Guerra da Sucessão de Espanha

Nome pelo qual ficou conhecido o problema sucessório espanhol, que se desenrolou entre 1665 e 1715, envolvendo vários Estados europeus, entre os quais Portugal, um dos palcos de guerra. O início da questão deu-se com a morte de Filipe IV, a 17 de novembro de 1665. O seu filho e legítimo herdeiro, Carlos II (1661-1700), contava apenas 4 anos de idade e padecia de várias doenças; esta situação suscitou uma corrida ao trono por parte das principais casas reais europeias, assim como o estabelecimento de tratados entre as potências da época. Exemplo disso é o acordo firmado em 1668 entre o rei de França, Luís XIV (1643-1715), e o imperador da Áustria, Leopoldo I (1658-1705), no qual o império espanhol é dividido por ambos os reinos.
Por não possuir descendência direta, Carlos II, que reinou durante 35 anos, enfrentou as intrigas de diversas nações que procuravam encontrar sucessores para a Casa da Áustria, chegando mesmo a realizar-se uma nova partilha dos domínios espanhóis (1698). Os pretendentes mais válidos à coroa eram as descendências resultantes do casamento de Luís XIV com Maria Teresa, irmã mais velha de Carlos II, do casamento do imperador Leopoldo com Margarida Teresa, irmã mais nova de Carlos II, de onde nasceu o príncipe da Baviera, e o próprio Leopoldo I, uma vez que era filho de uma irmã de Filipe IV. Contudo, colocavam-se diversos problemas, tais como o facto das infantas espanholas terem abdicado dos direitos ao trono de Espanha por terem casado com príncipes estrangeiros.
Este estado de coisas levou Carlos II a fixar o seu sucessor. O seu primeiro testamento, datado de 14 de novembro de 1698, foi em favor de José Fernando, príncipe da Baviera, que morre em fevereiro do ano seguinte. O novo testamento, datado de 1700, fixava uma nova ordem de sucessão, na qual o primeiro candidato era Filipe, duque de Anjou, seguido por Carlos, duque de Berry, o arquiduque da Áustria e o duque de Saboia. Contudo, este texto não afastava do trono os sucessores naturais a outras coroas, não sendo, portanto um garante de consenso. Com a morte de Carlos II, o duque de Anjou, que assume o título de Filipe V, é aclamado rei, iniciando-se então um longo conflito entre as potências europeias, lideradas por Ingleses e Franceses. É a partir deste ponto que Portugal passa a ter um papel ativo na questão. Ao reconhecer o novo rei de Espanha, D. Pedro II consegue o apoio da França, opondo-se assim às pretensões de Ingleses e Holandeses; Portugal firma um tratado com Luís XIV (13-6-1701): em troca do apoio de Portugal, o Rei Sol compromete-se a prestar auxílio ao nosso País em caso de guerra. Ao mesmo tempo, o rei de Inglaterra, Guilherme III (1694-1702), o imperador germânico Leopoldo e a Holanda, apoiantes do arquiduque Carlos, reúnem-se numa Grande Aliança, assinada em Haia a 7 de setembro de 1701.
A evolução dos acontecimentos leva o rei português a pedir auxílio à França, que se esquiva a cumprir o prometido. Descontente, D. Pedro II cede às pressões da Grande Aliança e acaba por tomar o partido do arquiduque Carlos, assinando, em 1703, um pacto com a Inglaterra, a Holanda e a Áustria. Portugal compromete-se a entrar na guerra com o país vizinho e a manter um contingente de 12000 homens de infantaria e 3000 de cavalaria, entre outras forças. Paralelamente, é assinado um tratado secreto em que o arquiduque Carlos entregava a Portugal as cidades de Albuquerque, Badajoz, Baiona, La Guardia, Tui, Valença de Alcântara e Vigo, para além do reconhecimento dos territórios da margem norte do rio da Prata, a chamada Colónia de Sacramento, pertença de Portugal.
A situação converge para a guerra com a proclamação como rei de Espanha do arquiduque, agora Carlos III, em setembro de 1703, na cidade de Viena. De imediato, D. Pedro II é encarregado de comandar o Exército aliado, composto por forças portuguesas, inglesas e holandesas, muito embora o poder efetivo estivesse, de facto, nas mãos do barão de Fagel. A heterogeneidade do exército gerou diversos problemas, nomeadamente disciplinares, revelando-se as primeiras campanhas desastrosas para os aliados. Por outro lado, os espanhóis, com a ajuda do Exército francês, invadem Portugal pelas Beiras e pelo Alentejo, conquistando uma série de cidades estratégicas. A situação reverte a favor dos aliados quando o marquês das Minas inicia uma fulgurante recuperação das cidades tomadas, enquanto em território espanhol Barcelona cai nas mãos do exército de Carlos III. Aproveitando o abandono momentâneo da fronteira portuguesa, o marquês das Minas lança-se à conquista de Espanha, tendo como meta a sua capital. Após diversos combates em território espanhol, liderados pelo marechal francês Berwick, o marquês entra vitorioso em Madrid a 28 de junho de 1705.
A vitória de Carlos III parecia estar assegurada, pois tinham sido subjugadas as províncias orientais e Gibraltar. No entanto, o povo castelhano decide apoiar Filipe V, aclamando-o rei em diversas cidades, e a demora dos reforços aliados permitiu a reorganização do marechal Berwick, o que lhe valeu a vitória nas batalhas de Almanza (1707) e do Caia (1709). Muito embora Filipe V tenha sido derrotado na Catalunha, a estratégia utilizada pelo general de Vendôme permitiu mais uma vitória na batalha de Vila Viçosa a 10 de dezembro de 1710.
Além destas derrotas infligidas no Exército aliado, a subida ao trono alemão de Carlos III, em 1711, levou à retirada da Inglaterra, que encetou negociações de paz. Em território ibérico, no entanto, a contenda não terminaria de imediato, prolongando-se até finais de 1712, devido à necessidade de manter as fronteiras. A nível europeu, o conflito foi encerrado nas negociações de paz em Utreque, na Holanda, assinadas em 7 de novembro de 1712, entre a França, a Inglaterra e Portugal, às quais se seguiram outros tratados individuais. Para Portugal este conflito não resultaria como o esperado: todos os territórios conquistados tiveram que ser devolvidos, já que não foram cumpridas as promessas feitas a D. Pedro II.
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