Francisco Salgado Zenha

Francisco Salgado Zenha nasce a 2 de maio de 1923 em Braga, numa família abastada. Começa a ganhar notoriedade quando, em 1944, durante o curso de Direito em Coimbra (que concluirá com uma média de 17 valores), é o primeiro estudante eleito para presidente da Associação Académica durante o regime salazarista. É demitido no ano seguinte ao recusar-se a participar numa manifestação de apoio a Salazar. Recebe o apoio dos estudantes, não deixando de publicar o "Relatório e Contas" da sua gestão, numa edição que logo se esgota.
É, desde cedo, um dos nomes maiores da oposição ao Estado Novo. Participa na fundação do Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUD-Juvenil), chegando a ser preso em 1947 por "atividades subversivas". Conhecerá, mais tarde, o dirigente do movimento estudantil lisboeta, Mário Soares, do qual se torna grande amigo. Este relacionamento entre ambos intensifica-se em 1949, durante a candidatura de Norton de Matos à Presidência da República, que ambos apoiam. Zenha vem, no fim da década de 40, para Lisboa, onde faz o estágio de advocacia no escritório de um dos maiores advogados portugueses de sempre, Adelino da Palma Carlos, que encontrará em 1974 no I Governo Provisório. Colaborou, ainda na década de 40, na revista literária Vértice, expoente maior do Neorrealismo português.
Com Mário Soares, forma uma das maiores duplas políticas do Portugal do século XX, partilhando ideais e quase todos os grandes momentos da vida política nacional. Ambos apoiam, sem reservas, o general Humberto Delgado em 1958 nas eleições presidenciais, para além de pontificarem na linha da frente da oposição ao regime, da qual são figuras emblemáticas. Zenha milita, também, nas CEUD's (Comissões Eleitorais de Unidade Democrática), ao lado de Jaime Gama e Raúl Rego, com os quais foi preso. Mantém, paralelamente, atividade jurídica, defendendo ativistas da oposição. Alcança um estatuto ímpar na advocacia portuguesa ao defender António Champallimaud no caso da "herança Sommer" em 1973, entrando na defesa do grande industrial português a meio do processo, invertendo a tendência negativa em que estava para, com uma estratégia brilhante, conduzir o seu cliente à absolvição.
Ajuda a fundar o PS naquele mesmo ano, sem participar contudo na reunião de Bad Munstereiffel, na Alemanha, sendo aí sua porta-voz Maria Barroso. Não concordava com a transformação da Associação Socialista Portuguesa em partido, o que não consegue evitar devido à ação de Soares. Após o 25 de abril, este informa Zenha de que ocupará o cargo de Ministro da Justiça no I Governo Provisório, liderado por Palma Carlos. Mantém-se no cargo até agosto de 1975, tendo nesse ano, em fevereiro, assinado a revisão da Concordata com a Santa Sé. Tratou-se de um acordo diplomático entre Portugal e o Vaticano liderado por Zenha (que lhe rendeu enorme popularidade), onde pela primeira vez o Estado Pontifício assina um tratado consagrando o casamento e o divórcio como independentes dos rituais católicos. Também nesse agitado ano de 1975, lutou em janeiro contra a unicidade sindical (uma só Central sindical). Em artigos em jornais, em Conselhos de Ministros e num comício no Pavilhão dos Desportos (em 15 de janeiro), Zenha bateu-se sempre contra tal projeto, apesar da proposta ter sido aprovada. Terá dito, antes, empolgando os socialistas no comício, que "se hoje se sacrifica uma liberdade, amanhã poderá sacrificar-se outra, depois de amanhã outra, e assim sucessivamente". Estava definitivamente consagrado como político de ribalta em Portugal, mesmo com um discurso de improviso, para muitos "histórico".
Em 1976, apesar da vitória socialista nas eleições, Zenha não é convidado por Soares para nenhuma pasta ministerial. Torna-se, contudo, líder do grupo parlamentar do PS. Diz-se que aí terá começado o mal-estar entre ambos, apesar de nessa altura Soares o ter qualificado como a "consciência moral" do partido. Esta rutura começará apenas no início dos anos 80. De facto, Soares, depois da vitória da AD (coligação PSD-CDS-PPM), quando o presidente Ramalho Eanes declara rever-se no projeto político daquela coligação, decide retirar o apoio à recandidatura do general. Zenha opõe-se, como o PS, o que leva Soares a abandonar a liderança socialista até 1986, ocupando aquele a direção interina do partido. Zenha não disputará, porém, com Soares a luta pela chefia do PS, que vence, abrindo ainda mais profundas feridas na velha amizade. Zenha mantém-se como líder parlamentar, mas será afastado entretanto, sendo-lhe movido por Soares um processo disciplinar, que acaba arquivado.
O ano de 1986 marcará o afastamento definitivo destas personalidades políticas já então com uma relação degradada. Zenha demite-se do PS e, apoiado pelo PRD e por Eanes, candidata-se a Belém, causando mal-estar no partido, onde ainda existiam divergências internas entre "soaristas" e políticos ligados a Zenha. Recebe o apoio do PCP, o que não o impede de conhecer uma derrota política logo na primeira volta das eleições, ainda que com a cifra de 20%. Em 10 de junho de 1990, contudo, será por este condecorado com a Ordem da Liberdade, depois de um processo negocial para que aceitasse a distinção, mediado, entre outros, por António Guterres, amigo de sempre de Zenha.
António Guterres, já líder do PS, convida-o a reingressar no partido, que abandonara em 1985. Zenha recusa, assumindo-se orgulhosamente como independente, tal como fez aos insistentes pedidos de amigos para regressar à política. Na data do seu septuagésimo aniversário, a 2 de maio de 1993, terá dito, perante um grupo de amigos que lhe pediram mais protagonismo político: "Sejamos bons e tentemos ser os melhores. Mas sejamos modestos; a modéstia é a melhor forma de vaidade." Morre a 2 de novembro de 1993, tendo sido considerado "uma das referências emblemáticas do socialismo português, da luta pela liberdade, um grande combatente da causa comum", nas palavras de Manuel Alegre no seu elogio fúnebre.
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