Palácio Real da Vila de Sintra

Pressupõe-se que o Paço Real de Sintra, cujo ex-líbris mais saliente são as duas chaminés cónicas - que originalmente se pensa terem sido cobertas de azulejos -, tenha começado a ser construído no início do século XV. Inicialmente apontava-se o começo da sua obra em 1396, mas, segundo o cronista Rui de Pina, o levantamento do Palácio será posterior (primeiros anos do século XV).
O Paço de Sintra - cuja característica estilística mais marcante, para além da força da influência mudéjar, é a interdependência e justaposição de mais do que um corpo arquitetónico - ergue-se majestoso na Vila de Sintra. É possível distinguir nele a expressão artística de duas vontades régias muito fortes, que o consolidaram em termos de volumes, dimensões e gramática decorativa. Falamos da época de D. João I (primeiro terço do século XV) e do período manuelino (primeiro terço do século XVI), dois marcos decisivos em termos de "dinâmica construtiva" concertada e programática, embora encerre em si mesmo acrescentos de épocas diversas.
Ainda muito preso à tradição medieval, é dotado de complexa planta caracterizada pela interdependência de níveis diferentes que se ajustam na criação de um espaço monumental e imponente. As restantes épocas permanecem em situação de semi-obscurantismo, como é exemplo a de D. Duarte, e outras houve, como a renascentista - que individualiza os reinados de D. João III e D. Sebastião - que pouco contribuíram em termos de novidade artística. Já na época de D. Pedro II se fizeram consolidações pouco favoráveis, a que se seguiu uma fase de maior impulso construtivo imposta pelo terramoto de 1755. No entanto, o conjunto destaca-se sobretudo a nível da fachada nobre - a um tempo gótica (D. João I) e a um outro manuelina (D. Manuel I), ambos dotados de forte componente luso-mourisco. Esta linguagem de sabor orientalizante revelou-se mais cedo em Sintra, afirmando-se mesmo este monumento como um laboratório experimental no panorama artístico nacional dos finais do século XV e princípios do XVI.
Duarte Darmas deixou-nos um desenho do paço que não foi o que chegou até aos nossos dias, pois a fachada sul estava rodeada por várias construções, demolidas já neste século e que fechavam sobre aquela, criando assim um pátio interior.
A fachada joanina, em cuja base se rasgam quatro arcadas góticas, cadenciadas mas algo austeras, aligeira-se ao nível do piso superior rasgado por cinco janelas geminadas, que, tal como as restantes deste período que animam o palácio, se caracterizam por um contido mudejarismo. Os vãos, elegantes e sóbrios, apresentam molduração gótica que repousa, lateralmente, em bases facetadas, à semelhança de um alfiz árabe. A arcada gótica, juntamente com o desaparecido pátio, marcava já um outro tempo, de transição com o exterior mas ainda urbano, prestes a recolher-se através da singela escadaria lateral, símbolo duma certa descontinuidade espacial que se pretendia alcançar.
A época de D. Manuel I imprime à fachada uma nota de exuberância e plasticidade de volumes contrastando com o anterior ordenamento joanino. Os elementos decorativos adquirem vigor plástico em torno dos múltiplos vãos geminados e varandins que rasgam a fachada (sem dúvida menos elegantes e mais exuberantes), conferindo ao espaço uma rara dinâmica, adquirindo correspondência ao nível do interior, ao qual preside uma nova noção de conforto. A fachada é coroada por um denticulado à semelhança de ameias, de influência mudéjar. Ao longe, este recorte faz lembrar a estilização dos ciprestes orientais, árvore sagrada que estabelece simbolicamente a ligação entre o céu e a terra.
Interiormente, o paço conserva a sua antiga magnificência. A capela, joanina, possui um belíssimo teto de alfarge e pinturas murais primitivas. A Sala das Pegas (refeita no século XVII), de ambiência cavaleiresca, é coroada por lindíssimo teto de masseira pintado.
Expressão da vontade e do poder de D. Manuel I é o armorial da Nação plasmado na magnífica cúpula da Sala dos Brasões (1510), de planta quadrada, autêntico elogio da nobreza portuguesa. Esta cúpula de caixotões adquire sentido mágico de coroamento quase celeste, cintilante de dourados e brilhos policromos.
A influência mudéjar visível nas fachadas não tem correspondência quer no interior do palácio, a nível dos alicatados, revestimentos de azulejos e tetos quatrocentistas de alfarge, quer ainda nos exteriores, pátios adornados com imbricados jardins, onde a água surge como elemento preponderante. O famoso tanque dos cisnes, que acompanha a grande sala, "sugere qualquer coisa de mourisco no sábio aproveitamento das águas para refrescar as salas" (palavras de Helder Carita) e reporta o pátio como elemento dinamizador da arquitetura.
Pese embora o seu carácter de exceção, o Paço Real da Vila de Sintra parece resumir a tipologia arquitetónica característica dos séculos XVII e XVIII - "conceção estrutural essencialmente simples e geométrica, recusa do exterior por fachadas pouco fenestradas, enfatização do portal de entrada como elemento autónomo do corpo exterior, desenvolvimento a partir do pátio da entrada como rutura e descontinuidade entre interior e exterior, conceção estática ascensional, decoração como elemento essencial e estruturante da arquitetura (azulejo e talha)" (Helder Carita).
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