Reorganização Cristã na Alta Idade Média

A Cristandade, que compreende o papado em Roma, as comunidades de clérigos e cónegos, os bispados e arcebispados, os mosteiros e as ordens religiosas, bem como a vasta multidão de fiéis, sentiu a necessidade premente de se reorganizar e reformar na fase de viragem dos séculos XI-XII. Emergindo de uma longa e encarniçada luta entre o laicado Sacro Império Romano-Germânico e o clero pelo controlo da Igreja, e deixando para trás os temores e instabilidades que marcaram o ano 1000, a Igreja iniciou um processo a que quase podemos chamar de reflorescimento.
Assim procura-se em primeiro lugar a liberdade da Igreja, isto é, uma Igreja que defende apenas os interesses de Deus, e só a Ele deve obediência, encabeçada pelo Papa, com poderes reforçados, uma dignidade incorruptível e máxima autoridade sobre todos os cristãos. Estabelece-se uma hierarquia no clero, bem estruturada e rigorosa, procurando por outro lado um retorno aos valores iniciais da religião cristã, marcados pela paz, o amor, a pureza, a moral e o desapego material.
Foi erradicada a prática da simonia (compra e venda de cargos eclesiásticos), vista como um pecado, e defendido o celibato, tudo no sentido de depurar a Igreja dos vícios e dos males do passado. O Papa deve ser nomeado pela sua comunidade eclesiástica e pelo povo de Deus e não por um imperador ou rei. As nomeações de outros cargos de importância quer eclesiástica quer política vieram levantar conflitos entre os poderes espirituais e os poderes temporais da época (investidura de laicos). Por toda a Europa Ocidental são enviados legados papais, homens de grande poder junto das cortes reais e imperiais, que respondiam apenas perante o Papa. Novas ordens monásticas são criadas dentro deste espírito de renovação da Igreja. A Ordem de Cister, que nasce em 1098 em Cîteaux como uma nova observância da regra beneditina, assume grande importância, bem como poder. A sua interpretação da regra de S. Bento defende que o trabalho manual e a oração individual se devem sobrepor ao estudo e à oração em conjunto, nascendo a expressão "trabalhar é rezar". Os seus dias eram passados entre o trabalho, a meditação e a oração, alimentavam-se apenas de legumes e peixe, e mesmo nas regiões mais frias só podiam acender o lume no dia de Natal. Este severo modo de vida teve uma aceitação muito grande nas comunidades cristãs. Os mosteiros cistercienses espalharam-se um pouco por toda a Europa, e outras reformas monásticas aparecem, influenciadas pelas suas diretrizes.
Depois da primeira etapa, beneditina e centrada em Cluny, para além de outras reformas entre os monges negros de S. Bento, e de uma segunda fase, dita cisterciense, surgem no século XIII novas interpretações da vida cristã com S. Francisco de Assis e os seus franciscanos (a partir de 1209) e de S. Domingos, com os dominicanos (1219), os quais vieram trazer uma nova imagem à Igreja. Estes últimos, designados também Ordem dos Pregadores, ou mesmo "os cães do Senhor" (Domini canis), formam uma elite culta e trazem uma nova forma de adoração intransigente e austera, que, mais tarde, se materializará no Tribunal do Santo Ofício e na Inquisição propriamente dita. A Regra de S. Bento, desde antes do ano 1000 voltada para o ascetismo e para a purificação do espírito pelo esquecimento do corpo, a par da Regra de S. Francisco, do século XIII, que advoga a pobreza e a caridade, dão à Igreja um novo contacto com as populações carentes de purificação e de exemplos a seguir.
As Cruzadas, reunindo milhares de homens armados debaixo do símbolo da Cruz, com o objetivo de libertar os lugares santos das mãos dos infiéis, são também um exemplo de uma nova atitude, por parte de uma Igreja segura nos seus intentos e reforçada nas suas estruturas.
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