Historiografia Egípcia Antiga

Os Egípcios Antigos incutiram, desde sempre, a todas as suas gerações a convicção da grandeza e carácter insubstituível da instituição faraónica como elemento de unificação do país e de construção, manutenção e defesa da sua civilização. É difícil definir hoje em dia o que era a História e a Historiografia para os antigos Egípcios, como também a noção de Literatura. Definir estes conceitos à luz das conceções de hoje resultará num esforço incompleto e sem sentido, pois ter-se-á que ter sempre em linha de conta a idiossincrasia e carácter único da civilização egípcia, centrada na sua cosmovisão religiosa e faraónica. É difícil, assim, entender a história egípcia e a sua narração ou recordação sem entendermos o projeto de glorificação faraónica, a sua exaltação e confiança nacional, ideias mestras da historiografia dos nilóticos. Daí ser também penoso falar numa historiografia egípcia antiga, numa ideia narracional de relato do tempo histórico entre os Egípcios Antigos. William Hayes, na sua Cambridge Ancient History, por exemplo, refere que apenas sobreviveram muito poucos textos históricos egípcios antigos, entre os quais os mais famosos e historiográficos são a Estela de Kamés (c. 1555-1550 a. C.), descrevendo as batalhas contra os Hicsos; os Anais de Tutmés III (c. 1504-1450 a. C.), descrevendo as suas campanhas na Síria-Palestina; a Estela da Vitória, de Pié (faraó de origem núbia, 747-716 a. C.), descrevendo a sua conquista do Egito. Além destes, também são de referir o discurso de Hatchepsut (c. 1490-c. 1468 a. C.) gravado no templo escavado na rocha de Speos Artemidos, um possível discurso, talvez ficcional, de Ramsés III (1184- 1153 a. C.) no fim do Grande Papiro Harris (Museu Britânico, Londres) e uma descrição das rebeliões de Tebas por Osorkon III (787-759 a. C.). De realçar ainda um fragmento dos anais de Amenhemat II (1922- 1878 a. C.), descoberto em Mênfis na década de 50 do século XX, num registo historiográfico mais próximo da conceção atual, relatando eventos políticos e religiosos de cada ano do reinado daquele faraó. Existem ainda outras formas de anais, dos faraós Ramsés II ou Amenhotep II, em papiro, com carácter laudatório e pouco histórico, omitindo tudo o que pudesse ensombrar a conceção de glorificação dos faraós que lhes dão o nome.
Não obstante as poucas exceções acima referidas, a maioria das narrações e textos cerimoniais egípcios remanescentes pretendiam mais a conservação e transmissão de tradições nacionais, quando não destacar e descrever um qualquer tipo de cerimónia ou ritual, do que estar a relatar acontecimentos passados. Mesmo as narrativas de carácter histórico da estela de Kamés, do discurso de Hatchepsut ou dos Anais de Tutmés III não eram mais do que textos componentes das "narrativas" maiores inscritas nas paredes dos templos ou monumentos em que se acham. A sua diferença em relação, por exemplo á conceção grega de história, inaugurada por Heródoto (c. 484-c. 420 a. C.), consiste na inclusão de um elevado grau de simbolismo e de puro ritual. Que decorrem, precisamente, da conceção de glorificação e culto da personalidade unificadora e tutelar do faraó que os Antigos Egípcios tinham do passado e da sua mundividência. O que aproximava a sua conceção de história dos Res Gestae dos Romanos a enfatizar e deificar os feitos de Octávio César Augusto, seu primeiro imperador. Colocava-a, porém, longe do estilo "jornalístico" de Tucídides ou Tácito, mais realistas e objetivos.
Os textos historiográficos egípcios, inscritos em textos ou relevos de paredes de túmulos ou templos, estavam mais no domínio estático do mito do que no mundo ativo e dinâmico da história. Era como que uma tendência de ver o mito como uma "história primitiva", mas nem sempre assim se fez. Pretendia-se mais plasmar para a eternidade uma conduta exemplar, apropriada, um feito, um mito, num sentido mitológico mas também de propaganda ou de ideologia, do que relatar, narrar o passado tal qual ele foi, com grandezas mas também com fraquezas e derrotas, porque nunca se perdeu a ideia primaz de deificar e sublimar o faraó como fator de unidade, ordem e progresso do Egito.
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