Chegada à Índia e consolidação do Império Oriental

Com a morte de D. João II, D. Manuel I chegou ao trono português em 1495, um ano depois da assinatura do Tratado de Tordesilhas segundo o qual os impérios ibéricos dividiram o domínio dos mares. O novo monarca respeitou e deu prosseguimento à política voltada para a expansão perfilhada pelo Príncipe Perfeito, e seguiu de perto a preparação da viagem de Vasco da Gama.
Um dos objetivos primordiais desta viagem era a fixação de um entreposto comercial em Calecute, o principal fornecedor de especiarias, no centro das rotas comerciais que passavam pelo mar Vermelho, pelo Golfo Pérsico, por Bengala e Malaca.
O capitão-mor estava incumbido de negociar com o Samorim ("Senhor dos Mares") ou rei de Calecute, um acordo político e comercial que resultasse na fixação de uma feitoria neste ponto do globo. Contudo, esta ação aparentemente simples iria chocar com os interesses dos comerciantes muçulmanos que detinham o monopólio deste comércio. Para atingir estes territórios longínquos era preciso, em primeiro lugar, ultrapassar as vicissitudes de uma longa e perigosa viagem até Calecute. A 8 de julho de 1497, a armada portuguesa partiu do Tejo e a 27 desse mês, estava a fazer escala na ilha de Santiago, no Arquipélago de Cabo Verde, de onde zarparam a 3 de agosto. Passados nove dias estava já na baía de Santa Helena, no sudoeste de África. Aí os barcos foram reparados e reabastecidos, para que a armada retomasse a viagem e se preparasse para ultrapassar o Cabo da Boa Esperança, o que aconteceu a 22 de novembro. No dia 25, a armada chegava à angra de São Brás, onde fez aguada. Passados treze dias, estava pronta para seguir viagem e ultrapassar os limites atingidos pelo navegador Bartolomeu Dias.
Entretanto, os navegadores avistaram a terra do Natal (assim batizada porque quando aí chegaram era 25 de dezembro). Seguidamente, pararam no Rio do Cobre e no rio dos Bons Sinais, atingindo a ilha de Moçambique a 2 de março do novo ano. Depois de terem sentido uma forte hostilidade por parte do sultão que governava a ilha, quando este descobriu que eram cristãos, deixaram Moçambique a 29 desse mês na companhia de um piloto de origem muçulmana, que conseguiram a custo.
No dia 7 de abril, os descobridores avistaram Mombaça onde tiveram problemas, e no dia de Páscoa passaram em Melinde, onde o navegador português foi bem recebido, conseguindo um piloto que o conduzisse ao seu destino final, de seu nome Aahmed ben Madjid.
Pouco depois partiram rumo a Calecute, cidade onde desembarcaram a 22 de maio de 1498, quase um ano após a sua partida.
A receção dos portugueses foi bastante calorosa, mas este clima de bom relacionamento cedo se transformou num clima de desconfiança e até de alguma hostilidade, devido à tensão provocada pelos mercadores muçulmanos que se sentiam ameaçados com a concorrência dos portugueses. Registe-se também que para esta situação contribuiu o fracasso representado pelos presentes trazidos de Portugal para o rei de Calecute, considerados indignos para um povo habituado a ser agraciado com outro tipo de dádivas mais faustosas.
Este impasse foi ultrapassado sendo então possível fazer uma troca de produtos: os tecidos, as mantilhas e o estanho foram cambiados por uma porção de pedras preciosas e por algumas especiarias. De qualquer modo, não se concretizou a grande missão desta viagem, que era o estabelecimento de uma feitoria.
Os portugueses voltaram à sua terra natal a 29 de agosto de 1498, depois de passarem alguns meses de grande tensão. O regresso foi bastante agitado, pois as calmarias equatoriais e o escorbuto entraram em ação com graves consequências. O elevado número de mortes levou mesmo ao incêndio da nave São Rafael.
O primeiro barco a regressar a Portugal foi o de Nicolau Coelho. Vasco da Gama chegou um pouco mais tarde, em setembro de 1499, pois fizera escala na Ilha Terceira por motivos do falecimento do seu irmão.
Com o regresso de Vasco da Gama, D. Manuel repensou a estratégia traçada para a Índia. Desta, resultou uma nova viagem para a qual preparou uma armada composta por treze navios e 1500 homens, comandada por Pedro Álvares Cabral, que a 9 de março de 1500 partiu da capital para voltar a Calecute e desta vez afirmar o poder do monarca português.
Durante a sua viagem, a armada vislumbrou terra a 22 de abril de 1500, a qual viria a receber o nome de Vera Cruz. Para esta notícia chegar até D. Manuel, um barco voltou a Portugal para transmitir a boa nova (ou confirmar uma suposição antiga...). Tinha-se descoberto o Brasil.
No segundo dia do mês seguinte, a armada retomou a sua viagem, chegando ao seu destino a 13 de setembro, com apenas seis dos iniciais treze barcos. Mais uma vez, o rei de Calecute não se vergou perante os portugueses. Pedro Álvares Cabral chegou mesmo a bombardear a cidade por dois dias enquanto os navios atracavam no porto indiano para carregar as mercadorias.
O rei D. Manuel não ficou muito satisfeito com o resultado desta viagem, pois embora se tenham importado produtos de luxo, se tenham estabelecido relações comerciais com os reis de Cananor e de Cochim e se tenha descoberto a Terra de Vera Cruz, os objetivos "indianos" continuavam a não ser plenamente atingidos.
Assim, D. Manuel mandou preparar uma nova viagem. Vasco da Gama foi mais uma vez chamado a comandar uma armada, mais poderosa do que as anteriores e apetrechada com vinte navios, cinco dos quais eram chefiados pelo seu tio, Vicente Sodré, que permaneceriam na Índia para apoiar as feitorias de Cochim e Cananor e para afastar os muçulmanos do mar Vermelho. Tinha intuitos punitivos para com o Samorim de Calecute, devido ao massacre dos portugueses que lá ficaram.
A opção pela força era, agora, bem clara. Um dos grandes propósitos desta viagem era a vingança ou castigo de todos aqueles que foram anteriormente hostis para com os portugueses. A primeira intervenção foi direcionada para a costa oriental africana. Em julho de 1502, Vasco da Gama ordenou o bombardeamento do porto de Quíloa, na África Oriental, num passado recente hostil para com Pedro Álvares Cabral e os seus homens, impondo um tributo de 500 maravedis ao sultão. Face a esta ofensiva, o monarca africano não teve outro remédio senão pagar um pesado tributo em ouro aos portugueses. Contudo, o principal objetivo era o samorim de Calecute. Para com ele e as suas forças, Vasco da Gama foi implacável. A cidade foi bombardeada e os seus navios tomados e destruídos. Em resultado destas ações, a autoridade portuguesa foi finalmente imposta. Mas o custo era elevado. A desconfiança para com os súbditos do rei de Portugal nunca foi ultrapassada.
Nos primeiros anos do século XVI, os portugueses tentaram aplicar nesta região a estratégia utilizada na costa ocidental africana, através da qual se estabeleciam conversações com as autoridades locais para a fundação de feitorias, que de facto vieram a ser fixadas em Cochim, em Cananor, em Coulão e em São Tomé de Meliapor.
A política governativa aqui implementada teve, no entanto, que ser alterada para responder a alguns problemas específicos. Assim, D. Manuel criou o cargo de vice-rei da Índia, atribuído pela primeira vez a D. Francisco de Almeida em 1505. No governo de D. Francisco de Almeida (1505-1509), foram seguidas as diretrizes da política imperial manuelina. O vice-rei mandou erigir as fortalezas de Sofala, Moçambique, Quíloa, Socotorá e Cananor e entrou na batalha de Diu, um episódio decisivo para o desenvolvimento do império português no Oriente.
D. Afonso de Albuquerque tomou o governo da Índia em 1509 e conseguiu, a partir daí, trazer para a coroa portuguesa o monopólio do comércio das especiarias através da defesa do Índico com armadas e a ocupação de determinados pontos chave como, por exemplo, a tomada de Ormuz, Goa e Malaca.
Os vice-reis subsequentes tentaram seguir o seu projeto inicial e, para tal, fundaram feitorias e missões ao longo do território português oriental. O comércio era organizado através dessa rede de feitorias a partir das quais os produtos eram exportados para o Ocidente, pela Rota do Cabo, até chegarem à Casa da Índia e daí, à feitoria da Flandres (Antuérpia), ligação especial deste tráfico à Europa. Esta feitoria distribuía as mercadorias orientais e permitia a compra de metais preciosos essenciais para a realização deste comércio.
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