Cancioneiro Geral

Volumosa coletânea poética, reunida e organizada por Garcia de Resende, impressa em Lisboa, em 1516, por Hermão de Campos. Agrupa a produção poética de 289 poetas portugueses e de 29 poetas castelhanos, num total de 1000 composições. Aí encontramos novas formas poéticas como vilancetes, cantigas, esparsas, trovas, em medida velha - redondilha menor ou maior - e ainda um certo número de composições de arte maior.
Entroncando na tradição galego-portuguesa dos cancioneiros trovadorescos coletivos e em contacto com os cancioneiros castelhanos quatrocentistas, nomeadamente o de Hernando del Castilho, o Cancioneiro Geral nasce do propósito de perpetuar as "cousas de folgar e gentylezas", no qual conto entra a "arte de trovar", cultivadas nos serões palacianos, declarando-se o autor, no prólogo, leal ao princípio de não continuar a incúria com que os portugueses registam as coisas "dinas de grande memoria", votando-as, assim, ao esquecimento. Refletindo nas composições dos seus cerca de 300 colaboradores, a mentalidade e os costumes das cortes de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I, a poesia palaciana, produzida entre cerca de 1440 e 1516, na sua dupla vocação, lúdica e de convívio social, desenvolve aí géneros, temas, e tradições literárias diversas. Com efeito, na charneira entre a época medieval e a época moderna, aí convivem uma linha de continuidade com a poesia medieval, através de composições satíricas, através de géneros específicos como o pranto ou a tenção e através de uma poética amorosa, exacerbada nos excessos de conceptualização do sofrimento amoroso; e uma linha de rutura que denuncia um gosto crescente pela cultura clássica latina - o aparecimento da mitologia, o gosto da áurea mediania e tentativas fracassadas de poesia épica -, a influência italiana de Petrarca - o ideal da mulher perfeita, o amor platónico e a Natureza como confidente - e Dante - que inspirou poetas a traçar ambientes noturnos e a exprimir a dor dos amantes no Inferno.
Um dos filões mais importantes do Cancioneiro corresponde às composições de temática amorosa. Manifestação da sobrevivência dos códigos de amor cortês e presos a lugares-comuns que servem de ponto de partida para a expressão conceptualista da casuística amorosa, fundada nas antinomias morte/vida, cuidar/suspirar, querer/desejar, ver/cegar, etc., estes textos nem sempre primam pela originalidade, embora alguns cheguem a compor pequenas obras-primas da lírica quatrocentista e quinhentista portuguesa. A outra vertente mais proeminente do Cancioneiro é a da poesia satírica: continuando a tradição medieval das cantigas de escárnio e maldizer, estas trovas, individuais ou de composição coletiva, tendo como alvo judeus, funcionários régios, cortesãos e até as próprias damas, ridicularizam os modos de vestir, situações indecorosas, os constrangimentos da vida na corte, a aventura expansionista. A par da lírica amorosa e satírica, o Cancioneiro acolhe ainda poemas elegíacos, encomiásticos, heroicos e religiosos.
No grupo de autores que compõem o Cancioneiro Geral encontram-se poetas de altíssimo valor, como o Conde de Vimioso, Diogo Brandão, Duarte de Brito, Garcia de Resende, João Roiz de Castel Branco, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro, entre outros.
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