Do Neolítico aos Povos do Ferro

O aparecimento do período denominado por Neolítico (um termo criado por Lubbock no século XIX) no território português não é ainda perfeitamente explícito.
Aparentemente, uma transformação surgiu no modo de vida das comunidades humanas dos finais do VI milénio a. C. no atual território nacional, num momento em que os grupos de caçadores-recoletores do Mesolítico apresentavam um tipo de vivência semissedentário, com alguma adaptabilidade aos ritmos climáticos anuais, mas mantendo uma relação direta com os nichos ecológicos e recursos naturais, abundantes. Surgiram neste período, denominado Neolítico Antigo, no Algarve e foz do rio Mondego algumas comunidades sedentárias que, apesar de conhecedoras de tecnologia agrária e da pastorícia, implementaram uma dependência face à pesca, caça e recolha de elementos vegetais. Os seus espaços habitacionais, de curta duração, apresentavam-se sob a forma de pequenas cabanas com estruturas de fogo no interior e exterior, formando áreas relativamente extensas de ocupação. A sua produção material incluía recipientes cerâmicos de decoração impressa e incisa, elaborados com conchas. A nível funerário, destaca-se a aparente ocupação de zonas de gruta natural. Esta situação, reforçada pela introdução nestes contextos de alguns ovicaprídeos e de cereais, levanta a possibilidade da influência de grupos mediterrâneos, deslocados via marítima, e que trariam a tradição das cerâmicas incisas, da pedra polida e da própria agro-pastorícia. Paralelamente, mantinham-se as comunidades de tradição mesolítica, pouco recetivas ao modelo produtor, eminentemente recoletoras, mas adotando alguns elementos neolíticos, como as citadas cerâmicas impressas e incisas.
Por volta do V milénio a. C. (Neolítico Médio), e numa atitude de aparente continuidade, surgiram os primeiros elementos de cerâmicas lisas e, a par de uma permanência ocupacional das necrópoles em gruta, surgem as primeiras manifestações megalíticas pré-históricas (primeira metade do IV milénio), revelando uma perspetiva de ocupação das zonas mais interiores do Sul, testemunhando de igual modo um incremento populacional das comunidades. A cerâmica passou a assumir um papel fundamental nos contextos funerários megalíticos da zona alentejana de Reguengos de Monsaraz, sobretudo nas antas de corredor curto de tipo coletivo, casos de Poço da Gateira I e II e Gorginos. Com o surgimento do último período neolítico, solidificou-se o papel das comunidades de pastores-agricultores e desenvolveu-se a complexidade social, com a consequente complexificação dos espaços de habitat e de enterramento, surgindo os sepulcros escavados na rocha e os grandes dólmenes de câmara poligonal e corredor longo. No âmbito destes contextos, surgiram também os novos elementos simbolizadores de uma maior hierarquia e complexidade social, manifestados nos ídolos-placas em xisto e arenito, bem como nas gravuras e/ou pinturas surgidas no interior das antas e estações/santuário de ar livre, como o complexo rupestre do Tejo.
Os contactos entretanto desenvolvidos com elementos mediterrâneos originaram um conhecimento novo das tecnologias de uso dos metais, sobretudo de uma matéria até então pouco evidenciada: o cobre.
O desenvolvimento da hierarquização social e da metalurgia no território hoje português, surgida com o Calcolítico (Idade do Cobre), parece ser propício ao estabelecimento de uma teoria que privilegia o dinamismo das populações autóctones pré-calcolíticas sobre a "visão clássica" da colonização procedente do Mediterrâneo Oriental. Na verdade, as comunidade locais encontravam-se preparadas económica e socialmente para uma "nova" realidade, fruto, por exemplo, da existência de excedentes e da relativa hierarquização e complexidade social. Neste contexto destacavam-se os contactos de tipo bilateral com o Mediterrâneo e a disponibilidade para a "evolução" patenteada pelas comunidades locais transitadas do Neolítico.
A zona da Estremadura apresenta três momentos calcolíticos. O Calcolítico Antigo (ou Horizonte da Cerâmica Canelada), de cerca de 2500 a 2300 a. C., onde a agricultura aparece bem documentada no registo arqueológico, com elementos de mós manuais, machados e enxós em pedra polida, bem como lâminas de sílex, usadas como foice. Este período apresenta achados abundantes de ossos animais de tipo doméstico e indícios ténues de fundição de cobre nos seus inícios, tornados relevantes no seu momento final. Um segundo momento, denominado Calcolítico Médio ou Pleno ou Horizonte da Cerâmica "Folha de Acácia", ocupando o período entre cerca de 2300 e 2000 a. C. Caracteriza-se por uma normalização dos instrumentos em cobre e respetivas fundições, surgindo, de igual modo, um número significativo de fortificações protegidas por bastiões significativos e torres circulares (Zambujal), simbolizando um momento de mutação da sociedade calcolítica.
Durante os dois períodos de tempo referenciados os enterramentos realizavam-se quer em necrópoles coletivas, de tipo neolítico, como grutas naturais, hipogeus e antas, quer nos tholoi, monumentos funerários em falsa cúpula, de influência mediterrânica.
Num último momento, a chamada fase "campaniforme", desenvolvido de forma geral, entre aproximadamente 2000 e 1500 a. C., assistimos ao incremento nos povoados de uma maior adoção dos modelos cerâmicos campaniformes de tipo internacional, posteriormente adaptado pelas comunidades locais à sua própria expressão campaniforme, verificada no Grupo de Palmela. A chegada das influências da Meseta espanhola vai, provavelmente, acarretar o aparecimento das cerâmicas de tipo inciso. Apesar de diferenças evidentes em múltiplos aspetos entre Sul, Centro e Norte de Portugal ao nível do momento calcolítico, a verdade é que fatores de "sintonia" estão presentes. Assim, verificamos a ocupação sistemática de novos territórios; a progressiva sedentarização em relação com uma mais eficaz rentabilização do sistema agrário e pastoril; um progressivo desenvolvimento e solidez ao nível das elites hierarquizadas, mais estáveis e com mais poderes; um aumento nas relações de intercâmbio entre comunidades de matérias-primas e artefactos de prestígio; e por fim a formação de sistemas de interdependência suprarregional que vão condicionar o trajeto particular de cada uma das comunidades.
Na viragem para o II milénio a. C., fase inicial da Idade do Bronze (c. 1800-700 a. C), com o aumento assinalável do tráfego mediterrânico e atlântico, portador de novas influências, assistiu-se, no nosso território, a uma permanência tecnológica com o período anterior, continuando o uso do cobre de tipo arsenical, surgindo o bronze como complemento tecnológico.
Assistimos, isso sim, a uma evidente transformação social, com uma hierarquia de privilégios e benesses, perpetuada geracionalmente, criando uma nova "ordem" social, aumentando a concentração do poder num grupo mais restrito, surgida arqueologicamente, por exemplo nas estátuas-menir do Noroeste. Durante esta fase, o povoamento do território hoje português abrange três áreas principais. No Alentejo e Algarve desenvolveram-se as comunidades conectadas com o "bronze do Sudoeste" e ligadas à exploração das jazidas de cobre locais. No Centro e Norte apareceu o "bronze atlântico", articulado com a exploração das jazidas de estanho. Por fim, a Estremadura, pobre em metais, e por tal portadora de uma atividade profundamente comercial, com reflexos ao nível cultural. Nesta área os povoados fortificados "herdados" do período anterior continuam em utilização, denotando-se um decréscimo na edificação, surgindo povoados não fortificados.
Os sepulcros coletivos anteriormente utilizados, permanecem em ocupação restrita, surgindo agora as formas de inumação individual. Os enterramentos surgem acompanhados de armas metálicas, cerâmica e adornos em ouro. Em regiões do Sul, com tradições próximas dos modelos iniciais do Bronze, reutilizam-se os monumentos calcolíticos, mas surgem as grandes cistas individuais, também encontradas no Norte. Da Idade do Bronze plena e tardia conhece-se de forma mais pormenorizada os povoados e necrópoles de cistas do bronze do Sudeste, identificados no Norte pela escavação das "fossas abertas no saibro".
O final deste período fica marcado pelo surgimento de novas formas de cultura material, atestando as influências além-Pirenéus, mas de igual modo pela permanência de elementos "orientalizantes" provenientes das viagens iniciais fenícias. Na Estremadura surge a "cultura de Alpiarça" e no bronze do Sudoeste um período, acompanhados na Beira Alta por um grupo evoluído do "bronze atlântico", manifesto na cerâmica de "tipo baiões". No Norte a distribuição da cerâmica "tipo Penha" e as estátuas-menir traçam o limite ocupacional de um outro grupo.
Nos finais do II milénio a. C., os sucessivos estímulos étnicos e culturais, provenientes sobretudo da zona sul da Alemanha e do Danúbio, vão transportar à Península Ibérica características inovadoras ao nível da sua proto-história. No Noroeste peninsular, cedo aberto aos contactos atlânticos provenientes da Irlanda e Bretanha, e com uma significativa riqueza em minérios, vai desenvolver-se uma significativa indústria metálica, sobretudo bronze, que perdurará no início do período primeiro do ferro, altura em que novos movimentos populacionais continentais (Hallstatt final) contribuíram para a formação da cultura dos castros, sobretudo no Noroeste, iniciando a Idade do Ferro.
No período referente à 1.ª Idade do Ferro do Sudeste, surge na zona do atual Algarve e Baixo Alentejo uma população de cariz exógeno, que se desenvolveu entre os séculos VIII e VI a. C., associada ao lendário reino de Tartessos. Estas populações viviam em povoados de tipo aberto, com as necrópoles a localizarem-se nas periferias imediatas dos espaços habitacionais. O espólio funerário apresenta-se bastante rico, com diversa produção de ornamentos em metais e pedras preciosas, cerâmicas, algumas de origem fenícia. As influências culturais do Egeu e Próximo Oriente são marcantes, inclusive ao nível das divindades, casos de Reshet-Melkart, fruto de um intercâmbio cultural entre Egito, Fenícia, Síria, Grécia, Ásia Menor, etc., operadas na Península entre os séculos VIII e V a. C. O conjunto de estelas epigrafadas provenientes destes contextos revelou uma estrutura alfabética (a mais antiga da Península) com fortes semelhanças com os modelos da Ásia Menor, do grego arcaico e do etrusco.
A chegada no século V e inícios do IV de novas influências provenientes do espaço continental dá origem à 2.ª Idade do Ferro, reduzindo os contactos com o mundo mediterrânico. O estabelecimento de grandes povoados fortificados na zona sul revela uma sociedade sem escrita e com um novo equilíbrio territorial, social e económico. Ao nível religioso perduram manifestações de tipo centro-europeu, caso das divindades Endovélico e Ategina.
A partir do século III a. C., e até à chegada dos Romanos, o Sul do território foi dominado de forma efetiva pela presença da cultura cartaginesa e pela ibérica do Levante espanhol.
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