre os séculos XI e XIII, com o intuito de retomarem a posse de Jerusalém e dos Lugares Santos, caídos no século VII em poder dos muçulmanos. A segurança das rotas de peregrinação estava também intimamente relacionada com estas campanhas da Cristandade. Foram oito as Cruzadas, quase sempre com apoio papal, embora tenham ocorrido outras ações bélicas similares de menor impacto e dimensão.

Antecedentes
A partir de 636, Jerusalém era uma cidade em poder dos Muçulmanos. Estes, apesar de a terem conquistado em verdadeiro espírito de Jihâd (guerra santa, um dos pilares fundamentais da religião islâmica), foram tolerantes para com os cristãos, permitindo as peregrinações aos Lugares Santos da Palestina. Todavia, um outro perigo, também muçulmano, estava eminente: os turcos Seldjúcidas, descendentes de belicosas e aguerridas tribos nómadas da Ásia Central. Instalados na Anatólia, fazem desde logo perigar a segurança do Império Bizantino, sediado em Bizâncio, às portas dos Seldjúcidas. Estes, em 1071, derrotam os bizantinos na batalha de Manzinkert, impelindo o imperador Miguel VII a solicitar o apoio de Roma para que interpelasse os soberanos ocidentais a enviar exércitos em auxílio de Bizâncio. Jerusalém é conquistada pelos Turcos em 1078, o que aumentou ainda mais o pavor no Ocidente e o alarmismo das súplicas bizantinas. Em 1085, cai Antioquia e em 1092 Niceia. Um outro pedido de auxílio é reiterado em 1095 por Aleixo I Comneno ao Papa Urbano II. Apesar de os cristãos bizantinos estarem afastados de Roma, esta, tentando talvez a reconciliação com o mundo cristão, terá acedido aos apelos de socorro e lançado as sementes das Cruzadas enquanto ajuda a "irmãos" ameaçados pelos Infiéis - designação medieval dada aos povos seguidores de Maomé.

Porém, esta motivação para as Cruzadas não é única nem existe por si só: está indelevelmente relacionada com diversos fatores, tendências e eventos em curso no mundo pós-ano mil. O papado tinha consciência da situação da cristandade então, quer quanto às suas maiores nações, quer quanto a aspetos meramente estruturais e absolutamente internacionais.

De facto, este período - o do apelo bizantino ao Ocidente - corresponde a uma época de aceleração demográfica, desenvolvimento comercial e relaxamento das mentalidades a nível coletivo, o que se refletiu num reflorescimento cultural no século XI. As instituições alto-medievais começavam a mudar lentamente, ainda que o feudalismo imperasse, proliferando por isso tensões e guerras mesmo entre senhores ou reis. A insegurança maior, porém, estava então em nítido desaparecimento, assinalada pelo fim das incursões e ameaças de Normandos e Magiares. Esta tranquilização crescente da Europa era visível também na estabilização e reanimação das rotas mediterrânicas. Nesse contexto de calmia, as cidades renasciam e ganhavam uma nova atmosfera, animada pelo bulício de um comércio renascente e cada vez mais transeuropeu, feito em distâncias cada vez maiores, criando riquezas e grupos de cidadãos detentores de enormes fortunas, ainda que sem títulos senhoriais: a burguesia, em busca de um lugar na política europeia. Socialmente, o crescimento populacional deixava inúmeros jovens sem ocupação, principalmente muitos "filhos segundos" da nobreza, sem heranças compatíveis e por isso ávidos de aventura em busca de riquezas e poder.

Regionalmente, havia ainda situações menos claras ou mais agitadas. A Inglaterra estava ainda na "ressaca" dos efeitos geopolíticos da conquista normanda de 1066, à procura de um equilíbrio nacional, enquanto a Alemanha do Sacro Império se envolvia em questões acerca do poder temporal e espiritual com Roma, para além de lutas intestinas contínuas. A Península Ibérica, essa, estava mergulhada ainda no processo de Reconquista Cristã, então numa fase fulgurante e de clara definição política e territorial dos novos estados cristãos. Apenas a França política e militarmente estava em condições de poder intervir no exterior, como o fez na Espanha, por exemplo. A Itália, mosaico de cidades-estados comerciais e pequenos reinos, interessava-se mais pelos "grossos cabedais" do trato mediterrânico, mostrando-se sensível com o problema da Palestina. A disputa do Mediterrâneo entre cristãos e muçulmanos era outra tónica em crescendo na cristandade.

Era também o tempo da reforma gregoriana, da "explosão" cultural e irradiação de Cluny, do renascimento e de uma certa reforma dos valores cristãos antigos. A expansão religiosa, face aos poderes acumulados pelo papado, era agora possível, ainda para mais com o mundo islâmico em fase de instabilidade causada pelos turcos. Existia, a nível religioso, na cristandade, um enorme zelo pelas peregrinações e proteção dos "lugares santos" da cristandade, desde Santiago a Jerusalém. No Concílio de Clermont de 1095, as peregrinações a esta passavam a estar também sob a alçada de Roma, exortando-se os cristãos a protegerem os que rumavam àquele lugar, bem como se apelava para levantar uma campanha contra os Infiéis, à imagem do que se fazia na Espanha. O sentimento religioso era também muito forte e arreigado nas populações, fortalecido pelos temores milenaristas, que impeliram muitos cristãos para o Oriente em busca dos "lugares santos" e relíquias, onde se acreditava chegaria o último rei cristão seguido dos últimos fiéis, para ali aguardarem o Juízo Final. É neste conjunto de situações, tendências e factos que a Europa cristã se lança na recuperação do berço da cristandade.

Primeira Cruzada (1096-1099)

Em 1095, o Concílio de Clermont decreta a concessão de perdão de todos os pecados - indulgência plenária - a todos os que fossem ao Oriente defender os peregrinos, cujas viagens envolviam cada vez maiores riscos. Com uma receção entusiástica na Europa, aos gritos de "Deus o quer", as populações enchem-se de fervor e aderem àquela medida papal, nomeadamente a França. Em França, são inúmeros os que, oriundos de vários "grupos sociais", envergam desde logo um traje com uma enorme cruz (daí cruzados) e que se colocam ao serviço da Igreja para rumarem ao Oriente. Muitos venderam ou hipotecaram mesmo os seus bens para adquirirem armas para o efeito e obterem dinheiro para a viagem.
Entre os mais humildes, formou-se mesmo uma "cruzada do povo", congregada em torno de Pedro, o Eremita, exortador da mesma. Atravessaram a Hungria e a Bulgária, causando desordens e desacatos, sendo em parte aniquilados pelos búlgaros e depois dizimados pelos turcos em 1096. Outros grupos, como os alemães, que aproveitaram para massacrar judeus, foram proibidos de cruzar nas fronteiras bizantinas.

Em termos de exércitos organizados, existiam quatro grupos. Um sob o comando de Hugo de Vermandois, irmão do rei francês, Filipe I, que partiu em 1096. Parte deste grupo naufragou no Adriático, enquanto os restantes, comandados por Godofredo de Bolhão, duque da Baixa Lorena, e por seus irmãos Eustáquio e Balduíno, atingiram Constantinopla em dezembro. O segundo grupo era comandado por Boemundo de Tarento, normando do Sul de Itália, velho inimigo de Bizâncio. Chega a Constantinopla em abril de 1097. O mais numeroso dos exércitos era o de Raimundo de Saint-Gilles, conde de Toulouse, acompanhado de Ademar de Monteil, legado do Papa e bispo de Puy. Chegaram a Constantinopla em abril do mesmo ano, vindos pela Dalmácia (atual costa croata). O quarto e último contingente, sob as ordens de Roberto da Flandres, a par de Roberto da Normandia, irmão de Guilherme II de Inglaterra, bem como Estêvão de Blois, chegou também à capital bizantina. Ao todo, reúnem-se perto de 30 mil cruzados em Constantinopla, dos quais cerca de 25 mil combatentes a pé. Concordam todos em tomar a Palestina aos Turcos e depois devolver os seus territórios ao imperador bizantino, autor desta exigência.

Assim, em 19 de junho de 1097 os cruzados tomam Niceia, chegando aos arredores de Antioquia em 20 de outubro, não sem recontros duros com os turcos pelo caminho. Esta cidade, todavia, dotada de altas muralhas e muito bem defendida, somente cairá a 3 de junho de 1098, após o extermínio da sua população islâmica. Mais tarde, depois de nova vitória contra os turcos, os cristãos ver-se-ão a braços com uma peste mortífera, que contudo não os impedirá de marchar sobre Jerusalém, agora em poder dos califas fatímidas do Cairo. Com poucas armas e provisões, os cerca de 1200 cavaleiros e 12 mil soldados cruzados começam os ataques à cidade em 15 de julho de 1099, sob o comando de Godofredo de Bolhão, que chegou mesmo a abrir uma das portas da muralha. Neste mesmo ano, conseguem tomar Jerusalém, empreendendo posteriormente a chacina de grande parte da sua população judaica e muçulmana, entre homens, mulheres e crianças.
A maior parte dos cruzados regressaram à Europa, contrariamente a Godofredo, que ficou em Jerusalém, onde foi aclamado pelos cristãos como governador e defensor do Santo Sepulcro, contrariamente às promessas feitas ao imperador bizantino.

Ainda na sequência desta primeira Cruzada, criar-se-á, em meados do século XII, o reino cristão de Jerusalém, o primeiro dos instalados na Terra Santa, fundando-se igualmente os condados de Edessa e Trípolis e o principado de Antioquia. Instalam-se também nesta altura as Ordens Religiosas Militares para defesa dos lugares conquistados pelos cristãos: Hospitalários (1113) e Templários (1118). Os estados latinos da Terra Santa ganham também notoriedade económica, o que desvirtua o projeto das Cruzadas e faz despontar rivalidades violentas, vulnerabilizando a região face ao ressurgimento de estados muçulmanos vizinhos, como o de Mossul, que se estava a instalar na Síria.

Segunda Cruzada (1147-1149)

Em 1144, de facto, os senhores de Mossul, numa fase de reunificação da Síria, conquistaram Edessa aos cristãos. Na Europa, imediatamente se ouvem vozes clamando pela retoma do condado pelos cruzados. É o caso de São Bernardo de Claraval, que, a pedido do Papa Eugénio III, antigo monge cisterciense e discípulo do Santo, lhe pede que exorte os cristãos a empreenderem uma nova cruzada. Na Páscoa de 1146, em Vezelay, são muitos os franceses que acorrem a escutar as palavras de Bernardo. Estas serão levadas à prática pelo imperador germânico Conrado III e por Luís VII da França, para além dos reis da Polóna e da Boémia. O imperador parte para Constantinopla, onde chega em setembro de 1147.

Contrariando os conselhos do soberano bizantino Manuel I, os cruzados avançam para a Anatólia, onde são batidos pelos turcos em Dorileia, em outubro desse mesmo ano. Luís VII ainda acorre em seu auxílio, encontrando Conrado em Niceia. Os franceses, entretanto, chegam a Antioquia em março de 1148, rumando para Jerusalém com cerca de 50 mil soldados. Decidem atacar Damasco. Em 28 de julho de 1148, e depois de cinco dias de cerco, concluíram tratar-se de uma missão impossível pelo que recuaram, terminando assim a segunda cruzada. Um autêntico malogro, com os seus líderes a regressarem aos seus países sem qualquer vitória. Porém, recorde-se que será desta cruzada que irão sair alguns cruzados para auxiliarem Afonso Henriques na conquista de Lisboa em 1147, como relata nas suas cartas o cruzado inglês Osberno.

Terceira cruzada (1189-1192)

Acossados por graves lutas internas e ataques dos maometanos ao longo de 25 anos depois da segunda cruzada, os estados cristãos do Oriente mergulharam numa situação política e militar difícil. Inversamente, em termos económicos e patrimoniais, conheceram uma época de desenvolvimento, principalmente no respeitante aos Templários e Hospitalários. O regime feudal difundia-se também, a par da miscigenação entre os vários povos europeus ali estabelecidos e da gradual latinização da Igreja. Este clima, no entanto, acicatou disputas entre os estados e os próprios cristãos. Outro perigo espreitava: Saladino. Este apoderou-se de Jerusalém em 1187, o que desencadeou na cristandade uma nova onda de preocupação com a Terra Santa. O Papa Gregório VIII lança imediatamente uma nova cruzada, com o apoio de vários monarcas, entre os quais o imperador germânico Frederico I, o Barba-Roxa, Filipe Augusto de França, Henrique II de Inglaterra (depois substituído pelo seu sucessor, Ricardo I, Coração de Leão) e Guilherme II da Sicília.

Em abril de 1191 os franceses alcançam Acre, no litoral da Terra Santa, e dois meses depois junta-se-lhes Ricardo. Ao fim de um mês de assédio, os cruzados tomam a praça e rumam para Jerusalém, agora sem o rei francês, que regressara ao seu país. Os cruzados, entretanto, vencem em Arsuf e retomam Jaffa, sob o comando de Ricardo, mas não conseguem tomar Jerusalém. Entretanto já o rei inglês tinha voltado para a Europa, o que faz terminar a cruzada que, apesar de ter ficado às portas de Jerusalém, acabou por fortalecer a soberania dos estados latinos da Terra Santa.

Quarta cruzada (1202-1204)

A partir de 1198 o Papa Inocêncio III começou a incitar a cristandade para empreender um novo esforço de cruzada, tendo tido bastante recetividade junto da nobreza europeia. O prestígio e capacidade de legislação e de organização eram apanágio deste papa, o que fazia recair sobre o seu pontificado uma enorme aura de confiança popular. O transporte dos exércitos fez-se a partir de Veneza e dos seus barcos, república comercial que então vivia numa tensão crescente com Constantinopla. Depois do massacre de mercadores daquela cidade italiana em 1182 devido aos privilégios comerciais que detinham. Se por um lado a pretensão papal desta cruzada apontava para a destruição do poderio muçulmano no Egito, por outro a tensão entre Veneza e os bizantinos acabaria por influenciar o decurso das operações militares, cujos objetivos se centravam cada vez mais em Constantinopla, devido à intenção veneziana de vingar o massacre dos seus mercadores. Além disso, o Egito mantinha boas relações a todos os níveis com Veneza.

Perante esta situação, e debatendo-se com dificuldades financeiras para pagar a travessia dos barcos e exércitos para o Egito (Veneza exigia 85 mil marcos de ouro), os venezianos negociaram com os chefes cruzados um ataque a Zara, cidade na costa da Dalmácia antes em poder de Veneza. Esta cidade, efetivamente, veio a cair no poder das hostes cristãs em 1202, contra a vontade de Inocêncio III, que condenava veementemente a secularização da quarta cruzada e excomungou mesmo os venezianos. Por outro lado, na sequência desta operação militar, os cruzados, em 1203, tomam Constantinopla e coroam Aleixo IV como imperador bizantino, a par de seu pai, Isaac Ângelo. Inocêncio III aceita a situação, sonhando com a reaproximação entre as duas Igrejas desavindas. Contudo, Aleixo será assassinado pelos gregos, o que impele Veneza a tomar o poder no Bósforo. Para tal, contaram com o apoio dos cruzados, que em abril de 1204 assaltaram de novo Constantinopla, submetendo-a a três dias de massacres e pilhagens, dividindo depois os despojos. Apesar de enfraquecido, o império bizantino não desvaneceu, retomando a sua pujança em 1261, quando Miguel VIII, paleólogo, toma o poder. Entretanto, os cruzados tinham estabelecido uma série de principados latinos na Grécia, como o ducado de Atenas.

A trégua assinada por Ricardo Coração de Leão em 1191 mantinha-se, apesar da despropositada e desastrosa quarta cruzada, em pleno século XIII, assegurando a manutenção dos estados latinos do Levante (Arménia, Jerusalém-Acre, Trípoli, Chipre) e dos próprios cruzados.

Posteriormente a esta quarta cruzada, desencadeou-se uma série de movimentos de tipo "cruzada" de carácter espontâneo na Europa a caminho da Terra Santa, como a denominada "cruzada das crianças", em 1212, composta maioritariamente por jovens franceses ou alemães. Esta triste caminhada de inocentes redundou numa tragédia inimaginável: uns morreram à fome e de esgotamento, outros foram assassinados, afogados no mar ou, então, acabaram vendidos como escravos.

Quinta Cruzada (1215-1221)

Também da iniciativa de Inocêncio III, que a propõe em 1215 no quarto Concílio de Latrão, mas somente posta em prática por Honório III, seu sucessor no trono de S. Pedro. Organizada pelo imperador germânico Frederico II, pôs-se a caminho em 1218, comandada por Jean de Brienne, rei em título de Jerusalém, e Leopoldo VI, duque da Áustria. O objetivo era o Egito, mas apenas acabaram por assaltar Damieta, sendo rechaçados no delta do Nilo. Querelas internas minaram igualmente esta cruzada. Porém, numa paz negociada em 1219 com os muçulmanos, o incrível aconteceria: Jerusalém era oferecida aos cristãos, entre outras cidades, em troca da sua retirada do Egito. Mas os chefes cruzados, nomeadamente o cardeal Pelágio, recusaram tal oferta, objetivo máximo da Cristandade: consideravam que os muçulmanos não conseguiriam resistir aos cruzados quando chegasse Frederico II com os seus exércitos. Em 1219 Damieta caiu na posse dos cruzados, que falham depois o Cairo. O imperador atrasara-se, e a cruzada fracassava, assinando-se depois uma trégua de oito anos. Foi a última cruzada em que intervieram tropas do Papa.

Sexta Cruzada (1228-1229)

Lançada pelo imperador excomungado Frederico II em 1227, só no ano seguinte esta cruzada ganharia forma. A sua demora em avançar na empresa deve-se à excomunhão por Gregório IX. De facto, ao partir para reclamar os seus direitos sobre Acre-Jerusalém e Chipre, Frederico II recebeu uma missão de paz do sultão do Egito, que retardou o seu avanço. Finalmente, em 1228, acabou por partir, apesar de ser defensor do diálogo com o Islão, religião que o apaixonava sobremaneira, e preferir conversar em vez de combater. Todavia, e apesar do seu humanismo, não conseguiu evitar a excomunhão, o que frustrou as suas pretensões naquelas paragens levantinas. Conseguiu, com o apoio dos cavaleiros teutónicos e de algumas tropas suas, selar um bom acordo com o Egito de Malik el-Kamil, sobrinho de Saladino, em 1229: Jerusalém ganhava Belém, Nazaré e Sídon, um corredor para o mar, para além de uma trégua de dez anos. Coroado rei de Jerusalém, Frederico regressou à Europa e retomou relações com Roma em 1230. Mas a Cidade Santa acabaria por cair entretanto em 1244 novamente em poder do Islão.

Sétima Cruzada (1248-1254)

Findos os dez anos da trégua de 1229, uma expedição militar cristã encaminhou-se para a Terra Santa, a fim de reforçar a presença cristã nos lugares santos. Mas, todavia, Jerusalém seria retomada pelos muçulmanos em 1244 e no ano seguinte dava-se o desastre de Gaza. Uma nova empresa militar cruzada dirige-se então contra o Egito, comandada por S. Luís (XI), rei de França, que expressara ao Papa Inocêncio IV, no Concílio de Lyon, o desejo de apoiar os cristãos do Levante. Partiu de Aigues-Mortes em 1248, desta feita com um respeitável exército de 35 mil homens. Escalou em Chipre em setembro de 1248, atacando depois o Egito. Aqui, retoma Damieta em junho de 1249 e quase conquista o Cairo em 1250, só não o conseguindo porque os muçulmanos se apoderaram das provisões alimentares dos cruzados, o que provocou fome e doenças nas hostes de S. Luís. Obrigado a retirar-se perante este cenário, o rei chegou mesmo a ser feito refém, sendo posteriormente libertado após o pagamento de um avultado resgate e restituição de Damieta, em 1250. Todavia, só abandonaria a Palestina em 1254, depois de conseguir recuperar todos os prisioneiros cristãos e de ter concluído um esforço de fortificação das cidades francas do Levante.

Oitava Cruzada (1270)

Entre 1265 e 1268, os egípcios mamelucos conquistaram uma série de territórios cristãos no litoral da Palestina e do Líbano, como Haifa ou Antioquia, para além da Galileia e da Arménia. Luís IX de França, ou S. Luís, retomou então o espírito das cruzada e lançou novo empreendimento armado em 1270, embora sem grande percussão na Europa. Os objetivos eram agora diferentes dos projetos anteriores: geograficamente, o teatro de operações não era o Levante mas antes Tunes, e o propósito, mais que militar, era a conversão do emir da mesma cidade norte-africana. Redundou, todavia, como quase todas as outras expedições, numa tragédia. Não chegaram sequer a ter oportunidade de combater: mal desembarcaram as forças francesas em Tunes, logo foram acometidas por uma peste que assolava a região, ceifando inúmeras vidas entre os cristãos, nomeadamente S. Luís e um dos seus filhos.

Os estados europeus do Levante ficavam assim entregues ao seu próprio destino e à mercê dos muçulmanos, principalmente dos turcos e dos mamelucos egípcios. A tolerância até então evidenciada pelos muçulmanos em relação aos cristãos esmoreceu e desapareceu, despertando novamente a ideia de guerra santa entre os seguidores de Maomé, depois de tantas agressões cristãs, fazendo cair uma a uma as possessões latinas do Levante. Economicamente, as cidades mercantis italianas (Génova e Veneza, principalmente) passaram ao lado da tragédia das cruzadas, aumentando o seu tráfico - e respetivos lucros - no Mediterrâneo oriental. Na Europa, por outro lado, as monarquias saíram reforçadas, pois muitas famílias nobres do Velho Continente perderam filhos e herdeiros na Terra Santa ou endividaram-se de tal modo que o seu poder se esfumou, contribuindo também para uma emancipação do poder popular e local, agora desagrilhoados das peias e amarras do feudalismo derrotado no Oriente. No século XIV, e como reflexo do fracasso das cruzadas e da sua retirada da Síria e Palestina, desaparecerá também uma das instituições basilares do mundo latino do Oriente: os Templários.
Como referenciar: As Cruzadas in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-12-08 05:45:29]. Disponível na Internet: