Grécia Arcaica

A era arcaica da Grécia (c. 700-500 a.C.) constituiu uma das épocas mais brilhantes e férteis da história da humanidade. Os gregos da época arcaica não constituíam uma nação "helénica". Pelo contrário, encontravam-se dispersos em pequenos núcleos por toda a Grécia continental (até à Tessália, no Norte), na Calcídica, nas ilhas do Egeu (incluindo Creta) e nas cidades da costa ocidental da Ásia Menor, nas ilhas do Mediterrâneo oriental, Lesbos, Quios, Samos, Rodes e Chipre e numa série de colónias fundadas no Sul de Itália e na Sicília em finais do século VIII a. C. Cada núcleo grego era, pelo menos em teoria, um Estado autónomo (polis); os Estados gregos (poleis) desenvolveram-se de formas diferentes durante este período. Na Sicília e na Magna Grécia fixaram-se importantes contingentes de população durante o período de c. 750 a 600 a.C., que viriam a constituir, durante muitos séculos, uma extensão da civilização grega no Ocidente (Magna Grécia era a expressão, em latim, pela qual se conhecia a região sul de Itália, da baía de Nápoles ao golfo de Tarento, onde se estabeleceram os colonizadores gregos). Durante o século VIII a. C., uma série de comerciantes gregos exploraram o Mediterrâneo ocidental em busca de metais e de outros produtos naturais; assim, as primeiras colónias foram fundadas tendo como objetivo explorar ou proteger rotas comerciais. A primeira colónia situou-se na ilha de Ischia e em 750 a. C. fundou-se de Cumas, na baía de Nápoles, de onde era possível aceder às jazidas metalíferas de Itália e também às comunidades etruscas situadas a norte do Tigre. Seguidamente, fundaram-se Zancle (Mesana) e Reggio no estreito de Messina, entre a Sicília e a Calábria. Uma vez estabelecidos os núcleos comerciais iniciais, assistiu-se à chegada de importantes contingentes de colonizadores procedentes de diferentes partes do mundo grego para explorar as áreas de terras férteis descobertas no curso da exploração. As descobertas arqueológicas permitiram estabelecer de forma aproximada a data de fundação de uma série de colónias na Sicília: Naxos (734 a. C.), Siracusa (733 a. C.), Leontinois (729 a. C.), Catânia (729 a. C.), Gela (688 a. C.), Himera (649 a. C.) e Acragas (580 a. C.). No que respeita a Itália: Síbaris (720 a. C.), Crotona (708 a. C.), Taras (706 a. C.), Posidónia (700 a. C.) e Lócrida (673 a. C.). A necessidade de encontrar novas terras, o excedente demográfico, os "filhos segundos" sem heranças e as tensões sociais seriam as causas deste importante movimento migratório em que se viram implicadas muitas regiões gregas, especialmente Cálcis, Eretreia, Corinto e Rodes, na Sicília, e comunidades oriundas de Acâdia na Magna Grécia. Deste processo colonizador interessa destacar o facto das comunidades, novas e independentes, conservarem laços formais com os fundadores que podiam ser várias cidades diferentes. Assim, a organização social grega propagou-se por todo o Mediterrâneo ocidental através de cidades independentes. As cidades sicilianas eram mais florescentes do que as da Magna Grécia. Os povoadores indígenas eram relativamente débeis e a maior parte das colónias gregas (com exceção de Siracusa) coabitavam com estes de forma pacífica. As guerras com as cidades cartaginesas tornaram-se frequentes na parte ocidental da ilha, ainda que a maior parte dos conflitos tenha sido provocada pelos Gregos, que queriam excluir os Cartagineses. Na Magna Grécia, as cidades estavam mais isoladas do que na Sicília e desde o século V tinham vindo a sofrer terríveis pressões por parte das tribos sabelias. Durante o século VI, uma série da cidades como Siracusa, Síbaris, Acragas e Himera rivalizaram em riqueza e tamanho com as cidades mais importantes da Grécia. Grandes edifícios públicos adornavam muitas delas; são de destacar os templos que se conservam em Selino, Acragas e Himera, na Sicília, e Posidonia (Paestum), na Itália. As relações económicas com as cidades gregas eram intensas e as colónias ocidentais tiveram um papel importante em muitas celebrações gregas, como nos jogos olímpicos. A Sicília importava produtos manufaturados na Grécia e exportava produtos alimentares, especialmente o trigo, não somente para o mundo grego, mas também para as comunidades do Norte de África e de Itália. Os Gregos do Ocidente representaram também um papel importante na vida cultural do mundo grego. Um dos primeiros poetas líricos e de grande reputação, Estesícoro, viveu em Himera. Pitágoras emigrou de Samos para Crotona em 531 a. C. e os seus seguidores gozaram de grande influência nessa cidade até 455 a. C. Em Crotona existiu também uma importante escola grega de Medicina. O filósofo Empédocles, que viveu no século V a. C., era originário de Acragas, e Górgias, o primeiro "sofista" e professor de retórica, era natural de Leontinos. Do ponto de vista político, a maior parte destas colónias atravessou as mesmas etapas que as cidades-mãe gregas, mas desde muito cedo se destacou pela violência política, tanto interna como externa. As rivalidades eram intensas e as guerras frequentes. Siracusa destruiu Camarina no ano de 550 a. C., e em 510 a. C. Crotona destruiu Síbaris, a cidade mais rica da Magna Grécia. Durante o século VI, o aumento demográfico, os conflitos armados e as tensões sociais significaram, em muitas cidades, a perda de poder por parte da aristocracia terratenente e a sua substituição por "tiranos" (dirigentes autocráticos cuja forma de governo não era sempre tirana). Na segunda metade do século V a. C., muitas cidades, entre elas Siracusa, gozaram de um período de calma relativa, mas a tentativa fracassada de Atenas, em 415 a. C., de incorporar a ilha no seu império e a intervenção de Cartago em 410 a. C. para defender a sua posição na Sicília puseram fim a tão frágil estabilidade.
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