Mensagem

A Mensagem é a única obra completa publicada em vida de Fernando Pessoa. Contém 44 poemas, escritos entre 21 de julho de 1913 e 16 de março de 1934. A sua publicação acontece a 1 de dezembro de 1934, dia das comemorações da Restauração de 1640.
Concorrente ao "prémio Antero de Quental", Mensagem foi preterida a favor de Romaria, uma coletânea de versos do missionário franciscano Vasco Reis, que ilustrava a fé do povo como convinha ao regime de então. Teve de se contentar com o prémio de segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido pelo seu amigo António Ferro. O pretexto para o prémio de Categoria B foi o número de páginas, sendo o de Categoria A para um volume superior a 100 páginas. Na composição do júri, presidido por Mário Beirão, estavam Alberto Osório de Castro, Acácio de Paiva e Teresa Leitão de Barros.
O Secretariado de Propaganda Nacional, por decisão de António Ferro, acabou por elevar o prémio da Mensagem para o mesmo valor da Romaria, ou seja, de 1000$00 para 5000$00, embora o assunto tenha provocado bastante polémica. Fernando Pessoa, num escrito de 1935 e encontrado no seu espólio, afirma: "Publiquei em outubro passado, pus à venda, propositadamente, em 1 de dezembro, um livro de poemas, formando realmente um só poema, intitulado "Mensagem". Foi esse livro premiado, em condições especiais e para mim muito honrosas, pelo Secretariado da Propaganda Nacional". A coletânea do padre Vasco Reis, apesar de ser normalmente considerada de pouca valia, parece ter sido premiada por ilustrar a fé popular, o que estava em conformidade com a intenção política do concurso. Pelo contrário, Mensagem, hoje reconhecida como uma obra capital da poesia portuguesa, era, essencialmente, um poema voltado para o "oculto" e para o místico, sobre a história de Portugal, a memória coletiva e a crença de um novo império civilizacional.

A Mensagem é mítica e é simbólica. Os 44 poemas encontram-se agrupados em três partes, ou seja, as etapas da evolução do Império Português - nascimento, realização e morte. Fernando Pessoa procura aí anunciar um novo império civilizacional. O "intenso sofrimento patriótico" leva-o a antever um império que se encontra para além do material.
Mensagem, apesar de conter poesias breves, compostas em momentos diversos, garante uma unidade histórica e lógica, sequencial e coerente. A sua estrutura tripartida permite contar e refletir sobre a vida e o percurso de Portugal ao longo dos séculos.
A primeira parte - Brasão - corresponde ao nascimento, com referência aos mitos e figuras históricas até D. Sebastião, identificadas nos elementos dos brasões. Dá-nos conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos. Começa pela localização de Portugal na Europa e em relação ao Mundo, procurando atestar a sua grandiosidade e o valor simbólico do seu papel na civilização ocidental quando afirma "O rosto com que fita é Portugal!". Depois define o mito como nada capaz de gerar os impulsos necessários à construção da realidade; apresenta Portugal de um povo heroico e guerreiro, construtor do império marítimo; faz a valorização dos predestinados que construíram o País (Ulisses, Viriato, Conde D. Henrique e seu filho Afonso Henriques, D. Dinis, D. João I, D. Sebastião, Nuno Álvares Pereira, D. Henrique, D. João II e Afonso de Albuquerque); e refere as mulheres portuguesas, mães dos fundadores, celebradas como "antigo seio vigilante" ou "humano ventre do Império" como D. Teresa ou D. Filipa de Lencastre, mãe da "ínclita geração".
Na segunda parte - Mar Português - surge a realização e vida. Inicia-se com o poema Infante, onde o Poeta exprime a sua conceção messiânica da história, mostrando que o sopro criador do sonho resulta de uma lógica que implica Deus como causa primeira, o homem como agente intermediário e a obra como efeito. Nos outros poemas evoca a gesta dos Descobrimentos com as personalidades (Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e Vasco da Gama) e acontecimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido e os elementos naturais, com as glórias e as tormentas, considerando que valeu a pena. No antepenúltimo poema evoca a partida de D. Sebastião na Última Nau e o último poema é a Prece, onde renova o sonho. No Mar Português procura simbolizar a essência do ideal de ser português vocacionado para o mar e para o sonho.
Na terceira parte - Encoberto - aparece a desintegração, havendo, por isso, um presente de sofrimento e de mágoa, pois "falta cumprir-se Portugal". Encontra-se tripartida em Os símbolos (D. Sebastião, O Quinto Império, O Desejado, As Ilhas Afortunadas, O Encoberto), Os avisos (Bandarra, Vieira e "Screvo meu livro à beira-mágoa") e Os tempos (Noite, Tormenta, Calma, Antemanhã, Nevoeiro). Com os primeiros, começa por manifestar a esperança e o "sonho português", pois o atual Império encontra-se moribundo. Mostra a fé de que a morte contenha em si o gérmen da ressurreição. Nos três avisos define os espaços de Portugal; com os cinco tempos traduz a ânsia e a saudade daquele Salvador/Encoberto que, na Hora, deverá chegar, para edificar o Quinto Império, moral e civilizacional.
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