Povos do Norte da Europa: A Nova Vaga de Invasões

Os ditos povos bárbaros oriundos do Norte da Europa, entre os quais predominavam as tribos germânicas, Visigodos, Ostrogodos, Vândalos, Alanos, Francos, etc., aproximaram-se vertiginosamente de alguns territórios do decadente Império Romano do Ocidente onde vieram a formar os seus estados. A impressão geral com que se fica é a de que estes povos, seminómadas, com uma agricultura tecnicamente atrasada, a princípio acolhidos pacificamente, serão, a partir do século IV, pressionados pelo avanço dos Hunos, povo de origem mongólica, sobre a Europa Ocidental. Este avanço será muito mais expressivo no século seguinte. Sob a chefia de Átila, o "flagelo de Deus", as hordas de cavaleiros hunos precipitarão o avanço das restantes tribos sobre o império. Este, ameaçado desde há algum tempo, já se havia convertido em duas unidades distintas, fragilmente unidas pela tradição: o Império Romano Ocidental (Roma e Ravena) e o Império Romano Oriental (Constantinopla).
Os visigodos ou godos do Oeste, chefiados pelo rei Alarico, fixaram-se na Península Balcânica, de onde partiram para a Itália, um país onde receberam o apoio dos escravos e colonos do império, descontentes com o seu modo de vida sob o domínio romano.
Quando, em 410, tomaram Roma e saquearam durante três dias a capital do Império Romano do Ocidente, as portas da cidade foram-lhes abertas precisamente pelos escravos de Roma. Daqui, partiram para a Gália e para a Espanha, onde fundaram o primeiro estado dos visigodos, em terras do território romano. Os Vândalos tinham atravessado o território romano e chegado em primeiro lugar a Espanha, mas foram empurrados para o Norte de África onde fundaram um estado sediado em Cartago. Este povo fazia pirataria no mar e saqueava as costas da Sicília e da Itália. O rei dos vândalos Genserico tomou Roma e, em 445, submeteu a cidade a um prolongado saque que durou catorze dias. Pouco tempo antes o Império Romano tinha sido atacado pelos Hunos de Átila, que se assenhorearam de um território entre o Volga e o Reno e seriam depois derrotados pelos visigodos (ao serviço de Roma) na Gália, na batalha dos Montes Cataláunicos. O império sofreu também a incursão dos francos, provenientes do curso inferior do Reno.
Em 476 foi a vez de Odoacro, o chefe de um conjunto de tribos bárbaras, onde predominavam os Hérulos que dominavam a Itália e arrasaram por completo com o que restava do Império Romano, governado por Rómulo Augústulo, o último imperador. Depois de conquistar Roma o chefe bárbaro, simbolicamente, enviou as insígnias imperiais para Constantinopla.
A passagem destes povos bárbaros destruiu a vida urbana, arruinou os antigos ofícios e fez cair em decadência a cultura. O Império Romano do Ocidente foi destruído e em seu lugar surgiram os estados bárbaros.
No século V o Império Romano Oriental era dominado por Constantinopla, antiga Bizâncio; em Cartago imperavam os Vândalos e a Itália estava a ser tomada pelos Ostrogodos. No Norte da Gália fixavam-se os Francos; no Sudoeste das Gálias e na Península Ibérica ficava o reino dos Visigodos. A Grã-Bretanha foi progressivamente tomada pelos Anglos e pelos Saxões. E na Europa central viviam os Saxões, os Alamanos, os Turíngios e os Lombardos; a leste localizavam-se as tribos eslavas.
Estes povos guerreavam entre si, daí as flutuações das suas fronteiras serem muito comuns. Em 493, o estado de Odoacro foi vencido pelos Ostrogodos, assassinado pelo rei Teodorico. Mas estes não duraram muito tempo na Itália, pois o imperador Justiniano, no século VI, travou com eles uma guerra por um período de 20 anos. Entre 555 e 568 o país integrou o Império Bizantino. No último ano foi derrotado pelos Lombardos.
A queda de Roma alterou radicalmente o quadro europeu. Em lugar deste gigante surgiu uma série de reinos e de estados mais ou menos efémeros, onde muitos veem as raízes da Europa atual. De Roma ficou o prestígio dos tempos áureos e uma nostalgia que se reavivará ao longo dos tempos em tentativas, quase sempre fracassadas, em termos de perenidade de reconstrução de um estado imperial. As invasões bárbaras precipitarão, igualmente, a decadência da cultura romana que, embora permanecendo na matriz europeia, será profundamente modificada.
No século V os Francos dividiram-se em tribos, chefiadas por príncipes. Clóvis (481-511), o mais forte destes príncipes, tornou-se o soberano de um estado. Este descendente de Meroveu (daí o nome merovíngios, para designar a sua dinastia) conquistou parte do domínio dos Visigodos e submeteu quase toda a Gália; a leste subjugou algumas tribos germânicas e aniquilou todos os seus inimigos, apoiando-se sempre na Igreja cristã, à qual se convertera.
O seu estado, à boa maneira dos francos, foi dividido entre os seus filhos e depois entre os seus netos; esta partilha levou contudo à sua desintegração e ao fortalecimento do poder da nobreza militar, à custa da servidão dos camponeses. Começavam a estabelecer-se as condições para o estabelecimento do regime feudal, que marcará a Europa durante séculos. Entretanto, um novo perigo ameaçava o continente e o regime franco: a expansão muçulmana. Os descendentes de Maomé, seguindo as orientações do Corão, encetaram um processo expansionista que os trouxe à Península Ibérica. Disciplinados, bem equipados e determinados, os cavaleiros árabes avançaram com extrema rapidez dominando o Mediterrâneo que, nas palavras de Henri Pirenne, se transformou num "lago muçulmano". No início do século VIII o estado visigótico da Espanha encontrava-se mergulhado numa guerra civil. Tratava-se da luta pela sucessão de Vitiza, que seria o último rei dos Visigodos como povo independente, num confronto que envolvia também os francos. Uma das fações em conflito requereu o auxílio dos berberes do Norte de África, que tiraram partido desta situação caótica. Em 711 os exércitos berberes, comandados por Tarik, às ordens do emir de África, invadiram a Península. Rodrigo, intitulado rei dos Visigodos, surpreendido com a invasão, conduziu o seu exército ao encontro dos berberes. Junto do lago Janda, nas margens do rio Guadalete, travou uma batalha contra os invasores. Sem surpresa, os Visigodos foram derrotados e o seu chefe morto no campo. Era o fim da unidade política visigótica. Sem qualquer oposição, os islâmicos apoderaram-se de toda a Península Ibérica e avançaram pelos Pirenéus penetrando na Gália.
Aí, esperava-os o exército franco de Carlos Martel, que os derrotou na batalha de Poitiers (732), obrigando-os a retroceder para a Península, não avançando mais. Com esta vitória, Martel aumentou o seu poder e prestígio e pôde dedicar-se à consolidação de um estado, em parte, também, através do despojamento da Igreja. Esta instituição, no entanto, apesar de ter perdido parte dos seus bens, conservou a sua situação privilegiada.
Pepino, o Breve, foi o seu sucessor, feito rei dos Francos em 751. É considerado o fundador da dinastia carolíngia. Ajudou o papado contra os lombardos e entregou à Igreja as terras que conquistou - Ravena e o Lácio - as quais vieram a ser a base dos futuros estados pontifícios. Com o seu filho Carlos Magno (768-814) foi atingido o máximo poder do estado franco. Este tornou-se o mais forte rei da Europa, que em 800, durante uma estadia em Roma, foi coroado imperador pelo Papa Leão III. Carlos Magno (c. 742-814) será considerado o legítimo sucessor dos imperadores romanos. Durante os cerca de 45 anos do seu reinado organizou 55 expedições militares com os objetivos de construir um império e, nesse mesmo sentido, auxiliar a Igreja. Respondendo aos apelos do papa, ultrapassou os Alpes e destruiu o reino lombardo (774). As campanhas vitoriais que liderou (o seu único grande desaire aconteceu em Roncesvales, na tentativa de conquista da Espanha) levaram-no a ser reconhecido como imperador pelo seu homólogo de Bizâncio e pelo califa de Bagdade.
O império que construiu foi dividido pelo seu descendente Ludovico, o Pio, ou Luís, o Piedoso, que o repartiu pelos seus filhos. À sua morte os seus herdeiros lutaram entre si, mas o Tratado de Verdun, de 843, sancionou aquela divisão do império. Carlos, o Calvo, ficaria com a parte ocidental; Luís, o Germânico, com a porção oriental e Lotário com a central e a Itália. No final do século IX havia três reinos: O reino Franco ocidental, a futura França; o reino Franco oriental (a Germânia) e a Lotaríngia, que englobava a Itália e outras terras.
Em 987, a dinastia dos carolíngios foi substituída pela dos capetos, com a chegada ao poder de Hugo, o Capeto, um dos senhores feudais, de um país desde então e até ao século XI dividido em ducados e condados.
A Inglaterra, entre o século V e o século IX, foi conquistada pelos Anglo-Saxões, que submeteram os Celtas. Na Escócia, em Gales e na Irlanda as populações autóctones lutavam pela sua liberdade. Nesta terra, foram-se formando reinos, entre os quais se destacava o reino de Wessex, dos saxões ocidentais. Mas a partir do século IX, chegaram a este território os Normandos ou dinamarqueses. No final do século IX a resistência dos Saxões aos novos invasores era comandada pelo rei Alfredo, um monarca atento às atividades bélicas e às atividades culturais. Este monarca, rodeado de sábios, difundiu as artes, a escrita e a leitura e mandou escrever a crónica anglo-saxã.
Os seus sucessores continuaram a luta com os dinamarqueses, mas no século X estes já se tinham miscigenado com a população saxónica. Na segunda metade do século este território foi assolado por uma nova vaga de invasores, duques da Normandia. Guilherme, o Conquistador, desembarcou em Inglaterra em 1066, para proclamar os seus direitos sobre o trono inglês, sendo auxiliado por cavaleiros franceses.
O confronto entre os exércitos de Haroldo e de Guilherme deu-se em Hastings. O rei dos Saxões lutava sem o apoio dos senhores feudais, contando apenas com guerreiros fiéis e milícias de camponeses, enquanto que o duque normando estava dotado de um exército bem apetrechado que não tinha praticamente hipótese de ser derrotado.
O novo rei de Inglaterra só encontrou resistência no Norte do território, e uma vez no poder transferiu as terras dos senhores saxões para a posse dos seus cavaleiros, fortalecendo o poder feudal. As relações entre vencedores e vencidos não foram fáceis e o entendimento demorou cerca de um século e meio. O ódio ao conquistador normando é bem ilustrado pela lendária figura de Robin dos Bosques.
Também a Alemanha, à imagem da França, se desintegrou em ducados, dos quais se notabilizaram os da Saxónia, da Francónia, da Suábia, da Baviera e da Lorena.
Os Carolíngios viram a sua dinastia extinguir-se na Alemanha em 911 e logo de seguida o trono foi ocupado pelo duque saxão Henrique, o Jovial. Este foi sucedido pelo seu filho Otão, o Grande (936-973), que numa estratégia de enfraquecimento dos duques saxões fortaleceu a Igreja através do apoio a bispos e a conventos. Este rei também teve uma intervenção em Itália, um território feito de domínios feudais independentes, chefiados pelos duques, marqueses e bispos. Aproveitando a debilidade deste território, Otão, depois de bater os sarracenos, apoderou-se da Itália e fez-se coroar imperador pelo Papa, em 962, reestabelecendo o império agora com o nome de Sacro Império Romano-Germânico, que não inclui a Itália meridional, em parte sob o controlo de Bizâncio. No século IX estes territórios do Sul da Península Itálica foram invadidos pelos árabes, que tomaram algumas cidades como a Sicília e, em meados desse século, a eles se juntaram os normandos que formaram uma aliança precária com os duques da Itália meridional, mas acabaram por lutar contra estes duques, os árabes e os bizantinos. No século XII os domínios normandos da Itália tomaram o nome de Reino das Duas Sicílias.
Em 1024 a dinastia saxónica do Sacro Império foi substituída por uma da Francónia, representada pelo rei Henrique III. Na segunda metade do século XI, os papas reafirmaram o seu poder sobre a Igreja e insurgiram-se contra os imperadores.
Hildebrando foi um dos mais ferozes lutadores contra o poder imperial e em 1073 foi eleito papa, tomando o nome de Gregório VII. O Papa incompatibilizou-se com o descendente de Henrique III, Henrique IV, que, após diversos atos ofensivos, pediu perdão ao Papa em Canossa, em 1077. Este perdão foi humilhante, mas permitiu-lhe retomar a guerra com os senhores feudais. Depois de os submeter marchou sobre Roma. O Papa, fechado no castelo, pediu a ajuda do chefe dos Normandos em Itália, Roberto Guiscardo, que conseguiu expulsar os germânicos; contudo, deixaram a cidade num miserável estado e cometeram atos ignóbeis. Gregório VII, na impossibilidade de permanecer na cidade, saiu com os normandos, vindo a falecer em 1085.
No Leste, também se registavam movimentações importantes.
As tribos eslavas distribuíam-se em três grupos distintos: o oriental, o meridional e o ocidental, que se fixaram nas bacias dos rios Vístula, Óder e Elba. No Elba superior viviam os checos e os morávios; no Vístula e no Óder os poloneses; e no Elba Médio e inferior as tribos polacas e na costa meridional as tribos pomerânias.
Os eslavos ocidentais foram submetidos por Carlos Magno, todavia, recuperaram a sua independência com a desintegração do Império Franco. A partir de meados do século XI, a guerra passou a travar-se com os germanos, que difundiram o cristianismo entre as tribos eslavas.
No século IX, formou-se o estado morávio, que dominava as tribos fixadas entre o Danúbio e os Cárpatos. Na sua luta contra os germanos pediram auxílio a Bizâncio, que lhes enviou Cirilo e Metódio, os criadores do alfabeto eslavo (cirílico). Cirilo morreu em Roma e Metódio foi afastado pelos germanos, que estabeleceram a soberania dos bispos alemães. Para derrotar de vez os morávios os germanos chamaram os húngaros que, em 906, tomaram uma parte deste estado. Além disso, desintegraram outros domínios, como a Boémia, que foi obrigada a reconhecer o poder germânico. No século X, as tribos eslavas da bacia do Vístula e do Óder formaram o estado polonês.
As terras dos eslavos polacos foram tomadas por Henrique I e Otão I, mas no início do século XI tornaram-se independentes.
Os eslavos bálticos das cidades marítimas dominavam a parte meridional do mar Báltico, no século XI e conservaram a sua independência contra os alemães, que os atacaram de novo no século XII.
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