Paulo Bragança

Fadista e ator português, nascido em 1967, em Angola, é responsável por algumas das mais radicais transgressões feitas no fado, gerando grande polémica sobretudo na década de 1990.
O primeiro contacto que Paulo Bragança teve com o fado foi, ainda em criança, através do álbum de Amália Rodrigues gravado ao vivo no Japão. A música esteve presente desde cedo, com vários guitarristas e fadistas amadores na família.
A sua vida acompanha a diáspora. Abandonou Angola, após o 25 de abril de 1974, e fixou-se, nos Estados Unidos. Só aos 10 anos veio para Lisboa, onde o fado estava mais presente do que nunca. Estudou Direito na Universidade Clássica, mas, nas vésperas da graduação, desistiu do curso. Foi desafiado a cantar, numa festa universitária, e apercebeu-se de que o fado era a sua verdadeira vocação. Chegou a inscrever-se no Conservatório de Música, mas foi recusado. Entrou, então, no circuito das casas de fado. Contudo, logo desde o início, quis desafiar as regras rígidas do meio, questionando a tradição e encontrando arrojadas formas de se exprimir, através da música e não só. A imagem excêntrica de Paulo Bragança é uma das suas marcas. Ao princípio, usava um casaco de cabedal e botas da tropa. Com o tempo encontrou trajes folclóricos, que lhe deixavam parte do tronco despido e passou a cantar de pés descalços - o que se tornou a sua principal imagem de marca. Assumindo-se sempre como fadista, criou inúmeras polémicas, com acusações violentas na imprensa ao meio do fado tradicional e à sua 'institucionalização'.
Em 1992, gravou o seu primeiro disco, Notas Sobre a Alma (Polygram). É um álbum bastante conservador, em que Bragança viu o seu campo de ação restringido pelos planos da editora. O álbum conta com várias composições do guitarrista Mário Pacheco e letras de Rosa Lobato Faria, Jorge Fernando, entre outros. Jorge Fernando assume também a produção.
Dois anos depois, lançou Amai (Polygram/Luaka Bop), em que exprimiu de forma mais clara o seu estilo subversivo. Produzido por Rui Vaz, Carlos Maria Trindade e o próprio Paulo Bragança, cruza o fado com samplers, coros, interlúdios, música tradicional, flamenco e pop-rock. Interpreta "Sorrow's Child", de Nick Cave, e "Adeus", dos Heróis do Mar. O álbum gerou grande polémica, mas David Byrne, o vocalista dos Talking Heads, apaixonou-se por ele, e integrou-o no catálogo da sua editora a Luaka Bop. Teve assim edição mundial. E Paulo Bragança passou a ser um dos fadistas mais internacionais, com particular destaque nos Estados Unidos.
Em 1996, lançou o seu terceiro álbum, O Mistério do Fado (Polygram), cuja capa é um retrato do seu avô. Incluindo algumas letras da sua autoria, mantém o estilo do álbum anterior. O mais surpreendente é a adaptação ao fado de "Remar Remar", dos Xutos & Pontapés.
Seguiu-se um jejum editorial de cinco anos. Pelo caminho, participou na coletânea Red Hot + Lisbon (1999), em que interpretou, acompanhado por Carlos Maria Trindade, "A Névoa". Também foi lançada uma coletânea, com os seus melhores êxitos.
Em 2001, saiu o seu quarto álbum de originais, Lua Semi-Nua (Ovação), em que radicalizou ainda mais o discurso. Produzido por José Cid, inclui algumas surpresas, como uma versão eletrónica do clássico do fado de Coimbra "Samaritana" (Álvaro Franco); uma versão de "Minha Senhora da Solidão", de Jorge Palma; ou uma 'visita' ao mundo da droga, com uma nova letra, da sua autoria, para "Fado Falado", com o título "Fado Mudado" (Paulo Bragança/Francisco Menano).
A outra grande paixão de Paulo Bragança é a representação. Chegou mesmo a inscrever-se num curso de teatro e participou no filme Tráfego (1998), de João Botelho, tendo interpretado o hino nacional.
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