Regeneração

Conceito da maior importância na história do liberalismo português, a Regeneração define um período da vida portuguesa do século XIX iniciado em 1851 pela insurreição militar liderada pelo marechal duque de Saldanha contra o último ministério de Costa Cabral.
A viragem estrutural que na segunda metade do século XVI se verificou com o início do colapso do Império Português do Oriente criou, em alguns portugueses, o desejo de uma "regeneração" nacional que levasse o país a progredir como os restantes países da Europa. Esse projeto tomaria forma com a vitória do liberalismo em 1834, apesar das dificuldades que a estrutura arcaica da sociedade portuguesa inevitavelmente criava.
Considera-se que o momento alto desse liberalismo se situa no período que se estende entre 1851 e 1868 com o movimento autodenominado Regeneração, cujo mentor foi, inicialmente, Alexandre Herculano. De resto, foi na casa de Alexandre Herculano em Lisboa que a revolta tomou forma. Foi aí que se planeou não só o movimento, como também os passos a dar após a vitória. Assim, em 7 de abril de 1851, Saldanha sai de Lisboa em direção a Sintra para resgatar promessas de apoio que lhe haviam sido feitas, determinado a fazer eclodir o movimento. Consegue a adesão, ainda que tardiamente, do regimento de Caçadores 1, de Setúbal e de Caçadores 5, de Leiria. Porém, por esta altura, já as tropas do rei D. Fernando estavam no Cartaxo, impedindo a junção de Caçadores 1 e 5.
Parte para o norte, mas as receções de Coimbra e do Porto são dececionantes. Após tantos desenganos, acaba por se refugiar na Galiza.
De repente, o panorama altera-se radicalmente: no Porto, em 24 de abril o quartel de Santo Ovídio subleva-se, juntando-se-lhe a Municipal e o regimento de Infantaria 6.
Saldanha entra no Porto em triunfo em 27 de abril encontrando um exército e uma grande cidade que o apoiam. Logo no dia seguinte, envia missivas a todos os governadores civis declarando como objetivos do movimento a reforma da Carta Constitucional e a queda do ministério de Costa Cabral, que acaba por ser demitido em 29 de abril de 1851, retirando-se para Espanha.
D. Maria II nomeia o duque da Terceira para presidir ao novo ministério. Mas, por força das circunstâncias, a presidência teria de ser entregue ao chefe da insurreição vitoriosa. Em 15 de maio Saldanha entra em Lisboa e, a 17 ocupa o cargo de presidente do ministério.
O governo chefiado pelo duque de Saldanha teve como figura principal Fontes Pereira de Melo, responsável pela pasta da Fazenda (21 de agosto de 1851) e primeiro titular da pasta das Obras Públicas (30 de julho de 1852). Outras personalidades deste ministério foram Rodrigo da Fonseca (Reino) e Almeida Garrett (Estrangeiros).
O reino estava cansado de tanta agitação política. Sobretudo a burguesia precisava de tranquilidade que lhe permitisse a expansão económica.
Também na vertente política o país iria tranquilizar, pois a elaboração do Ato Adicional de 1852 poria termo à divisão entre cartistas e setembristas, tornando a Carta aceitável praticamente por todos.
Fontes Pereira de Melo encarnou a transformação material que o País viria a sofrer durante os dezassete anos seguintes e que se refletiu na abertura de estradas, na instalação do caminho de ferro e do telégrafo, na modernização da agricultura, do comércio e da indústria, na redação de um novo Código Civil, na abolição da pena de morte para crimes civis, na extinção da escravatura, etc.
Assim se verificou um desenvolvimento económico, social e mental que recuperou atrasos acumulados em dezenas de anos de lutas internas, apesar de todo o processo não ter sido possível sem o recurso a capitais estrangeiros e sem a adoção de medidas fiscais que, pela sua impopularidade, estiveram na base do fim deste período, determinado pela revolta da Janeirinha (1868), que levou os reformistas ao poder. Todavia, a aspiração regeneradora pareceu continuar, impulsionando novos movimentos políticos, tais como a Vida Nova (1885), o Republicanismo e mesmo o Estado Novo.
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