O Judeu
Texto dramático de Bernardo Santareno, publicado em 1966. O título refere-se a António José da Silva, autor de comédias e óperas, que nasceu em 1705, filho de cristãos-novos, designação que na época se atribuía aos judeus convertidos. Foi o seu processo inquisitorial, baseado em depoimentos de espiões infiltrados na prisão e, portanto, absolutamente parcial, que lhe valeu aquela alcunha. A sua vida constitui a espinha dorsal da peça em questão.
No século XVIII representavam-se em Portugal óperas italianas cujo preço as tornava inacessíveis ao grande público. Foi neste contexto que se desenvolveu o teatro de bonifrates, imitação jocosa da ópera italiana, através do qual António José da Silva ganhou uma popularidade que fez notar o carácter satírico das suas peças aos olhos do Santo Ofício. Enquanto na Europa se desenvolviam o Iluminismo e o racionalismo, em Portugal faziam-se autos de fé que não eram mais do que o emblema da triste ignorância e do consequente fanatismo do povo, que assistia aos autos de fé como a um espetáculo. É exatamente com um auto de fé que se inicia a peça, que assim mostra desde logo toda a sua encenação festiva e espetacular, nomeadamente pela retórica manipulatória do sermão do sacerdote convidado.
Este Portugal obscurantista onde reina a intolerância, a manipulação e a perseguição é invetivado por uma personagem investida da função de narrador-comentador - o Cavaleiro de Oliveira, escritor português de espírito jocoso e sarcástico que se refugiara no estrangeiro para fugir à Inquisição. Esta personagem faz avançar a ação através dos seus comentários, estabelecendo a ligação entre o palco e o público, chegando a invocar diretamente os portugueses do século XX, "sombras fugidias da esperança e do temor" que ele ironicamente espera livres de perseguições e dignificadas por uma vida melhor e mais esclarecida.
Na linha de Brecht, este processo - assim como os jogos de luz e sombra, e o recurso a gravações e projeções patentes na peça - desencadeia um efeito de distanciação do público, que é pois chamado a analisar friamente a ação e a notar a sinistra proximidade entre os valores e as crenças do auditório do auto de fé e aqueles da sua sociedade. Vivia-se então no Estado Novo, e o autor não hesitou também em explorar as semelhanças físicas e linguísticas entre Salazar e algumas personagens, como o Inquisidor-Mor. Do mesmo modo, também a omnipresença da PIDE é representada pelo Estudante Pálido. É na mesma linha que devemos inserir o presságio do massacre e das perseguições nazis aos Judeus pelo sonho profético de Lourença, mãe de António José.
No final da peça, depois da imolação de António José pelo fogo, antes de abandonar o palco, Cavaleiro de Oliveira grita «Iluminai o Povo de Portugal!», querendo com isso fazer notar que só um povo esclarecido será capaz de combater e negar as atrocidades presenciadas em palco e estranhamente repetidas ao longo dos tempos. É esta preocupação didática que a peça procura ajudar a cumprir.
No século XVIII representavam-se em Portugal óperas italianas cujo preço as tornava inacessíveis ao grande público. Foi neste contexto que se desenvolveu o teatro de bonifrates, imitação jocosa da ópera italiana, através do qual António José da Silva ganhou uma popularidade que fez notar o carácter satírico das suas peças aos olhos do Santo Ofício. Enquanto na Europa se desenvolviam o Iluminismo e o racionalismo, em Portugal faziam-se autos de fé que não eram mais do que o emblema da triste ignorância e do consequente fanatismo do povo, que assistia aos autos de fé como a um espetáculo. É exatamente com um auto de fé que se inicia a peça, que assim mostra desde logo toda a sua encenação festiva e espetacular, nomeadamente pela retórica manipulatória do sermão do sacerdote convidado.
Este Portugal obscurantista onde reina a intolerância, a manipulação e a perseguição é invetivado por uma personagem investida da função de narrador-comentador - o Cavaleiro de Oliveira, escritor português de espírito jocoso e sarcástico que se refugiara no estrangeiro para fugir à Inquisição. Esta personagem faz avançar a ação através dos seus comentários, estabelecendo a ligação entre o palco e o público, chegando a invocar diretamente os portugueses do século XX, "sombras fugidias da esperança e do temor" que ele ironicamente espera livres de perseguições e dignificadas por uma vida melhor e mais esclarecida.
Na linha de Brecht, este processo - assim como os jogos de luz e sombra, e o recurso a gravações e projeções patentes na peça - desencadeia um efeito de distanciação do público, que é pois chamado a analisar friamente a ação e a notar a sinistra proximidade entre os valores e as crenças do auditório do auto de fé e aqueles da sua sociedade. Vivia-se então no Estado Novo, e o autor não hesitou também em explorar as semelhanças físicas e linguísticas entre Salazar e algumas personagens, como o Inquisidor-Mor. Do mesmo modo, também a omnipresença da PIDE é representada pelo Estudante Pálido. É na mesma linha que devemos inserir o presságio do massacre e das perseguições nazis aos Judeus pelo sonho profético de Lourença, mãe de António José.
No final da peça, depois da imolação de António José pelo fogo, antes de abandonar o palco, Cavaleiro de Oliveira grita «Iluminai o Povo de Portugal!», querendo com isso fazer notar que só um povo esclarecido será capaz de combater e negar as atrocidades presenciadas em palco e estranhamente repetidas ao longo dos tempos. É esta preocupação didática que a peça procura ajudar a cumprir.
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Como referenciar
O Judeu na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$o-judeu [visualizado em 2026-06-04 16:07:21].
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