De Homero aos Sábios Filósofos

Os Gregos tiveram a virtude de ser exímios criadores em todos os géneros literários. Ao longo dos séculos VII e VI escreveram impressionantes obras líricas e posteriormente o género histórico e dramático e a Filosofia marcaram definitivamente o pensamento europeu.
Já no fim do período micénico se compunham poemas de certa duração destinadas a serem ouvidos pelos aristocratas, acompanhados por música e cantados por cantores profissionais - os aedos. Estes poemas eram redigidos numa língua artificial, cujas fórmulas se encontram, posteriormente, nos poemas homéricos. Essa tradição está bem patente na Odisseia, quando se cantam, por exemplo as vidas amorosas de Afrodite e de Ares.
Foi necessário passar dos pequenos poemas cantados em reuniões privadas para poemas mais longos recitados em grandes festas, que se faziam, em torno de um santuário, em presença de inúmeros ouvintes que vinham, um dia após outros, escutar a sequência da história. Foi desta forma que os poemas homéricos, a Ilíada e a Odisseia, foram recitados. O seu plano está muito bem estruturado no conjunto e nota-se uma grande unidade em relação à forma e aos processos de descrição e de narração. Estes dois textos podem perfeitamente ser utilizados como autênticos documentos históricos, pois encontram-se aí sequenciados vários acontecimentos em épocas sucessivas. As influências dos poemas cantados primeiramente pelos aedos está presente na obra homérica, pois notam-se os reflexos de composições do fim do segundo milénio, contemporâneas da queda da civilização micénica. Usando uma linguagem muito artificial, a redação dos dois poemas homéricos datam do século VIII ou VII, e Homero, apesar de colocar a narração dos factos num tempo muito longínquo, comete alguns anacronismos porque não se desliga totalmente dos hábitos da sociedade onde ele próprio está inserido, nomeadamente quando descreve objetos ou costumes. Já o mesmo não acontece com Hesíodo, pois os seus poemas trazem a marca de uma época que não se confunde "a Idade do Ferro" mostrando através dos seus poemas as dificuldades vividas pelo povo grego e a tomada de consciência de que o mundo não é perfeito. A função da poesia no século VII passa a ser, sobretudo, a de ensinar em vez de divertir e assim passa também a ser lida e não apenas escutada. Temos esse exemplo quando lemos a Teogonia, que pretende colocar ordem na confusão sobre a origem do mundo através das histórias encantadas mitológicas propostas por Homero. Outra obra de Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, vocacionava-se para o ensino dos desfavorecidos, expressando através do estilo da epopeia homérica a vida penosa dessa gente. Paros, outro poeta de meados do século VII, rejeita esta forma erudita de conceber a lírica e prefere enveredar por uma escrita de carácter popular. Aqui se nota a diversidade de expressão literária logo nos primeiros tempos e que no futuro se desenvolverá magistralmente.
Ao longo do século VI também se desenvolveu a prosa, presente nas coleções de leis, nos escritos de história, principalmente genealogias e nas tentativas de explicação da origem do universo. Já durante o século VII nasciam na Grécia as primeiras formas de pensamento crítico, cuja principal tarefa era explicar a origem do Mundo, da vida e das leis que regem o universo, tal foi a função da Filosofia. Do final do século VII até ao século V surgem pensadores que revelam várias tendências.
Os pré-socráticos são ao mesmo tempo sábios, dedicando-se à investigação das explicações causais, e filósofos que tentam teorias sobre o mundo e a natureza. O resultado do seu trabalho foi uma abertura cada vez maior ao racionalismo e à especulação abstrata. Hecateu de Mileto escrevia uma Viagem à Volta da Terra ilustrada com um mapa, deixando transparecer a ideia de que o Universo deverá ser objeto de estudo. Faltava, no entanto, aos sábios o método experimental, que tentam colmatar com observações minuciosas e pensamento lógico. É segundo estas atitudes que começam a surgir as primeiras tentativas para a explicação do Universo.
Para Tales de Mileto (ca. 624 a 546 a. C.), o princípio original era a água, e, como tal, tudo na terra emanava da água. Terá sido, segundo Aristóteles, o primeiro filósofo. Anaxímenes (588-524 a. C.) já encontrava esse princípio no ar. Anaximandro (c. 610) crê na existência de um elemento primitivo indeterminado - infinito, ilimitado. Heráclito parte da evidência de que tudo está em devir numa transformação cíclica que tem como causa o conflito dos opostos que assegura a existência do Universo - a harmonia nasce do que é diferente - governado pelo logos, resultando da unidade dos contrários. Xenófanes avança com a ideia da existência de um deus único e perfeito, colocando de lado as mitologias de Homero e de Hesíodo. O Uno é o princípio único e primeiro de todas as coisas. Parménides de Eleia (c. 515 a ca. 450) seria o primeiro a distinguir entre realidade inteligível e aparência, que teria como consequência as novas conceções sobre metafísica que se seguiram. Propõe assim uma visão intelectualista do mundo, assente na ideia da existência do Ser eterno, imóvel e imutável. Parménides considerava-se uma espécie de profeta, pois concebe o filósofo como o dono da verdade. Pitágoras de Samos cria uma verdadeira escola com origem em Crotona, a pitagórica, que difundia uma aprendizagem científica e desenvolvia um profundo sentido religioso de carácter ascético. O ser humano é formado por corpo e alma (Pneuma) que influencia todo o Universo e produz a harmonia dos vários elementos do corpo. Para que não se perca a alma, a via é a ascese. Concebe a Aritmética e a Geometria muito para além do seu carácter utilitário, formulando leis que relacionam os números entre si e propondo teoremas relativos às linhas e figuras geométricas, que depois aplica à Astronomia. As fórmulas obtidas possibilitaram-lhe explicar que a Terra é uma esfera e não um disco, como se cria. O número seria a essência de todas as coisas e é através dele que se poderá conhecer o mundo. O pitagorismo irá ter grande influência na Música e na Arquitetura gregas, presidindo à ideia de criar uma harmonia perfeita fundada em relações matemáticas. Saliente-se que, paralelamente aos ensinamentos sobre a Matemática e Geometria difundidos pelos sábios, teciam-se complicadas considerações acerca da pureza moral e física e sobre a imortalidade da alma.
Não se poderá abordar a cultura grega sem referir os autores de tragédias. Nascido cerca de 525, Ésquilo é um dos mais geniais. Soube traduzir na perfeição o poder simbólico e o valor moral das lendas que constituem as suas temáticas. Os dramas, escritos num estilo difícil, colocam em conflito a fatalidade, a justiça, a vingança e a moral, questões que estão perfeitamente de acordo com o seu século. O outro grande dramaturgo foi Sófocles, que, nascido cerca de 495, por isso beneficiado por um tempo de relativa paz, fez da tragédia uma grande arte. Revela através das suas tragédias um grande sentido da construção dos diálogos e uma enorme coerência e intensidade.
O século V é o grande século dos intelectuais e dos sábios. Nenhuma cidade neste século tem o monopólio da ciência, todas elas são produtoras de filósofos, historiadores, médicos e físicos que se deslocam e viajam por toda a Grécia. Atenas constituiu ponto de encontro destes homens, que, curiosamente, só no final do século V se instalam na cidade, embora esta já estivesse em declínio. Por isso os intelectuais da altura estão longe de terem sido todos atenienses. A Jónia, a Sicília, a Itália Meridional e o Norte da Grécia são os locais de origem da grande maioria. Destacam-se alguns sábios quer ainda os Pré-socráticos, quer já os Sofistas que neste período fértil revelam os seus conhecimentos e pensamentos sobre as mais variadas matérias. Foram sempre guiados pela observação e pela necessidade de noções exatas.
Anaxágoras (c. 500 a c. 428) e Empédocles (490 a. C. a 430 a. C.) dedicam-se ao problema da matéria, supondo que os corpos resultam de combinações e de proporções variáveis de elementos simples. Anaxágoras fazia incipientes experiências de Física e considerava que tudo possui uma alma e tudo é dominado pelo Espírito (nous) que é ilimitado e eterno, princípio abstrato que governa o Mundo e o Homem, onde o Nous é a sua própria razão. A sua teoria de que o Sol e a Lua não eram deuses, mas simples matéria, valeu-lhe a condenação à morte, embora tivesse conseguido fugir. Empédocles interessava-se por fenómenos que hoje são estudados pela Biologia e Química e concebia o Universo composto por quatro elementos: a terra, a água, o ar e o fogo, em combinação ou em conflito num eterno movimento em que participam as almas, negando, assim, a imutabilidade defendida por Parménides. Todas as coisas se encontravam desintegradas para depois se misturarem na matéria, explicando, através deste processo, a variedade das coisas.
Leucipo e Demócrito construíram um sistema do mundo que incluía a ideia de átomos, elementos indivisíveis, infinitos e imutáveis, que se moviam e se conjugavam no vazio, formando os seres e o Universo. São os iniciadores do atomismo. O Universo passava a ser uma combinação de formas em número infinito e em movimento puramente mecânico. Esta teoria da conceção geométrica do Universo foi posteriormente reaproveitada por Galileu e por Descartes.
Em relação à Medicina, é forçoso salientar a Escola de Cós e o desempenho de Hipócrates (460 a. C.).
Em meados do século V, o pensamento filosófico transformou-se, naturalmente fruto do caminho já percorrido, e propunha uma radical mudança de mentalidades, cuja tendência era para um racionalismo cada vez mais radical, em que a especulação metafísica foi substituída por sistemas de pensamento voltados para preocupações mais concretas e da realidade. A tónica punha-se agora no homem como indivíduo. Esta mudança de atitude ocasionou um afastamento do mito e da Natureza em favor da introspeção acerca dos mais variados temas: política, espiritualidade, conceito de divindade, questões sociais, etc. Uma das marcas absolutamente incontornáveis deixadas pela civilização grega do século V foi a presença dos filósofos. Os Sofistas, como eram conhecidos, percorriam a Grécia mostrando a sua competência intelectual, adotando a maioria das vezes atitudes de fausto e de orgulho, fazendo-se pagar caro pelas lições dadas, nomeadamente as da arte política, nas quais ensinavam as técnicas de uma retórica sem escrúpulos. Como andavam em deslocação pelos territórios ensinavam na condição de metecos, consagrando-se inteiramente à educação. No entanto, não poderemos retirar o mérito aos Sofistas, pois são eles os grandes empreendedores nas áreas do pensamento e da língua, pois é graças a eles que se verificaram grandes progressos na arte da palavra. Através do seu esforço, a língua grega pode impor-se no império ateniense e, depois, em toda a Grécia. Para além da língua, é igualmente notória a sua influência nas obras de eloquência jurídica e na Literatura, especialmente na tragédia e na História. Esta última torna-se numa obra de reflexão característica que está já presente em Heródoto de Halicarnasso (484 a. C.), embora de forma incipiente e que se torna amplamente utilizada com Tucídides (460-400 a. C.), nomeadamente na narração dos factos da Guerra do Peloponeso, que prima pela clareza e exatidão. Tucídides procurou relatar os factos com imparcialidade e, paralelamente, fazer uma investigação das causas. O teatro iria também sofrer a influência dos Sofistas e podemos contar entre os autores tocados por esse espírito Eurípedes (480-406), que introduz nas tragédias dados novos - estudos mais aprofundados dos sentimentos, aos quais se juntavam reflexões morais e considerações acerca do homem e do Universo - expostos racionalmente pelas personagens.
Destacam-se alguns Sofistas, que como os Pré-socráticos eram originários dos mais variados pontos da Grécia: Protágoras (c. 485 a c. de 411 a. C.), amigo de Péricles que lhe encomendou a organização de legislação de Túrios, foi também um mestre da retórica, patente na forma como através da argumentação dá a volta a discursos contraditórios. Seria a arte da controvérsia tão criticada por Platão.
Górgias era outro sofista que punha em prática as técnicas de retórica em discursos cheios de brilho e figuras de estilo. Distingue-se pelo pensamento político, fundamentalmente no apelo à unidade dos Gregos no contexto da Guerra do Peloponeso.
Antifonte, radicalmente, afirma que os homens são em tudo de nascimento idêntico, primeiro sentimento da igualdade.
A Filosofia dos Sofistas acabou por se tornar vazia de significado, pois perdeu o seu conteúdo real, sob a capa de uma retórica que seria criticada por outros filósofos, nomeadamente Sócrates, Platão e Aristóteles.
À margem deste movimento intelectual sofista, que criticava, encontra-se Sócrates (c. 470 a 399), cuja luz emanada do seu pensamento jamais deixou de brilhar sobre a cultura europeia. É através dos escritos deixados pelos seus discípulos, Platão e Xenofonte, que se conhece a complexidade do pensamento de Sócrates. Não se tinha como um grande intelectual cosmopolita, pois o seu meio era modesto, no entanto, era possuidor de um enorme bom senso e gosto pela clareza. Não deixou qualquer obra escrita e, naturalmente, sofreu a deformação involuntária proporcionada pelos seus discípulos, quando escreveram sobre o mestre. Partindo do princípio de que o conhecimento humano é limitado, ao contrário da opinião dos Sofistas, a sua maior tarefa foi atingir o aperfeiçoamento do ser moral, ao qual pretendia chegar submetendo as noções falsas à crítica. Movia-o a pesquisa da verdade através do diálogo e da indução. Servia-se do método designado por maiêutica, por considerar que o homem e a moral se devem abordar racionalmente, para que através do jogo de várias questões colocadas as pessoas chegassem à conclusão de que as suas crenças estavam erradas. As ideias que presidiam aos seus ensinamentos eram a de que ninguém é mau por querer, o que falta é a instrução e a verdade é atingida por meio da dialética, através da qual o interlocutor passa da aparência das coisas para a sua essência. Por isso, é tão importante a frase lapidar: "Conhece-te a ti mesmo". Só assim se atinge a sabedoria e a felicidade. Apesar da sua atitude completamente distinta da dos Sofistas, Sócrates foi confundido com eles e sobre ele caíram as incompreensões dos Atenienses, acusando-o de corrupção da juventude e de falta de respeito pelas tradições e pelos deuses. Foi, por isso, condenado à morte, mas, antes que a sentença fosse cumprida, suicidou-se com cicuta.
As ideias socráticas teriam eco muito para além do seu tempo através dos discípulos de Sócrates, nomeadamente Platão, e outros que fundaram algumas escolas: a escola megárica instituída por Euclides; a escola cínica fundada por Antístenes e a escola cirenaica fundada por Aristipo. Assim, a consolidação do pensamento socrático ocorreria no século IV. A figura que mais se destacou foi, naturalmente, Platão, que, após a morte do seu mestre, encetou uma viagem ao longo da qual estabeleceu contactos com outros filósofos e políticos. De regresso a Atenas, abriu uma Academia, com o objetivo de formar os homens para a atividade política de um Estado idealizado. O método utilizado, decalcou-o do mestre: o diálogo como meio essencial para atingir a verdade e consequentemente o conhecimento. O seu volume de obras escritas é considerável, o que, juntamente com os escritos de Aristóteles, leva os investigadores a chamar a este período a época de ouro da Filosofia. Os temas que tratou na sua obra distribuem-se por três categorias: o conhecimento (episteme), a educação (paideia) e a religião. Assim, no que diz respeito ao conhecimento, a sua teoria era a de que as ideias eram, de facto, a realidade e as coisas eram apenas sombras das ideias; a educação tinha como objetivo a realização de um Estado perfeito, refletindo as três partes da alma e para tal era necessário que o homem fosse educado na verdade; relativamente à religião, o seu pensamento não contém a ideia de Deus, mas sim a ideia do Bem, que considera a fonte de todo o ser.
Aristóteles (384-322) foi discípulo de Platão, professor na Academia Platónica e de Alexandre da Macedónia enquanto jovem. Posteriormente fundou o Liceu em Atenas. Os seus muitos escritos dividem-se em duas categorias: os que eram dirigidos a um público mais alargado e aqueles que se destinavam aos seus discípulos. As obras da primeira fase revelam uma inevitável influência próxima do seu mestre, mas o seu pensamento ganha certa autonomia nos tratados filosóficos, científicos e nos escritos sobre Ética, Política e Economia. Depreende-se a grande necessidade que Aristóteles tinha em abarcar todo o tipo de saber por forma a conhecer a essência das coisas. É muito importante o sistema de estruturação do saber proposto por Aristóteles baseado no conceito, no juízo e no raciocínio. A relação dos conceitos seria a base da lógica e do saber.
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