São Jorge

Escolhido como patrono da Inglaterra, São Jorge foi um mártir que sofreu em Lydda, também conhecida como Diospolis, na Palestina, provavelmente antes do tempo de Constantino, não havendo conhecimento de uma data exata do seu nascimento ou morte. A mais antiga narrativa acerca de São Jorge data do século V e está cheia de episódios extravagantes e incríveis maravilhas: por três vezes é esquartejado, morto, enterrado bem fundo na terra e consumido pelo fogo e de cada vez é ressuscitado pelo poder divino. Os mesmos relatos incluem mortos que foram ressuscitados para serem batizados, exércitos e ídolos destruídos instantaneamente e leite a jorrar da cabeça do mártir em vez de sangue. Os escritos antigos conhecidos por Atos de São Jorge e preservados até aos nossos dias em muitas línguas diferentes não fornecem indicações credíveis sobre a autêntica história da vida de São Jorge. Apesar dos dados incertos, o facto de existir um culto tão antigo ligado a uma localidade bem definida é bom indício histórico da existência do santo mártir. As narrativas dos primeiros peregrinos, dos séculos VI ao VIII, são unânimes em referir Lydda ou Diospolis como o local onde o mártir foi enterrado e venerado. Existem inscrições muito antigas dedicadas a São Jorge em ruínas de igrejas na Síria, na Mesopotâmia e Egito e a igreja de São Jorge em Tessalónica é considerada por alguns especialistas como tendo sido construída no século IV. Por outro lado, o famoso decreto De Libris recipiendis atribuído ao Papa Gelásio em 495, prova que alguns Atos de São Jorge apócrifos já existiam. Apesar de não ser comemorado no Martirológio Hieronimiano primitivo ou Sírio, não existem dúvidas sobre a existência histórica de São Jorge, embora não possa ser confundido com o mártir referido por Eusébio perseguido em Nicomédia por Diocleciano ou com lendário duplo do bispo Jorge de Capadócia, o opositor ariano de São Atanásio. Por outro lado, a conotação de São Jorge com a lenda do dragão é um episódio de desenvolvimento tardio, dos séculos XII ou XIII, e poderá ser uma alegoria do nome de dragão dado ao tirano Diocleciano, sendo mais provavelmente de origem obscura e provavelmente pagã. Considerado como um dos maiores mártires no Oriente, São Jorge tem também no Ocidente um culto muito antigo. Surge em Ravena, no século VI, e em Paris com Clodoveu, sendo a sua festa celebrada em Roma já em 638. Já conhecido na Grã-Bretanha no século VIII, introduzido pelos anglo-saxões, os seus Atos foram traduzidos para anglo-saxão e já existiam igrejas dedicadas ao mártir antes da conquista normanda, embora os Normandos, no século XI, também tivessem trazido o seu culto para Inglaterra. Mas foram os cruzados os responsáveis pela grande popularidade de São Jorge no Ocidente, havendo relatos de William de Malmesbury de que os mártires cavaleiros São Jorge e São Demétrio foram vistos a ajudar os francos na batalha de Antioquia, em 1098. Ricardo Coração de Leão nomeou São Jorge padroeiro dos Cavaleiros da Cruz e colocou sob a sua proteção muitas Ordens Militares, inspirado pela lendária vitória de São Jorge sobre o terrível dragão de Silene, na Líbia. No século XIV, as "armas de São Jorge" tornaram-se uma espécie de uniforme para os soldados e os marinheiros ingleses e São Jorge ainda hoje é o símbolo da Marinha Britânica. Eduardo III de Inglaterra foi o autor do costume do grito de guerra "São Jorge e Inglaterra", fundando, em 1348, a Ordem de São Jorge ou da Jarreteira. O dia 23 de abril, festa de São Jorge, foi dia santo para os católicos de Inglaterra de 1222 a 1778. Em 1415, o Arcebispo Chichele nomeou o dia de São Jorge como uma das maiores festas, com a mesma importância do dia de Natal.
Em Portugal, o seu culto deve ter sido introduzido pelos Cruzados ingleses no século XII, sendo a sua invocação nas batalhas da época de D. Afonso IV. D. Nuno Álvares Pereira mandou pintar no seu estandarte a figura de São Jorge e D. João I mandou que a sua imagem a cavalo passasse a fazer parte da procissão do Corpo de Deus. Foi um dos padroeiros de Portugal até à reforma litúrgica de 1962. É o patrono dos cavaleiros, da cavalaria, dos soldados e dos peregrinos.
A versão mais conhecida da Lenda de São Jorge e do Dragão faz parte da Legenda Aurea, segundo a qual um monstruoso dragão aterrorizava a cidade líbia de Selena com o seu hálito pestilento que espalhava a peste. Os habitantes da cidade decidiram então entregar-lhe duas ovelhas por dia para lhe saciarem a fome, impedindo-o assim de fazer mais estragos na cidade. Quando as ovelhas acabaram tiveram de escolher uma vítima humana, calhando a sorte à jovem filha do rei, que em vão ofereceu toda a sua riqueza para evitar a escolha. A jovem, vestida de noiva, foi mandada ao dragão e durante o caminho encontrou São Jorge no seu cavalo que sabendo do seu destino a acompanhou e enfrentou o dragão, trespassando-o com a sua lança, depois de fazer o sinal da cruz. Pedindo a liga da princesa, enrolou-a à volta do pescoço do dragão o que permitiu que a princesa o levasse pela mão, dócil como um cordeiro. De volta à cidade, São Jorge converteu e batizou os habitantes e, quando o rei lhe ofereceu metade do seu reino, São Jorge recusou mas pediu-lhe que cuidasse da igreja de Cristo, respeitasse o clero e ajudasse os pobres.
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