Impérios Comerciais da África Oriental

Tal como sucedeu na África Ocidental, também na África Oriental o ouro foi um motor decisivo no desenrolar da vida económica das velhas comunidades mercantis, como representará uma das principais motivações do estabelecimento português. No final do século XV (1490), Pero da Covilhã mandava notícias sobre Sofala para a corte de D. João II, referindo-a como um dos centros de comercialização do metal amarelo, do "ouro do Monomotapa" e como um dos pontos de escala obrigatórios dos portugueses na sua jornada para a Índia das especiarias. O ouro, no entanto, também chamará a atenção dos nossos exploradores de Quinhentos. Ao litoral moçambicano chegava o ouro do Monomotapa, ou seja, das regiões de Butua, Mokaranga e Manica (grosso modo entre a Rodésia do Sul, Manica e o Transvaal). O ouro apresenta-se em quatro formas: em fino pó, em grãos mais ou menos pequenos, em lascas mais ou menos espessas (o mais valioso), ou em pedras (o mais vil). A escavação das minas é o método mais corrente de extração; obedece a uma organização do trabalho bem definida, embora os mineiros corram bastantes riscos, pois é vulgar ruírem abóbadas de galerias e soterrarem-nos. O comércio e a exploração do ouro estava nas mãos do rei - o Monomotapa; ninguém o podia extrair sem a sua autorização, sob pena de morte. No entanto, não havia grandes imposições (embora, de uma maneira geral, o rei e os poderosos se assenhoreassem das minas, com os seus acostados e escravos, quando elas mostravam dar bom rendimento) e, quando o soberano pretendia algum ouro, distribuía algumas dádivas pelos régulos cafres em troca do metal. Por outro lado, a exploração era difícil, quer pelas condições do terreno e das minas, quer pela falta de mão de obra (população dizimada pelas fortes mortalidades infantis, pestes, pragas... e sobretudo pela caça ao homem para alimentar os mercados de escravos que despovoava largas regiões), quer pelo pouco interesse pelo ouro em si por parte dos nativos. Ao abrir o século XVI, o grosso da produção escoava-se através dos portos marítimos e toda a exportação por mar estava nas mãos dos muçulmanos. Os mercadores mouros viajavam também pelo sertão, mas nunca com intenções de exercer qualquer domínio sobre o processo produtivo. Apenas vendiam "de antemão" aos indígenas os artigos que os incitariam a ir trabalhar. A exploração das jazidas auríferas é estruturada num período desconhecido, certamente anterior ao século VI. Vários centros costeiros do Índico estariam envolvidos na comercialização deste metal precioso e, quando os portugueses aí se estabelecerem, o trato vai continuar. Foram os mercadores do mar Vermelho que abriram e traçaram esta grande rota marítima do ouro, e ao longo de todo o seu percurso, nos lugares de escala de navegação dos ligeiros zambucos ou de naus mais grossas, ou de realização de feiras, edificaram-se grandes cidades marítimas, cujas construções de pedra e taipa com janelas e açoteias à maneira ibérica se alinham em ruas regulares. Assim nasceram e se desenvolveram Mogadíscio, Melinde, Mombaça, Quíloa, Moçambique, Angoxa, Sofala, etc. Neste circuito participarão persas (presença atestada por louças e vidros do Levante), chineses (encontrou-se também louça e porcelana chinesa dos séculos XIII e XV), árabes e portugueses. Nestes lugares, onde se realizavam outras tantas feiras prósperas, as naus e zambucos dos mercadores do Índico (árabes, na sua grande parte) traziam nos seus porões os panos de algodão de Cambaia, as contas de vidro e as louças do mar Vermelho, Guzerate ou China, levando, em troca, o ouro, os dentes de elefante ou os escravos.
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