oratória sagrada

Diz-se oratória sagrada a arte de convencer e persuadir o público da verdade da mensagem religiosa. É um discurso em que o orador proclama a palavra em nome de Deus e dos valores que a ela se ligam.
A oratória é, simultaneamente, um exercício de raciocínio e um jogo de imaginação, não só para convencer, enquanto dirigida ao entendimento, mas também para persuadir, ao atuar sobre a vontade e ao incitar à prática. Enquanto oratória sagrada implica a eloquência num discurso exortativo ético, mas, igualmente, uma interferência nos comportamentos individuais e da comunidade, dando sentido a uma existência pautada por valores morais e religiosos.
A arte de falar em público constitui uma das variantes do discurso argumentativo. Recorre, naturalmente à estética e à lógica, podendo esta predominar sobre aquela ou vice-versa. Enquanto no campo académico ou forense pode predominar a lógica, na oratória sagrada e política, frequentemente, os valores estéticos são mais marcantes. A oratória veio tomar o lugar da antiga retórica, que se definia como arte de bem falar e persuadir e, por isso, não pode esquecer o embelezamento do discurso com processos estético-estilísticos e os códigos paralinguísticos (voz, dicção, entoação,...) e gestuais. Quase sempre na sua estruturação há um exórdio ou introdução a que se segue o discurso propriamente dito com a exposição do tema, a confirmação ou argumentação, terminando com a peroração.
Lembre-se que desde tempos imemoriais o homem revelou a necessidade da eloquência, muitas vezes para incentivar as tropas ao combate contra os seus inimigos ou para convencer os seus interlocutores. Crê-se, no entanto, que o fundador da técnica retórica foi Górgias Leontinos, natural da Sicília, que, no ano de 427 a. C. em Atenas, produz brilhantes discursos, conseguindo, rapidamente ser visto como mestre desta arte. Mas será Aristóteles, que estudou os seus tratados, que define os princípios da retórica clássica. Com Demóstenes, no final do século IV, na Grécia, esta arte alcançou o seu maior desenvolvimento, e com Cícero e Quintiliano afirmou-se no Império Romano. Os Doutores da Igreja S. Gregório, S. João Crisóstomo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho transformaram a retórica num instrumento precioso para comunicar a mensagem espiritual. Durante a Idade Média, a retórica passa a dar relevo ao discurso literário, como se observa no Renascimento e no Barroco.
O Padre António Vieira, no "Sermão da Sexagésima", expõe o método da sua oratória, dizendo que o pregador, no início (exórdio) depois de definir o assunto do sermão, deve selecionar uma só matéria, definindo-a e dividindo-a; no desenvolvimento do discurso (confirmação) deve confirmá-la com a Escritura; explicá-la com a razão, apresentando argumentos válidos; amplificá-la com as causas, os efeitos, as circunstâncias, as conveniências e os inconvenientes; responder às dúvidas e objeções, refutando os argumentos contrários; e, por fim (peroração), deve tirar uma conclusão, exortando o auditório a pôr em prática esses ensinamentos.
Quer no Antigo Testamento, através de alguns profetas, quer no Novo Testamento, com Jesus Cristo ou S. Paulo, a oratória sagrada está presente. Ao longo dos séculos, esta arte foi cultivada por diversas figuras da Igreja, como os santos doutores referidos, ou ainda Santo António, Bossuet, Frei Luís de Granada (1504-1588), ou entre os portugueses o Padre António Vieira (1608-1697), Padre Manuel Bernardes (1644-1710), Diogo Paiva de Andrade (1528-1575), Frei António das Chagas (1631-1682), Padre José Agostinho de Macedo (1761-1831) e outros.
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