Luteranismo e Reformas Religiosas em Portugal

O luteranismo não chegou a ter grande expressão em Portugal, pois não era frequente afluírem ao reino alemães luteranos. Já mais simples era a deslocação de portugueses ao Centro da Europa, regressando influenciados pelas novas doutrinas. Dos portugueses que viajaram até à Alemanha destacam-se Damião de Góis, Diogo de Teive, Fernão de Pina e Lopo de Almeida. O facto de terem estado em contacto com aquelas ideias, de terem relações de amizade com luteranos e, no caso de Damião de Góis, ter convivido com Lutero e com ele discutido questões teológicas, foram razões que os levaram a ser interrogados pela Inquisição. Os professores do Colégio das Artes de Coimbra foram acusados de abraçarem as doutrinas luteranas, constituindo um barómetro da nova situação cultural e suas contradições.
O retrocesso cultural que se verificou na segunda parte da governação de D. João III verificou-se mais acutilantemente com a condenação das obras de Erasmo, que, segundo Diogo Gouveia Sénior, defensor acérrimo da Escolástica, levariam irremediavelmente ao luteranismo, devido às implicações religioso-culturais que se podiam verificar em tais obras.
Na Europa, a Reforma Católica surge na sequência do Protestantismo, que teve consequências imediatas no tipo de comportamento do clero. O Concílio de Trento iria desempenhar um papel importantíssimo, pois tornou-se num instrumento da Contrarreforma e no ponto de viragem na reforma da Igreja com a clarificação de problemas teológicos e doutrinais. As diretivas emanadas deste Concílio foram postas em prática pela Coroa e pelos bispos. Um dos momentos importantes da Reforma católica em Portugal foi a introdução da Inquisição pela mão de D. João III, em 1536, cujas funções se centravam nas minorias étnicas - judeus, cristãos-novos e muçulmanos - e nos protestantes. Cabia-lhe julgar os delitos de judaísmo, islamismo, luteranismo, posições heréticas, bigamia e feitiçaria. Marcou definitivamente o processo reformista na cultura pela anulação do carácter progressista e a sua substituição por uma ortodoxia levada muitas vezes a extremos. Relativamente aos protestantes e particularmente aos luteranos, que geralmente faziam parte de grupos intelectuais, a Inquisição encarregou-se de anular a sua ação, tarefa que em si mesma, porém, não justificou a implantação da instituição em Portugal. Este foi um dos motivos da renitência do Papa em conceder a D. João III a aprovação para esse estabelecimento.
Promovia-se assim uma reforma interna do setor eclesiástico que englobaria igualmente as ordens religiosas, cuja reforma havia começado em 1550. Durante o século XVI as instituições religiosas em Portugal iriam sofrer mudanças bastante acentuadas que foram de iniciativa régia e da própria Igreja, desejosa de alterar o estado de coisas a que se tinha chegado. Neste período detém uma importância crucial a realização do Concílio de Trento. A reestruturação das dioceses, o incremento de instituições de carácter social e a interferência do Estado em assuntos da Igreja e no governo de alguns mosteiros resulta desta reforma.
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