Ferreira do Amaral

Distinto oficial da Armada, Francisco Joaquim Ferreira do Amaral nasceu em 1844, em Lisboa, e faleceu em 1923. Era filho de um herói da Armada e da Nação, que faleceu num ataque perpetrado por seis chineses em Macau quando Francisco era ainda uma criança de cinco anos de idade. Este, todavia, entrou logo em 1856 para a Armada, estudando na Escola Politécnica. Concluído o curso em 1861, inicia então a sua carreira naval, atingindo a patente de primeiro-tenente em 1874. Esteve colocado em Macau, depois comandou pequenos navios, sendo chamado mais tarde a capitanear o couraçado "Vasco da Gama", à frente do qual participou na inauguração do canal de Kiel, na Alemanha, bem com outros navios de maior calado, como a fragata "D. Fernando". Tomou lugar também em missões militares no Ultramar, como uma expedição em África, em que combateu, comandando o "Tete", nos rios Zaire e Inhamalungo.
Nestas suas andanças africanas, foi nomeado governador de Moçâmedes (Angola) em 1878 e de S. Tomé no ano seguinte, cotando-se como bom administrador, ainda que severo e autoritário, o que lhe valeu conspirações e demissões. Todavia, os seus méritos não foram esquecidos. Fontes Pereira de Melo, chefe de Governo, nomeou-o, em 1882, governador da província de Angola. Por sua iniciativa ou em consonância com o ministério das Colónias, aplicando com rigor as suas medidas, conseguiu reanimar Angola, uma região economicamente adormecida e sem grande desenvolvimento estrutural. A colonização do sul do território foi um dos seus maiores empreendimentos, bem como o apoio à travessia do continente africano por Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, efetuada em 1884-85, quando chegaram a Tete, em Moçambique, em 6 de janeiro. Na sua administração em Angola, lutou também por contrabalançar a colonização boer em Humpata, fixando colonos madeirenses na Huíla, impondo assim a presença portuguesa nos territórios do centro-sul de Angola. Apoiou também o major Henrique de Carvalho na sua expedição à Lunda, região a este de Malange e que interessava conhecer em termos de potencialidades económicas, bem como estabeler laços com os régulos da região. Entretanto, no Sul (e também no Nordeste, junto ao Cassai, a sul da Lunda), na fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano (atual Namíbia), era necessário impor igualmente a soberania e presença portuguesa, face à pressão dos poderosos vizinhos germânicos, quer militar quer economicamente, enviando inúmeras expedições pretensamente científicas em nome da Sociedade de Geografia de Berlim que mais não eram do que missões de reconhecimento e avaliação dos territórios. Num esforço de afirmação de soberania nacional nos territórios de Angola, o governador Ferreira do Amaral reocupará terras e criará mesmo, em 1885, o distrito do Congo. Conhece bons resultados também na fixação de populações portuguesas no Sul (colónias de Humpata, Sá da Bandeira, ou Lubango, Chibia), proibindo-se também o envio de degredados para o Moçâmedes (1884), que não traziam uma influência benéfica junto dos colonos. Um dos acontecimentos chave da governação de Ferreira do Amaral em Angola e da política ultramarina portuguesa e europeia, foi a Conferência de Berlim (1885), que pôs em causa a ocupação europeia em vários territórios africanos, principalmente aqueles onde não existia uma ocupação efetiva, como acontecia de certa forma em regiões de Angola e Moçambique. Por isso, Ferreira do Amaral e o ministério das Colónias em Lisboa lutavam por povoar e defender essas regiões contestadas pelas potências europeias, principalmente a Alemanha e Inglaterra. Portugal dificilmente podia manter, assim, os territórios a norte do rio Zaire (como Cabinda, Cacongo e Massabi), o que o colocava numa situação difícil para tomar posse da bacia do Zaire. No Leste de Angola, era grande a pressão do Estado Livre do Congo, que pretendia alargar o seu território à custa das regiões da Lunda, Moxico ou até de Malanje. Situação difícil era também a do Sul, com a já referida ameaça alemã. O governo colonial procurava então reforçar as posições fronteiriças fixando guarnições militares, como se fez no Cubango, no mesmo ano da Conferência de Berlim.
Ferreira do Amaral conseguiu manter a posição portuguesa em Angola, apesar das dificuldades resultantes da pressão e contestação estrangeiras, da reduzida capacidade nacional em fixar muitos postos de colonização ou de manter guarnições com bom número de efetivos. Também a situação difícil do regime monárquico e a instabilidade governativa e financeira em Portugal não favoreciam o mandato de Ferreira do Amaral à frente dos destinos da colónia angolana. Contudo, não deixou de promover o desenvolvimento do território, encetando uma política de obras públicas (infraestruturas, transportes, vias de comunicação...) e de criação de mecanismos de animação económica para tornar a colónia mais rica e útil à metrópole. Reformou o serviço telegráfico e postal de Angola, canalizou alguns degredos para apoio à produção agrícola e organizou uma exposição provincial, agrícola e industrial em Luanda, no sentido de mostrara aquilo que de melhor se fazia e produzia na colónia.
Ainda que tenha obtido bons resultados na sua passagem pelo governo de Angola, graças à sua inteligência e espírito empreendedor, foi-lhe confiado o cargo de governador da Índia. A morte de sua mulher, porém, depressa o trouxe para Lisboa, iniciando então uma carreira política na metrópole, Foi diversas vezes deputado e chegou a ministro da Marinha no governo de Dias Ferreira, em 1892, assumindo ainda, interinamente, os Negócios Estrangeiros. Par do Reino em 1898, ano em que se dirigiu ao Brasil em representação diplomática de Portugal. Teve também outras incumbências, como a de inspetor do Arsenal da Marinha, pertencendo também ao Instituto de Socorros a Náufragos, à Junta Geral das Missões Ultramarinas e ao Instituto Ultramarino, tendo sido também presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, em cujo cargo organizou as comemorações do Centenário da (Descoberta do Caminho Marítimo para a) Índia. O ponto alto da sua carreira política sucederia em 1908, quando logo após o regicídio é convidado pelo rei D. Manuel II para o cargo de presidente do governo, que aceita. Entre outros ministros, trabalhou com Campos Henriques, Venceslau de Lima, Sebastião Sousa Teles, Afonso Espregueira, Augusto de Castilho e Calvet de Magalhães. No dia de Natal de 1908 sucedeu-lhe, como chefe de governo, Campos Henriques.
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