Mário Botas

Pintor português, Mário Ferreira da Silva Botas nasceu a 23 de dezembro de 1952, na Nazaré. Estudou Medicina na Faculdade de Medicina de Lisboa. Licenciou-se com distinção em julho de 1975, mas quase não chegou a exercer a profissão. Em setembro de 1977 foi-lhe diagnosticada uma leucemia, que pôs em causa o plano da sua vida fazendo-o decidir-se pela dedicação plena à pintura.
De fevereiro a agosto de 1978 viveu em Nova Iorque, onde expôs na Galeria Martin Summers. A partir de 1980 residiu em Lisboa, aparte alguns meses no ano de 1983 quando se instalou em Sintra trabalhando intensamente na sua pintura. O agravamento da doença levou-o a regressar a Lisboa onde veio a morrer, a 29 de setembro de 1983.
"Fui sempre um pintor do lado da escrita, opondo-me e unindo-me a ela", escreveu Mário Botas no catálogo sobre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, realizada em 1982 na Biblioteca Nacional, Lisboa. Aliás, a sua preferência pela literatura fantástica inscrevem-lhe na obra a contaminação entre o mítico e o histórico. Os seres da criação de Mário Botas nem sempre são humanos (animais heráldicos, demónios, entes híbridos, silhuetas da loucura), mas são medidos pela condição humana. As suas criações recebem as proporções do fantástico de Bosch e da ironia de Klee. Os contornos assustadores contrastam com as cores serenas. Em Mário Botas prevalece o gosto pela alteridade que aparece, por exemplo, em Retrato evocativo de Fernando Pessoa e plenamente transmitido pelo quadro Máscaras, onde três personagens num camarim de teatro exibem, entre elas e para o espectador, máscaras de vida e de morte. Ao insinuar-se nos traços das suas criaturas, o artista mascara-se delas e mascara-as de si próprio servindo de exemplo o conjunto de aguarelas destinado a ilustrar "Le Spleen de Paris".
Por outro lado, nos trabalhos de Mário Botas os sinais de morte transfiguram-se em vida e os símbolos de vida em imagens de morte (Werther-1982). Em toda a sua obra as instituições se dissolvem e declinam. Os sentimentos e valores que as fundamentam nutrem o cinismo cru dos sujeitos, o egoísmo subjacente à veneração, o modo grotesco da pompa e circunstância. Contraste violento de inquietações e náuseas: de um lado a abjeção do estar-no-mundo-social, do outro, a surpresa, a fascinação, o grande sobressalto do estar-num-Mundo.
Com frequência o pintor inscreve conteúdos verbais na atmosfera em redor das personagens. Reflexões, exclamações, apartes, impropérios, ordens, revelando quer a identidade quer a vontade dos heróis em confronto.

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