Natália Correia

Poetisa, ficcionista, autora dramática e ensaísta, nascida em 1923 e falecida em 1993, natural dos Açores, facto que levou a insularidade a tornar-se uma linha de força presente em todo o seu percurso literário. Realizou estudos secundários em Lisboa. Figura marcante da cultura e da literatura portuguesas contemporâneas, Natália Correia distinguiu-se também pela sua atividade política, tendo exercido, com a mesma irreverência que pauta toda a sua existência, o cargo de deputada. Escritora que manteve uma posição de independência relativamente a modelos e movimentos literários, embora seja, mesmo aceitando que são poucos os "exemplos que podemos colher na sua poesia de uma aproximação da sua parte a procedimentos estilísticos típicos dos surrealistas", frequentemente associada ao Surrealismo, "pela defesa de um estatuto de altiva insubmissão para o poeta, pela identificação com as tradições culturais marginalizadas pelos poderes instituídos ao longo dos tempos" e "pela acentuação da dimensão mágica da poesia" (MARTINHO, Fernando J. B. - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, Colibri, 1996). A compreensão da literatura como ato de rebeldia e de insubmissão face a todos os poderes instituídos e institucionalizados (inclusivamente o literário), nutre, assim, uma expressão poética imaginativa e sugestiva pelo seu poder de metaforização, impetuosa, ditirâmbica e cósmica, alimentada pela visceral revolta contra o homem "funcionário / da sua adiada escória", "bípede" que não sabe que fazer "de não ser propriamente inseto" (Poesia Completa, Lisboa, 2000, p. 285), rejeitando "nascermos para corda de roupa / íntimas peças da morte penduradas / a todo o comprimento de puxarmos / a carga insone de uma vida alheia." (XI de Mátria in op. cit., p. 297). A busca de uma voz pura e liberta, anterior ou à margem de conceptualizações redutoras e de acomodações burguesas, resulta num diálogo intertextual com uma tradição literária que vai da lírica galego-portuguesa ("sagrada raiz do nosso lirismo"), até ao mergulho, através da "sofreguidão ôntica do soneto", na arte poética romântica (Sonetos Românticos), e até ao diálogo intertextual com Camões ou Pessoa, na busca de um sentido para o devir da nação portuguesa ("Ó Pátria amada minha misteriosa / que da Europa és a esfinge! És o rebate / de uma última pedra preciosa / ou és cedo de mais num tempo acre?" ("Urna Áurea I" de Epístola aos Lamitas, in op. cit., p. 428). "Humanidade poética anarquista" ("Boletim Meteorológico", in op. cit., p. 143), a voz de Natália Correia integra a tradição "dos que os poderes estabelecidos têm tido por heréticos, heterodoxos, feiticeiros" (MARTINHO, Fernando J. B. - op. cit., p. 75), igualando o poder da protagonista de Comunicação, "uma mulher a quem chamavam a Feiticeira Cotovia [...] condenada às chamas por práticas de uma magia maior e estranha a que ela dava o nome de Poesia" e que, no momento da sua execução, augura que o seu "corpo em chamas será o rastilho de uma fogueira que consumirá a Lusitânia ano após ano, geração após geração numa combustão invisível e prolongada pela Palavra que fulge no ponto onde todos os nomes se reúnem na Luz." (Poesia Completa, p. 174). Buscando uma "Poesia em cuja ânfora o mundo / recolhe o pólen da sua idade de ouro", Natália Correia entende, deste modo, "a poesia como substância mágica desorbitada da sua funcionalidade primitiva, que o poeta desespera por restituir à sua natureza orgânica primordial, a fim de a tornar eficaz na recriação do mundo" (CORREIA, Natália, cit. in MARTINHO, Fernando J. B., p. 74). Por isso, para Natália Correia, a palavra, narrativa, dramática ou poética, é, acima de tudo, o principal agente da revolução, não daquela historicamente datada, mas da revolução permanente que o sujeito impõe a si mesmo ao "acusar a história de nos ter escondido que todas as revoluções foram até hoje desnaturados exercícios da verdadeira" (de Epístola aos Lamitas, in Poesia Completa, p. 413). Pela sua ousadia verbal e temática Natália Correia foi impedida de publicar algumas das suas obras durante o regime salazarista, como é o caso das peças A Pécora e O Encoberto, violentas desmistificações de alguns dos mitos nacionais, onde o lirismo e a sátira se fundem no poder exorcizante da palavra.
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