Artigos de apoio

Bíblia
Conjunto dos livros escritos por inspiração divina, pelos quais Deus se revela e dá a conhecer a Sua vontade. Divide-se em duas grandes secções: o Antigo Testamento (AT), que contém a revelação divina anterior ao nascimento de Jesus Cristo, e o Novo Testamento (NT), que inclui toda a revelação feita por Cristo, pelos Apóstolos, seus fiéis seguidores e por outros autores considerados sagrados.

O que é a Bíblia
A Bíblia é a linguagem humana da Palavra de Deus, que falou aos homens através de vários homens por Ele escolhidos mas principalmente por Jesus Cristo, tendo em conta vários condicionalismos: de tempo, de espaço, de raça e de cultura. Várias são as circunstâncias históricas que estão por detrás de cada um dos livros da Bíblia, fruto do tempo em que foram escritos; diversos foram também os ambientes e lugares em que se escreveram esses livros, da Palestina ao Império Romano, passando pelo mundo helénico; a origem dos autores é quase sempre semítica, de matriz judaica; de igual modo há condicionantes de natureza cultural, pois os autores provinham de vários tipos culturas e mentalidades por vezes muito diferenciadas, deixando sempre marcas da sua personalidade.
No AT, a Palavra divina foi revelada através da Tradição e da Sagrada Escritura, enquanto que no NT, há uma nova Revelação, agora feita por Cristo: o Evangelho, transmitido depois pelos Apóstolos, gerando a Tradição Apostólica. Com a fixação por escrito desta nova Tradição pelos Evangelistas, inspirados pelo Espírito Santo, surge a Sagrada Escritura do NT. Na inspiração divina que está na base da Sagrada Escritura radica a marca distintiva da Bíblia em relação aos outros livros humanos. Desde sempre, da Antiguidade Judaica até aos dias de hoje, passando pelos Santos Padres (dos primeiros séculos, não papas), se acredita que Deus é o autor da Sagrada Escritura, que se serviu do homem para que ela fosse escrita e se perpetuasse. Quanto à verdade da Bíblia, esta é progressiva no seu processo de leitura, estando em todo o conjunto de livros que a forma, e não num só, isoladamente.
Para se interpretar a Bíblia, isto é, para se conhecer o verdadeiro significado da totalidade dos seus livros, há que ter em linha de conta os seus vários géneros literários, fossem eles históricos, proféticos ou poéticos, e deve-se entendê-los conforme o foram pelos povos semitas ou helenistas no tempo em que foram redigidos. Vários são, tradicionalmente, os sentidos que se encontram na leitura da Bíblia: o literal, o pleno (significado mais profundo do texto), o típico (de natureza simbólica) ou o acomodatício (dar um sentido diferente às palavras em relação ao que o autor deu).
Mas quais são então os livros da Bíblia? Quer no AT quer no NT podem-se distinguir três tipos de livros: históricos, sapienciais e proféticos, de acordo com o género literário dominante, que pode ser narrativo (como os Quatro Evangelhos), epistolar (as Cartas) ou profético (como no Apocalipse de S. João, o livro que encerra a Bíblia).
O AT é a história da revelação de Deus ao povo de Israel, escrita e explicada nos livros judaicos da Arca da Aliança. O seu objetivo é eminentemente profético, o de anunciar a vinda do Messias e do seu Reino (messiânico) e preparar o povo de Israel para esse acontecimento redentor. Por dar a conhecer formas de vida, costumes e imagens de Deus menos concordantes com as que hoje se têm e as próprias práticas que a Tradição veiculou ao longo dos tempos, diz-se que o AT com as suas imperfeições evoluiu para o NT na busca da perfeição que atingiu após a vinda de Cristo. O AT é pois a raiz do AT e da própria religião cristã. Divide-se em quatro grandes grupos de livros: Penateuco, L. Históricos, L. Sapienciais e L. Proféticos. O NT divide-se em Evangelhos e Atos dos Apóstolos, Cartas (S. Paulo; aos Hebreus; Católicas, como as de Tiago, Pedro...) e Apocalipse. A lista dos livros do NT foi feita a partir de uma lista elaborada por Atanásio em 367, reagindo a uma lista redigida pelo herege Marcião. A Igreja, na pessoa do papa S. Dâmaso, aprovou em 382 a lista de Atanásio e considerou-a como cânone final, depois da opinião favorável de S. Jerónimo. No concílio de Cartago de 397 definiram-se os cânones dos dois Testamentos, inalteráveis até hoje.

A obra
Em termos de suporte material, a Bíblia começou por ser um conjunto de rolos obtidos a partir da prensagem de caules de papiro, como se fazia já para os escritos hebraicos antigos, conforme se pode constatar nos Manuscritos do Mar Morto, descobertos em Qumran em 1947 e que datam de entre 250 a.C e 70 d.C. Quanto à sua história enquanto livro agrupando o Antigo e o Novo Testamento, sabe-se que entre os séculos III e II a.C., a Bíblia hebraica - dividida em Torah, ou Lei (o Pentateuco), e Profetas (Anteriores, como Josué) e Posteriores (como Isaías), mais ou menos correspondente ao AT - foi traduzida para grego. A versão mais conhecida destas traduções é a greco-alexandrina dos "Setenta", composta em Alexandria no século II a.C. por 72 tradutores. A Hexapla, de Orígenes (228-240 d.C.) foi outra versão grega famosa. A língua do AT é o hebraico, com algumas exceções em aramaico ou grego. O manuscrito desta tradução estava depositado em Cesaréia da Palestina, tendo sido consultado, por exemplo, por Eusébio e por S. Jerónimo. A ocupação muçulmana da região no século VI poderá ter feito desaparecer o manuscrito.
Em latim, uma das primeiras versões data de 150 d.C., chamada Vetus Latina ou Ítala, que foi muito recomendada por S. Agostinho. Os Salmos nesta versão foram mais tarde corrigidos por S. Jerónimo, entre 383 e 392, a pedido do papa S. Dâmaso, que os adotou para uso oficial na Igreja, como Saltério Romano. O mesmo S. Jerónimo, trabalhador incansável, exegeta notável e místico fervoroso, redigiu (cerca de 420) uma versão latina integral da Bíblia, chamada de Vulgata (ou Editio Vulgata), realizada a partir do original hebraico. Foi um trabalho formidável que resultou numa tradução magistral de grande valor literário. Na Idade Média e Renascimento, muitos foram os Biblistas e exegetas que confirmaram a valia desta versão de S. Jerónimo, como Roger Bacon ou Erasmo de Roterdão. O Concílio de Trento (1545-1563) aprovou mesmo esta versão como "autêntica". A Vulgata serviu também de base às traduções para línguas "vulgares" feitas por heréticos, como Wycliff, ainda no século XIV. Mas houve ainda papas, como Sisto V ou Clemente VIII que mandaram fazer revisões da Vulgata sempre no intuito de recuperar o seu estilo primitivo, anterior portanto às sucessivas transcrições e reedições. Recorde-se, por outro lado, que a traduções para "vulgar" existiram já antes dos movimentos contestatários dos séculos XIV-XVI. Por exemplo, atente-se na Bíblia de Ulfilas (séc. IV), bispo ariano da Germânia, que traduziu de grego para gótico as Sagradas Escrituras, de forma a ser entendida por inúmeros povos da Europa Central.
Das versões modernas da Bíblia, a mais famosa é a tradução para alemão de Lutero, feita em 1534, a partir do texto hebraico e grego revistos por Erasmo em 1516, quase nada usando a Vulgata. Lutero pretendia aproximar a Bíblia da maneira de sentir das pessoas do seu tempo, embora se deva referir que antes da sua versão protestante já existiam catorze traduções para alto-alemão e três para baixo-alemão. Entre as versões protestantes, cumpre referir uma outra, famosíssima: a Great Bible, mandada fazer por Henrique VIII, em Inglaterra, embora neste país se tenham feito algumas outras traduções.
Desde Trento que se fizeram também na Igreja católica traduções para línguas vulgares, como o português, adaptando-se as Sagradas Escrituras às novas sensibilidades e exigências em termos de capacidade de leitura e compreensão, pois os conteúdos e características teológicas mantêm-se imutáveis. Todavia, existe uma comissão pontifícia, subordinada diretamente ao Santo Padre, que tem como missão a revisão da Vulgata e a sua adequação constante à Tradição.
Como referenciar: Bíblia in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-06-25 20:06:12]. Disponível na Internet: