colarinhos brancos

O livro White Collar, the American Middle Classes foi publicado por C. Wright Mills em 1951. Nessa obra, o autor procede à análise das características económicas, políticas e psicológicas de uma nova classe social, que denomina colarinhos brancos, classe que surgiu no seguimento da estandardização do capitalismo norte-americano. O sonho americano, simbolizado pelo mito do self-made man e pela cultura da liberdade, acabou por sucumbir à petrificação burocrática. Aliás, o autor concebe a sociedade moderna como "um gigantesco ficheiro", "um universo novo de gestão e
de manipulação" (C. Wright Mills). Encontramos nesta tese a predição de uma convergência ideológica das sociedades modernas: "É no mundo dos colarinhos brancos que devemos procurar os traços mais característicos da vida no século XX". Wright Mills vê na dissolução das antigas classes médias, baseadas na propriedade privada e na independência dos indivíduos, o futuro das sociedades modernas. Para ele, o advento dos colarinhos brancos, ou seja, das novas classes médias, acompanha o fenómeno do desenvolvimento estatal e coletivo da propriedade, a formação dos monopólios, a burocratização da economia, prefigurando, assim, uma decadência das liberdades adquiridas sob a égide da democracia clássica.
Wright Mills analisa o processo da perda de independência das pessoas em geral e dos pequenos empresários em particular e sublinha o perigo da sua redução ao regime do assalariado. Mas fá-lo de modo oposto ao de Marx, que, em virtude da sua teoria da agudização da luta de classes, do enriquecimento da classe burguesa e do empobrecimento da classe proletária, nunca se preocupou em discernir a especificidade das classes intermédias, como a dos pequenos funcionários. Ora, segundo Wright Mills, a formação dos colarinhos brancos representa uma mudança na estrutura das classes sociais que não corresponde às previsões apontadas por Marx: "O desenvolvimento deste grupo [os colarinhos brancos] levantava um problema aos marxistas, pois mostrava que a oposição entre proprietários e não-proprietários era substituída por uma diferenciação entre camadas não proprietárias.". O lavrador, o artesão e os primeiros empresários representam o tipo ideal da independência e da liberdade e encarnam um tipo de individualismo "integral" alicerçado na expressão da vontade e "na força física e na engeniosidade". O "grande capitão da indústria", que "era simultaneamente proprietário e patrão da empresa que tinha criado", ainda pertence a esse tipo e insere-se num modelo que permite a repartição da propriedade. A pequena propriedade implica a possibilidade de existência de uma multiplicidade de proprietários. À sua maneira, Wright Mills reinterpreta a relação entre a liberdade individual e a propriedade privada, estabelecida por J. Locke, mas o seu procedimento não corresponde à crítica que os neoliberais, à semelhança de F. Hayek e de L. Von Mises, fizeram à burocracia. O mercado não constitui a solução-panaceia, já que as próprias empresas se burocratizam. "Na realidade, aquilo que subsiste dos antigos mecanismos do mercado já não pode funcionar hoje sem o apoio de novos modos de integração. No espaço de três ou quatro gerações, os Estados Unidos passaram do estádio das pequenas empresas disseminadas a um sistema cada vez mais burocrático, que coordena as atividades especializadas. A economia tornou-se numa espécie de jaula burocrática.".
Sob o efeito conjugado da concentração, da monopolização e da centralização da propriedade, esboça-se um aprofundamento da dominação. Nelas podemos antever o desmoronamento das antigas classes médias em prol das novas: "A propriedade democrática, explorada pelo próprio dono, cedeu o lugar à propriedade de classe, que outros são contratados para explorar e dirigir. [...] O indivíduo que possui uma propriedade democrática tem poder sobre o seu trabalho; pode governar-se a si próprio e organizar o seu dia de trabalho. O indivíduo que possui uma propriedade de classe tem poder sobre os não-proprietários, que devem trabalhar para ele; o proprietário dirige a vida profissional dos não-proprietários. [...] Assim, a centralização da propriedade foi, portanto, o fim da união da propriedade e trabalho, como base da liberdade essencial do Homem, e a impossibilidade de o indivíduo ter um meio de vida independente modificou a base do seu plano de vida, assim como o ritmo psicológico desse plano.".
Desta forma, Wright Mills não deixou de notar as consequências políticas nefastas que essa mudança socioeconómica induziu. De facto, a liberdade e a segurança tomaram um significado novo, com a centralização da propriedade, ou seja, com a sua dissolução. Quando a propriedade é amplamente repartida e constitui o modo de vida e o modo de trabalho dominantes, os homens vivem em toda a liberdade e segurança, tendo como únicos limites as suas capacidades individuais e as regras do mercado. A repartição da propriedade garante, assim, a repartição do poder político e, por conseguinte, a liberdade. Pelo contrário, a concentração da propriedade implica a concentração do poder, ou seja, o domínio sobre uma quantidade ilimitada de empregados dependentes: "Em termos negativos, a transformação da classe média representa uma passagem da propriedade para a não-propriedade; em termos positivos, é a passagem de uma estrutura social baseada na propriedade a uma estrutura baseada no emprego. Para compreender o carácter da antiga classe média, é preciso estudar a propriedade do pequeno empresário; para compreender o da nova classe média, é necessário conhecer a economia e a sociologia do emprego.". Os perigos inerentes à transformação da sociedade numa grande hierarquia do emprego não escaparam a Wright Mills. Do ponto de vista dos dominados, a liberdade e a segurança residem na procura da estabilidade do emprego. Do ponto de vista dos dominantes, a liberdade e a segurança consistem no poder que emana do controlo do emprego, ou seja, das possibilidades de distribuição e de gestão dos cargos. De qualquer modo, o totalitarismo moderno alimentou-se dessa preponderância crescente dos empregados em relação aos proprietários e produtores independentes.
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