lobisomem


Os lobos eram venerados como guardiães dos mortos em muitas culturas. Uma crença muito antiga atribuía a origem dos lobisomens ao facto de os antigos deuses e deusas terem a capacidade de se apropriarem da natureza e das características de certos animais através do uso de máscaras ou das suas peles.
Surgiram assim seres híbridos como o Minotauro, o deus-touro, ou o Sagitário, o deus-cavalo, entre muitos deuses associados a bodes, carneiros, vacas e a todo o tipo de animais, como pássaros, crocodilos ou escaravelhos no Egito, e macacos, tigres, elefantes (Ganesh) ou cobras na Índia.

Os adoradores dos lobos da Antiguidade dedicavam a sua vida a Zeus Lycaios, ou Zeus-Lobo, e viviam nove anos nas florestas como lobos voltando à forma humana se não tivessem comido carne humana durante esse período. A tradição dizia que no templo de Zeus-Lobo as pessoas perdiam a sombra quando lá entravam, uma característica que mais tarde também veio a fazer parte das crenças ligadas aos lobisomens.

Certos povos da Irlanda consideravam-se descendentes de lobos, acreditando que de sete em sete anos um dos elementos do clã se transformaria em lobo, enquanto que em outras culturas os camponeses tornavam-se lobos para defenderem as suas colheitas dos feiticeiros.

Na tradição chinesa e mongol, o lobo azul-celeste está na origem das suas dinastias, uma crença que depois haveria de ser integrada pelo povo turco. A lenda sobre a origem de Roma inclui a loba de Remo e Rómulo e esta associação da loba com a fecundidade viria também a estar presente em muitos povos da Ásia.

Esta capacidade de transformação do homem em lobo veio, mais tarde, a inspirar as crenças no lobisomem, que influenciaram a literatura e o cinema.

O ditado de que "quem não quer ser lobo não lhe veste a pele" baseia-se na antiga crença de que basta colocar sobre o corpo uma pele de lobo para que um ser humano se transforme neste animal. As lendas dos lobisomens foram depois progressivamente perdendo a sua vertente mística pagã positiva para terem uma conotação negativa, conectando o lobisomem com um ser demoníaco.

Esta imagem está bem patente no conto do Capuchinho Vermelho, bem como em tradições medievais de bruxos que se transformavam em lobos para participarem do Sabat, crença que ainda hoje está patente na tradição espanhola de os lobos serem a montada dos feiticeiros.


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