produção biológica

O crescimento demográfico obriga a um aumento rápido da produção alimentar, por forma a poder satisfazer as necessidades alimentares da população mundial. Este aumento foi conseguido, em parte, devido aos progressos tecnológicos na produção de fertilizantes químicos (utilizados na correção mineral dos solos) e de inseticidas, fungicidas e herbicidas, usados para eliminar pragas e concorrentes naturais das espécies usadas para produção alimentar. No entanto, embora o uso destes produtos permita numa fase inicial aumentar o rendimento agrícola, a sua utilização a longo prazo, conjuntamente com as práticas de monocultura e de cultivo intensivo, conduz ao esgotamento e contaminação poluente dos solos, alterando assim o seu equilíbrio biológico e as suas características físico-químicas (como, por exemplo, o pH), levando à criação de solos estéreis, isto é, inaptos para qualquer tipo de atividade agrícola, o que acarreta consequências óbvias na produção alimentar - menos solos, menor produção de alimentos, exploração mais intensiva dos solos que restam, conduzindo a um esgotamento mais rápido desses solos - e, em algumas zonas, ao avanço da desertificação.
Por forma a contrariar esta tendência de exaustão dos solos, bem como da produção de alimentos com recurso a substâncias potencialmente nocivas, surge uma nova corrente de práticas agrícolas e pecuárias, a produção biológica, que defende o retorno a técnicas tradicionais, com reduzido ou nulo impacto ambiental, por oposição à exploração industrial dos solos agrícolas e criação abusiva de animais.
A produção biológica visa a produção de alimentos com um elevado valor nutricional, garantindo, em simultâneo, a preservação do equilíbrio vital dos solos e da sua microfauna extremamente frágil. Para tal, ao nível da produção vegetal, a agricultura biológica caracteriza-se por:
- Utilização da compostagem de matérias orgânicas para a obtenção de adubos com elevado valor nutricional e incorporação de estrume animal proveniente da produção biológica de animais em detrimento do uso de adubos químicos, potencialmente poluentes.
- Prática de policulturas, por oposição às monoculturas industriais, o que garante um aproveitamento equilibrado dos recursos minerais dos solos, assim como o retorno de parte importante desses mesmos nutrientes aos solos após a sua utilização pelas plantas.
- Prática das técnicas de rotação de culturas e de pousio que permitem que o solo restabeleça o seu equilíbrio mineral, logo, o seu potencial de cultivo, sem ser necessário o uso de reconstituintes minerais químicos.
- Utilização extremamente reduzida (ou, até mesmo, totalmente anulada) de herbicidas e fungicidas, graças a um correto arejamento do solo, e utilização de técnicas como a da falsa sementeira, que recorre a uma preparação do solo cerca de duas semanas antes da verdadeira sementeira, por forma a potenciar a germinação de infestantes, os quais são removidos (sem uso de químicos) antes da sementeira, eliminando-se assim a competição (por espaço, luz e nutrientes) destes com as culturas de interesse produtivo.
- Adição de nutrientes minerais, quando necessária, que é realizada com extremo cuidado, acrescentando apenas as quantidades estritamente necessárias, evitando assim as consequências da acumulação, em concentrações excessivas, de determinados compostos químicos.
- Utilização dos recursos da vegetação espontânea, geralmente considerada como infestante, em vez de promover a sua erradicação total. Como exemplo, o caso das calêndulas, plantas ricas em cálcio, que permitem o enriquecimento do solo com este elemento, e das urtigas, que podem funcionar como pesticidas naturais para certas espécies, quando são pisadas e deixadas no solo (se deixadas vivas, competem com as espécies de cultivo por espaço e minerais).
Relativamente à pecuária, o Regulamento (CE) n.º 1804/99 define as regras da produção animal, como, por exemplo:
- As raças devem ser adequadas ao meio.
- Os animais devem ter acesso a áreas ao ar livre.
- A densidade de animais por hectare deve ser limitada.
- A sua alimentação deve basear-se na produção biológica e ser obtida preferencialmente na própria exploração.
- É estritamente proibido estimular o crescimento ou controlar a reprodução.
Em consequência destas práticas, a produção biológica apresenta a vantagem de permitir uma exploração equilibrada dos recursos dos solos. A preservação do ambiente é também outra das vantagens da produção biológica, já que não existe poluição, quer hídrica quer dos solos, havendo também a produção de alimentos, particularmente frutos, com elevado teor nutritivo.
Mau grado as suas vantagens, existem, no entanto, algumas desvantagens face às práticas agrícolas industriais como, por exemplo, os elevados custos de produção, a fraca produtividade (em termos de tempo de produção e quantidades produzidas), assim como um menor peso individual dos produtos (por exemplo, o peso de uma maçã).
A produção biológica é uma técnica que inclui práticas agrícolas e pecuárias que, embora conduzindo a uma exploração sustentável dos solos, necessita ainda de alguns desenvolvimentos e apoios científicos, por forma a permitir uma maior rentabilização económica, bem como um aumento da capacidade produtiva, de maneira a assegurar o suporte alimentar da população mundial.
Como referenciar: produção biológica in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-07-22 04:57:17]. Disponível na Internet: