Reinos Cristãos Peninsulares

Em 711, Tarik, governador berbere de Tânger ao serviço dos Omíadas, invade a Península Ibérica e em três anos conquista-a na sua quase totalidade. O Nordeste da Galiza e as Astúrias, regiões situadas a norte de sistemas montanhosos de difícil transposição, conseguiram evitar, por via da resistência também, a sua submissão ao invasor muçulmano. Por outro lado, convém salientar que a dominação árabe na Península, para além de tolerante com os Cristãos e Judeus das regiões conquistadas, só se sentia de forma efetiva e marcante a sul da linha Coimbra-Toledo-Saragoça, estando as regiões a norte desta área ocupadas de forma intermitente e basicamente por pequenos destacamentos militares, às vezes um ou outro povoado pequeno. Esta imensa região estagnada e pouco arabizada proporcionou em parte a garantia de muitos sucessos da Reconquista. Autênticos bastiões cristãos herdeiros das tradições visigóticas, as populações cristãs do Norte peninsular, logo a partir de 740, iniciam investidas contra os Mouros, coroadas de êxito em 742 na vitória de Covadonga, povoação nas imediações de Oviedo. Até 748, a reconquista das Astúrias aproveitará as lutas entre Árabes e Berberes na Península, empreendendo arremetidas militares cada vez mais afastadas das montanhas do Norte. Também no litoral basco e em certos rincões dos Pirenéus, subsistiam aglomerados cristãos ciosos da sua independência, embora aqui contassem com o apoio e cobertura dos Francos da Gália, vencedores dos Muçulmanos em Poitiers, no ano de 732. Em 778, depois do desastre franco de Roncesvales, a fronteira cristã no Nordeste peninsular ficará mais definida num eixo entre as Vascongadas, Navarra e Catalunha, a norte, portanto, da linha de demarcação meridional da Marca de Espanha carolíngia (criada entre 785 e 811).
Ainda que com uma situação política indefinida em termos de autogovernação, Galiza, Astúrias e Cantábria, a par dos núcleos pirenaicos, foram os embriões da aventura cristã da Reconquista e base dos futuros reinos peninsulares medievais. O primeiro reino independente será o das Astúrias, criado por Pelágio, em 718, que avançará para sul até ao Douro, numa primeira fase, ao sabor das suas conquistas militares, ainda em regiões montanhosas ou noutras quase desabitadas. A corte asturiana obedecia ao modelo visigótico, tendo tido como primeira capital estável e urbanizada a cidade de Oviedo.
Simultaneamente, ao longo do século IX, a partir da referida fronteira carolíngia, formam-se os condados da Catalunha (unificados em 985) - entre eles, o de Barcelona, quiçá o mais poderoso - e o reino de Navarra. Este constituiu-se a partir de um desmembramento do império carolíngio, do qual se aproveitam os senhores locais, que estão na base de outros reinos posteriores. Assim, cerca de 840, o chefe Iñigo Arista (c. 770-852) torna-se o primeiro rei de Navarra e fundador da dinastia Iñiga. Rapidamente este reino conquistará posições importantes em termos militares e geográficos, o que não obsta a que entre gradualmente na esfera de influência do outro reino cristão peninsular em formação, mas mais antigo, o das Astúrias, que, mercê do seu avanço até ao Douro - e mesmo até ao Mondego, no reinado de Afonso III (886-910) - se passa a designar de Leão (a partir de 910), em virtude da transferência do centro de poderes e decisão asturiano para aquela antiga urbe. Nesta altura dá-se, por outro lado, o repovoamento de várias povoações do Ocidente peninsular, como Portucale (Porto), Coimbra, Veseo (Viseu) e Lamecum (Lamego). Algumas destas reconquistas e repovoamentos sofrerão sérios reveses, como em toda a Península, com o contra-ataque de Almançor (981-1002), atrasando as linhas de reconquista dos reinos cristãos peninsulares. Todavia, na sequência dos avanços e dos esforços de povoamento das regiões reconquistadas (cuja valorização económica logo renasce), superando-se os ritmos menos rápidos ou as recuperações muçulmanas, surgem outros focos secessionistas dentro destes dois primeiros reinos cristãos na Península. Na região de Burgos, por exemplo, devido às aspirações independentistas de um nobre terratenente, Fernán González, o condado de Castela, a partir da primeira metade do século X (c. 932), ganha uma autonomia cada vez maior e caminha a passos largos para a independência, que só se concretizará em meados da centúria posterior. A primeira metade deste século será decisiva para o xadrez cristão peninsular. Em Navarra, por um lado, dá-se a secessão de Aragão, em 1035, ao passo que o condado da Catalunha (ou de Barcelona) é cada vez mais forte e autónomo. A oeste, cerca de 1034, Navarra ganha posições no reino de Leão, impondo uma dinastia própria neste país e a sua hegemonia no condado de Castela. Sancho III de Navarra (reina entre 1000 e 1035) alarga as suas conquistas para as regiões bascas de Guipúzcoa, Biscaia e da Rioja Alavesa. Navarra era então a ponte entre a Europa cristã e a Península e o garante da segurança no caminho francês de Santiago. Porém, o esplendor de Navarra não sobreviveria à morte de Sancho, nomeadamente em termos territoriais, a oeste e a sul. No testamento deste monarca, nitidamente de tradição sálica - o que atesta a grande influência franca no seu reino - são contemplados os seus três filhos com a divisão dos territórios sob administração navarra. O seu filho mais velho, Garcia, fica com o território de Navarra (1035-1054), Fernando torna-se no primeiro rei de Castela (1035-1065) e Ramiro recebe Aragão (1035-1069). O grande projeto de expansão de Navarra morria com esta divisão testamentária, à imagem do império carolíngio, também espartilhado pelos três filhos de Carlos Magno à morte deste. Renasceria Navarra independente em 1134, quando Afonso I de Aragão morre e os navarros elegem Garcia V Ramirez como seu rei. O seu esplendor e autonomia não serão mais os mesmos, aproximando-se da esfera de influência de Castela para resistir a Aragão ou mesmo aliando-se aos franceses, que lhe darão mesmo três dinastias, numa altura em que era fortemente pressionada pelos seus dois vizinhos ibéricos. No século XV, todavia, acaba por ser dominada por Aragão, sendo submetida a Espanha unificada em 1512.
Entretanto, recuando até ao século XI, Fernando I de Castela, assim que se tornou rei de Castela, logo iniciou uma política de afrontamento face aos senhores leoneses e galegos que lhe recusavam a submissão, levando a melhor sobre eles. A leste, por outro lado, venceu a guerra que travava com seu irmão Garcia, rei de Navarra. Castela, mais tarde, partilhará com Aragão este território, mercê do enfraquecimento que os vários conflitos fratricidas provocaram naquele reino pirenaico. Todavia, também Fernando, na sua morte, dividirá o seu reino pelos filhos, alterando-se uma vez mais o mosaico político peninsular: Sancho herda Castela, Afonso o reino de Leão e Garcia o da Galiza. Foi precisamente com Afonso VI (1035-1109) que a Reconquista ganhou novo fôlego, com os cristãos ibéricos a atingirem o Tejo, recuperando a mítica cidade visigótica de Toledo em 1085. Este soberano conseguia trazer de novo Leão para a ribalta peninsular, centrando o avanço da Reconquista na sua área de ação. Contara, para este desidério "imperial", com a ajuda do Papa Gregório VII, dos monges de Cluny e de vários cavaleiros da Borgonha (compatriotas de sua mulher, Constança) que vieram em seu auxílio. Chega mesmo a impor aos reinos taifas muçulmanos o pagamento de um tributo. Conhecera um retrocesso em Zalaca, porém, em 1086, com a contraofensiva dos Almorávidas. Estes devastaram os territórios de povoamento leoneses e castelhanos. Nesta altura, uma das bandeiras da resistência cristã foi o célebre guerreiro Rodrigo Díaz de Vivar, El Cid Campeador, que se apoderou de Valência em 1094.
Entretanto, Aragão tinha também já começado o seu projeto de conquista de terras a sul aos mouros, ainda que tenha sofrido um abrandamento com as ofensivas almorávidas de 1086. Será, de facto, o reino de Aragão a sacudir a pressão muçulmana na Península e a retomar a Reconquista, com Afonso I (1104-1134), que atinge Saragoça (1118) e marca a fronteira do seu reino no Ebro. Chegará mesmo a efetuar investidas em territórios do Al-Andaluz (1125-1126). Entretanto, enfraquecidos os Almorávidas com o contacto civilizacional que fizeram com a Península, são "substituídos" pelos Almóadas, que conseguem travar os avanços cristãos. Nesta altura, a Reconquista cristã na Península definia-se em três vetores geográficos distintos: a leste, com Aragão (desde 1137 unido ao condado da Catalunha), com uma frente cada vez mais estreita, ao centro, com uma progressão mais alargada, Leão e Castela, e, a oeste, um novo reino em fase de afirmação política e militar, Portugal, independente de Leão desde 1143, e já a meio do século XII, com avanços substanciais até ao Tejo e incursões no Alentejo. Três polos definidos contra um objetivo em recuo de poderio e territorialidade, o Islão ibérico, derrotado em Navas de Tolosa em 1212 por um exército cristão ibérico, apoiado pelo Papa Inocêncio III e por cruzados.
Navarra cingia-se cada vez mais a um território em torno de Pamplona e das Vascongadas, apertado entre Aragão e Castela. Esta última era cada vez mais a maior potência ibérica, unindo-se mesmo a Leão em 1230, o que desenhava um domínio territorial vastíssimo e uma pressão sobre os reinos vizinhos cada vez maior. Portugal, fechado entre o Atlântico a oeste, a Galiza leonesa-castelhana a norte e a leste pelo reino de Leão-Castela, tinha como única hipótese de avanço o Sul árabe, que consegue submeter nos limites atuais aproximados no dealbar da metade do século XIII, com a conquista plena do Algarve.
Aragão, a leste, voltava-se cada vez mais para o Mediterrâneo, conquistando as Baleares (1229-1235) e Valência (1238), lançando as bases de um "império marítimo", intervindo mais tarde na Itália meridional, onde se apodera, em 1442, do reino de Nápoles. Os séculos XIV e XV na Península Ibérica, serão, pois, marcados por uma dualidade clara entre Aragão e Castela, que desde o século XIII se apoderara já de Córdova (1236) e Sevilha (1248), restringindo o território muçulmano peninsular ao pequeno reino de Granada, reconquistado em 1492 pelos reis católicos da Espanha unificada em torno daqueles dois antigos estados cristãos peninsulares. Portugal voltava-se para uma futura vocação atlântica, virando um pouco as "costas" aos seus vizinhos ibéricos. Longe iam já os tempos de Pelágio e dos Cristãos asturianos, que, à custa de pequenas refregas e surtidas, lançaram o gérmen dos reinos cristãos peninsulares medievais.
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