Operariado e Socialismo na Europa (1864-1914)

O socialismo começou por ser um conceito e um movimento político baseado na organização da classe trabalhadora, que rejeitava o modelo capitalista.
O principal e final objetivo era o comunismo, ou seja, uma sociedade sem classes, concentrada nas reformas sociais dentro do capitalismo.
À medida que este movimento/conceito se desenvolveu, foi adquirindo significados distintos consoante os diferentes tempos e espaços. Este termo terá sido utilizado pela primeira vez no século XIX pelos intelectuais radicais que comungavam ainda da tradição iluminista.
No início do século XIX a Indústria mecanizada, primeiro na Inglaterra e em seguida na França, traduziu-se num acelerado progresso económico que acarretou a ruína dos artesãos e a perda de direitos e de condições de vida dos operários urbanos. Os socialistas utópicos tentam mudar este tipo de sociedade nos países capitalistas, ou pelo menos denunciar a exploração instalada por este sistema político.
Entre os mais importantes teóricos desta ideologia encontravam-se Saint-Simon e Robert Owen. Claude Saint-Simon era um aristocrata francês e Robert Owen um grande industrial inglês, que partilhavam uma ideologia com base em motivos de ordem ética e prática.
Para eles o capitalismo era um sistema injusto que transformava os homens em máquinas e uma forma de exploração dos trabalhadores que viviam no limiar da pobreza. Era uma forma irracional de desenvolvimento das forças produtivas, debilitada com crises cíclicas de superprodução e de subconsumo, que privilegiava a produção de artigos de luxo, em detrimento, muitas vezes, dos produtos essenciais.
O socialismo era uma reação contra o liberalismo que, alegadamente, dava ênfase aos direitos e realizações privadas sobre o bem comum. No entanto, o socialismo acaba por ser um "produto ideológico" nascido do liberalismo. As duas ideologias tinham em comum a abolição da aristocracia. Apesar das semelhanças, os socialistas afastavam-se das suas raízes, pois consideravam o liberalismo uma fachada do capitalismo.
Os socialistas Karl Marx e Friedrich Engels trouxeram a teoria da exploração e a teoria da história. Para a corrente marxista (comunismo científico) o capitalismo era o resultado de um processo histórico e dialético, caracterizado pelo conflito de classes. A ação de um grande grupo de trabalhadores sem terra ou sem trabalho iria levar o capitalismo a colher a semente que gerara.
Esta doutrina socialista, professada por Marx e Engels, desenvolveu-se durante a luta do proletariado contra a burguesia. O combate destes homens baseava-se na luta entre a classe opressora (capitalista) e a classe oprimida (proletariado), e na tentativa de fundar um partido político revolucionário.
Marx era natural de Trier, uma cidade no Reno, oriundo de uma respeitada família burguesa chefiada pelo seu pai, um médico culto. Depois de se formar em Filosofia e integrar o grupo dos "Jovens Hegelianos", Marx abraçou uma carreira política. Em 1842 fundou, em Colónia, a Gazeta do Reno, e em 1844 começou a publicar os Anais Franco-Alemães. Pouco depois, em 1848, publicou, juntamente com Engels, o Manifesto do Partido Comunista, remetido em janeiro de Bruxelas para Londres, que saiu em França em 1848, no ano da revolução popular.
Friedrich Engels nasceu em 1820, dois anos depois de Karl Marx, em Barmen, no seio de uma família burguesa ligada ao setor industrial. Desde cedo discordou dos pontos de vista da classe a que pertencia e viajou para Inglaterra, vindo a instalar-se em Manchester, um grande centro de produção industrial, passando a lidar bem de perto com os problemas do operariado.
No século XIX, o socialismo torna-se a ideologia dominante de uma boa parte das classes trabalhadoras, à exceção de um movimento anglo-saxão.
A transferência de uma ideologia socialista utópica para uma ideologia socialista marxista operou-se durante o processo de industrialização da Europa e com o desenvolvimento de um numeroso operariado. De um movimento de intelectuais, chegava-se às massas de trabalhadores.
Os socialistas ou sociais-democratas seguiram um rumo diferente. Estes eram membros de partidos centralizados ou nacionais, organizados depois da Segunda Internacional Socialista, que enveredaram por uma forma popularizada por August Bebel e Karl Kautsky.
Os partidos socialistas aliaram-se aos sindicatos na sua luta por um programa protecionista. Este programa encontrava-se no manifesto da Segunda Internacional Socialista e no programa dos partidos como o Partido Social-Democrata Alemão, criado em 1875.
O programa de Eduard Bernstein e Karl Kautsky foi aprovado em 1890. Nele estavam incluídos temas como o sufrágio universal, os seguros, as pensões, etc.
Alguns destes ativistas políticos recorriam a medidas mais extremas como a greve geral, tal como sucedeu com o caso de Rosa Luxemburgo.
O Partido Social-Democrata Alemão providenciou o modelo ideológico e de organização para outros partidos, embora a sua influência fosse menor no Sul da Europa. Na Grã-Bretanha, os poderosos sindicatos tentaram influenciar os liberais, e só em 1900 é que formaram o Partido Trabalhista.
A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa (1917) separaram os apoiantes dos bolcheviques de Vladimir Illich Ulianov, dito Lenine, dos reformistas sociais-democratas (mencheviques), a maioria dos quais apoiaram os seus países durante a guerra.
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