Gótico português

A introdução das primeiras formas góticas em Portugal remonta à época de reafirmação da nação.
Os primeiros edifícios religosos da época gótica, em Portugal, eram pequenos e modestos, refletindo a sociedade da altura, ao contrário dos pináculos e agulhas das catedrais europeias que tocavam os céus.
Segundo Pedro Dias da Universidade de Coimbra, o estilo gótico distingue-se do românico, não podendo tão-pouco ser visto como uma sua evolução. No entanto, as opiniões divergem. O gótico é impensável fora da sua época, pois paralelamente ao protogótico, evoluem as formas românicas. Assim, segundo alguns autores, há pois uma evolução.
Aos pilares e planta românicas acrescentou-se um abobadamento em ogivas que elevou, em altura, as igrejas. Os vitrais substituíram os muros laterais; os pilares ficaram mais finos e mais altos; as abóbadas de berço foram substituídas por abóbadas de cruzaria de ogivas, levando ao aparecimento dos arcos botantes, que suportavam todo o peso da igreja. Luminosidade, espaço e verticalidade são as grandes características da arquitetura gótica. Reinava o gosto pelo naturalismo, visível nos capitéis, que deixaram de ser animalistas e abandonaram as cenas assustadoras, para se encheram de folhagem cada vez mais naturalista. A escultura arquitetónica teve mais importância, sendo visível, quer nos interiores, quer nos exteriores, em portais, torres, nichos. É deste período a introdução da rosácea no portal.
Em Portugal, as catedrais eram modestas em relação às suas congéneres europeias. As primeiras construções góticas portuguesas foram a igreja de Santa Maria de Alcobaça e o claustro da Sé velha de Coimbra.
Só no século XIV é que o gótico se impôs definitivamente ao românico, devido ao estabelecimento das ordens mendicantes (franciscanos e dominicanos, principalmente).
Há três edifícios-chave do gótico inicial, que compreende a segunda metade do século XIII e a primeira metade do século XIV: a igreja de São João de Alporão, em Santarém; a igreja de Santa Maria do Olival, em Tomar; e a Sé de Évora.
O mais importante centro de arquitetura gótica é Santarém. Destacam-se a igreja de Santa Cruz, a igreja de Santa Clara e a igreja do mosteiro de Santa Maria de Almoster, entre outras. Estas construções correspondem aos reinados de D. Afonso III (1248-1279), D. Dinis (1279-1325) e D. Afonso IV (1325-1357).
Na zona de Coimbra, uma obra de vulto atribuída ao arquiteto Domingos Domingues é a igreja do Convento de Santa Clara. A sua diferença em relação a outras construções da mesma época reside no facto de ser totalmente abobadada, enquanto que as outras eram cobertas de madeira, bem ao gosto do gótico mendicante.
A igreja de Alcobaça é o único exemplo na arquitetura portuguesa deste período.
Mais para norte encontra-se outra igreja do mesmo período: a igreja do Convento de Santa Clara de Vila do Conde.
Na região do Porto temos a igreja de Leça do Balio e, mais para o interior, a igreja do Mosteiro de Cete, em Paredes. Apesar da característica dos seus arcos já apontadaa e dos capitéis vegetalistas, ainda permanece o românico, no que diz respeito ao espaço interior e à luminosidade.
No Porto destacam-se, ainda, algumas construções do corpo mais antigo da Sé, o claustro da Sé e a igreja de S. Francisco, integrada no ciclo da "Batalha", e a muralha fernandina.
Há que destacar, ainda, a cabeceira da igreja de Vera Cruz de Marmelar, no Alentejo, e a cabeceira da Sé de Lisboa.
Com a construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, vulgarmente conhecido por Mosteiro da Batalha, inicia-se o segundo ciclo da arquitetura gótica portuguesa. Isto porque, em primeiro lugar, levou à adoção definitiva deste estilo por todo o país e, em segundo lugar, porque foi neste estaleiro que, pela primeira vez, se construiu o gótico flamejante em Portugal.
Este estaleiro foi a grande escola da arquitetura portuguesa, influenciando todas as construções que se fizeram nos séculos XV e XVI, no nosso país. Aqui trabalharam os melhores arquitetos e escultores de todo o reino.
As imitações desta obra são patentes do Minho ao Algarve, já que os arquitetos secundários da Batalha eram requisitados para erguer outros templos noutras regiões do país. É o caso da igreja-colegiada de Guimarães e das obras patrocinadas por D. Nuno Álvares Pereira como o Convento do Carmo, em Lisboa, destruído quase por completo pelo terramoto de 1755.
Quanto às igrejas góticas do Norte, de influência da "Batalha" e do tempo de D. João I - finais do século XIV a inícios do século XV - há que destacar o Convento de S. Domingos, em Vila Real, a igreja-colegiada de Barcelos e a igreja matriz de Ponte de Lima.
Quanto às construções góticas da Beira, da referida influência, destaca-se a Sé da Guarda.
No Centro e no Sul do país, de entre as construções góticas também do mesmo traço destacam-se a Capela de Nossa Senhora da Pena, em Leiria, a igreja de Nossa Senhora da Graça, em Santarém, a igreja paroquial da Lourinhã e a igreja matriz de Tavira.
Durante os reinados dos príncipes de Avis, que vai de meados do século XV até finais deste mesmo século, também se construíram muitas igrejas. No Norte destaca-se a igreja-colegiada de Barcelos.
As comunidades nortenhas eram pobres e, por isso, não podiam chamar um arquiteto da Batalha para erguer os seus templos, permanecendo o Norte ligado à tradição românica. Assim, recorriam aos artistas locais, cuja falta de conhecimentos obrigava a olharem sempre para as igrejas românicas como modelos, introduzindo-lhes algumas inovações que adquiriam aquando das suas poucas deslocações ao Sul.
No Centro destaca-se a sinagoga de Tomar e, no Sul, a igreja de Santiago de Marvão, a igreja matriz de Tavira, a Sé de Faro e a Sé de Silves.
Segundo Mário Tavares Chicó, historiador e crítico de arte, a Sé de Silves é um dos mais importantes edifícios góticos do Sul, em que se reflete a arte da Batalha.
O Algarve foi a região do país que mais influências teve da Batalha, desde os finais do século XIV a finais do século XV, sendo possível traçar o percurso dos esquemas adotados no mosteiro, desde Afonso Domingues até à época de D. Manuel.
No que diz respeito à escultura, esta atingiu o seu auge no reinado de D. Dinis.
Os grandes centros produtores de escultura foram Coimbra, Lisboa, Évora e Batalha.
Os principais materiais utilizados foram a pedra de Ançã, Lioz e mármore, embora também fosse utilizada a madeira.
Na escultura coimbrã, que teve o seu auge na segunda metade do século XIII, destacam-se o túmulo de D. Rodrigo Sanches, típico do gótico inicial, o túmulo do bispo D. Tibúrcio, onde é visível um certo naturalismo, e o túmulo de D. Egas Fafes.
Existe também um conjunto de capitéis no claustro de Celas que rompem com a tradição cisterciense, simples e sem exageros ornamentais, adotando o tipo hagiográfico e não vegetalista.
Todas estas esculturas de Coimbra são anteriores à vinda de Mestre Pero, aragonês, para Portugal. A atividade deste escultor, em Coimbra, data dos anos 30 do século XIV. Deste escultor, de parceria com o seu colega Telo Garcia, destacam-se obras como o túmulo de D. Vetaça, de grande sentido plástico e maior riqueza escultórica; o túmulo de D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga; o túmulo de João Gordo, numa capela na Sé do Porto; as Senhoras do Ó dos museus de Lamego e Coimbra; e o cavaleiro de Oliveira do Hospital.
Costuma-se designar o túmulo de D. Isabel de Aragão como a obra-prima de Mestre Pero. É de grande monumentalidade e as figuras sob edículas são muito pitorescas. Além disso, a figura do anjo tem um grande sentido plástico.
As inovações de Mestre Pero foram de suma importância: introduziu um novo tipo de arca tumular paralelepipédica assente sobre leões, com a parte voltada para a frente preenchida com edículas, onde incluiu figuras de santos ou brasões reais, e alterou também a estatuária, tornando as estátuas mais naturais, esguias e com mais movimento, formando mesmo um S, ou seja, fez desaparecer a rigidez tão característica do românico.
Depois de Mestre Pero, na segunda metade do século XIV, a escultura conimbricense sofreu uma quebra.
Na primeira metade do século XV apareceu, em Coimbra, um outro escultor muito importante: João Afonso. Depois deste, surge Diogo Pires, o Velho, da segunda metade do século XV. A estes escultores são atribuídas obras como a de Nossa Senhora de Leça da Palmeira e o túmulo de Fernão Teles de Meneses, considerado o mais belo túmulo feito em Portugal, durante o século XV, de nítida inspiração europeia. O naturalismo da sua decoração anuncia já a chegada do estilo manuelino. É já num gótico flamejante.
A escultura do século XV é muito diferente da escultura do século XIV, devido não só à maior supremacia das oficinas coimbrãs, mas também à variedade dos temas iconográficos. Passa-se dos temas da Virgem e de Cristo vigentes nos séculos XIII e XIV, para os temas dos santos.
Quanto às produções eborenses do século XIII, é de destacar o túmulo do bispo D. Durando Pais. Do segundo quartel do século XIV, que corresponde ao auge da escultura eborense, destaca-se o túmulo do bispo D. Pedro IV e o túmulo de Fernão Gonçalves Cogominho e o Apostolado do portal principal da Sé.
Quanto às produções lisboetas, destacam-se o túmulo de D. Dinis, em Odivelas, o túmulo de Fernão Lopo Pacheco e da sua mulher, Maria Vila-Lobos.
Apesar de todos estes centros havia muitas oficinas regionais do século XIV. Um exemplo é Santarém, que foi também um centro de produção escultórica muito importante, durante este período. É o caso dos túmulos de D. Fernando e de D. Constança.
A escultura do Norte do país é também muito distinta, já que é talhada em granito, o que não permite os mesmos rigores técnicos da pedra de Ançã, a lioz e o mármore.
Porém, em Lamego aparecem excelentes túmulos em granito, como é o caso do túmulo de D. Pedro, Conde de Barcelos, no mosteiro de S. João de Tarouca.
Quanto à Batalha, podemos dizer que foi um dos principais centros escultores do século XV. Salienta-se o túmulo duplo de D. João I e de D. Filipa de Lencastre para além da grande riqueza escultórica do portal principal do mosteiro.
De todas as artes maiores desenvolvidas em Portugal durante este período, a pintura foi a que atingiu maior projeção. Isto graças, em grande parte, ao pintor Nuno Gonçalves e seus discípulos, que realizaram obras de grande valor artístico e estético, revelando uma grande dose de modernidade na forma como representaram o Homem, transformando-o no centro e objeto imediato da própria da arte.
De entre as obras mais significativas de Nuno Gonçalves destaca-se o Políptico da Veneração, mais conhecido por Painéis de S. Vicente de Fora, o retrato de Santa Joana e o Ecce Homo.
Na primeira, uma das maiores obras da pintura portuguesa, Nuno Gonçalves retrata as personagens isoladamente, cada uma das quais se impõe por si própria como se estivesse numa imensa solidão. Apesar das muitas personagens aqui representadas, cada uma é tratada individualmente, no meio de tanta gente, vincando bem a sua personalidade.
No Ecce Homo, também de discutível atribuição a Nuno Gonçalves, está patente uma das maiores representações de Cristo de todo o século XV.
No que diz respeito às artes decorativas, estas ganharam uma nova dinâmica e desenvolvimento durante o período gótico. A grande encomendadora destes objetos era a Igreja, embora neste período comece a aparecer a classe laica, sendo de destacar valiosas peças de ourivesaria, marcenaria e miniaturas como a iluminura, que atingiu, nesta época, uma grande mestria. É o caso de uma iluminura que representa a "Matança dos Inocentes" e que faz parte do Livro de Horas de D. Duarte, sendo visível uma certa influência flamenga.
Na ourivesaria é de destacar, como uma das mais impressionantes cruzes processionais góticas de origem portuguesa, a grande cruz outrora pertencente à Catedral de Coimbra e hoje no Museu Nacional de Machado de Castro, na mesma cidade. É uma obra em que o gótico flamejante é bem patente e na qual atinge o seu maior desenvolvimento.
Destacam-se, ainda, as tapeçarias de Pastrana ou da tomada de Arzila, encomendadas pela família real portuguesa para comemorar as vitórias de D. Afonso V e do príncipe D. João e das tropas acompanhantes que fizeram parte da expedição ao Norte de África, hoje na igreja da colegiada de Pastrana, em Espanha.
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