sarcófago

O termo sarcófago, em si, alude a uma grande caixa ou ataúde de forma retangular. A generalização do termo levou a que se desse também o nome de sarcófago ao caixão de forma humana (antropomórfico), em madeira pintada (ou em cartonagem), onde se guardava a múmia. Popularmente, também se designa como múmia (corpo embalsamado e enfaixado) o sarcófago, antropomórfico. O sarcófago é assim o termo usado para definir o caixão onde a múmia era colocada. Sarcófago e caixão, ainda que possam suscitar confusões, têm ambos a mesma função, guardar e proteger os corpos dos defuntos. Em termos de forma e decoração, tanto sarcófagos como caixões possuem o mesmo repertório iconográfico e estilístico, pelo que qualquer distinção poderá ser sempre meramente artificial e confusa.
A palavra sarcófago vem do grego, significando "comedor de carne", no sentido de que se tratava de um caixão com a função de proteger a múmia nele colocada. O sarcófago surgiu como forma de superar o enterramento simples do corpo na areia quente do deserto, que o dissecava. Esta prática de enterramento era comum antes do Egito, antes da Época Arcaica (ou Tinita), iniciada cerca de 3000 a. C. A colocação do corpo nos sarcófagos, ulteriormente, revelou-se, ironicamente, prejudicial, pois levava-o à sua deterioração, o que faz supor que por esta razão se terá desenvolvido paralelamente a mumificação, como forma de conservar o corpo, como acontecia no tempo em que a própria areia quente e seca o fazia. A mumificação terá sido a resposta a essa tentativa de voltar a ter os corpos dos defuntos conservados, mas dentro de um sarcófago e já não na areia do deserto.
Religiosamente, o sarcófago servia para ser a "casa do ka" do morto (o ka era a força vital e sexual do indivíduo, para os Egípcios, a qual se podia manter na eternidade), além de preservar o corpo do defunto para a outra vida. Os Egípcios chamavam ao sarcófago de neb-ankh, "senhor da vida". Por isso davam à confeção do sarcófago uma elevada importância, tal como à sua "morada" construída para o albergar, o túmulo onde seria depositado (o sarcófago). Os primeiros sarcófagos, há cerca de 3000 anos, eram simples caixas de madeira ou de tábuas grossas sobre as quais era colocado o corpo. Depois surgiram os sarcófagos em forma de casa, em tijolo, antepassados das mastabas e das pirâmides do Império Antigo. Porém, na IV dinastia (2613-2494 a. C.) ainda se usavam este tipo de sarcófagos. Os corpos eram colocados de lado neles, com as pernas dobradas, evoluindo depois, por volta da IV dinastia, para uma posição estendida, dado que as técnicas de evisceração e mumificação evoluíram e tornava-se mais prática esta forma de colocação do corpo. No final do Império Antigo, por volta de 2181 a. C., aparecem já oferendas de comida dentro dos sarcófagos para “sobrevivência” do corpo em caso de abandono ou destruição do túmulo (onde estava o sarcófago). Até ao Império Médio (c. 2040-c. 1780 a. C.) eram pintados olhos na parte exterior do sarcófago voltada a oriente, para que o corpo visse o nascer do sol, ou então apreciar as oferendas que lhe deram, ou mesmo contemplar o mundo em que viveu.
No Primeiro Período Intermédio (2181-2055 a. C.) a decoração dos sarcófagos tornou-se mais importante, logo mais rica, combinando com o apuro decorativo crescente nas paredes dos túmulos (pintura mural). Os sarcófagos incorporavam os elementos artísticos do túmulo, ou mesmo de textos religiosos egípcios, como os designados das Pirâmides, no Império Médio (2040- 1780 a. C.), que têm também o nome de Textos dos Sarcófagos. Havia cada vez mais uma identificação da vida no Além com o deus Osíris, mais ainda do que com o deus-sol Ré.
Os primeiros sarcófagos antropoides (formas humanas) surgiram na XII dinastia (1985-1795 a. C.), aparentemente como "corpos substitutos" ou de imitação, já que se temia que os originais (o defunto mumificado) se destruíssem. Esta forma de caixão (sarcófago) popularizou-se no Império Novo (1550-1069 a. C.), com a forma sarcofagal a identificar-se com Osíris, com a sua barba e braços cruzados a serem muitas vezes acrescentados à forma do sarcófago. Nas XVII (1650-1550 a. C.) e XVIII (1550-1295 a. C.) dinastias começou-se a "emplumar" os sarcófagos, isto é, a pintar-se penas e plumas às asas da deusa Ísis, abraçando o seu divino e amado esposo Osíris, embora alguns egiptólogos atualmente considerem que se tratava da forma de ave assumida por Ré. Os sarcófagos retangulares foram definitivamente substituídos pelos antropoides na XVIII dinastia, embora certos elementos decorativos antigos se tenham mantido.
No Terceiro Período Intermédio (1069-747 a. C.), o que era dantes pintado e historiado nas paredes dos túmulos onde eram colocados os sarcófagos, era cada vez mais realizado nestes. Como sucedia nos papiros ou nas estelas, também, com cenas fúnebres e textos alusivos à eternidade. Um dos temas principais era o do conceito de renascimento além-túmulo, protagonizado por Osíris e a mitologia solar egípcia, a par do julgamento do morto ("pesagem da alma") diante daquele deus, ou então a viagem e jornada até ao submundo, na barca solar, não esquecendo as Ladainhas (ou Litanias) de Ré. Entre outras novas cenas pintadas nos sarcófagos, como também nos papiros, figuram a separação do deus-terra Geb da deusa-céu Nut. Os sarcófagos perduraram em termos de uso mesmo nas épocas mais conturbadas do Antigo Egito e já quando os seus governantes eram estrangeiros, como nas XXI (1069-945 a. C., dita Tanita) e XXII (945-715 a. C., dita Bubashtita ou Líbia) dinastias, no Terceiro Período Intermediário, eram alvo, muitas vezes, de reutilização.
Os sarcófagos não eram apenas reais ou nobres, mas também de sacerdotes, como os inúmeros exemplos dos do clero de Amon encontrados nas XXI e XXII dinastias. Os que pudessem pagar um sarcófago, tinham-no, senão ficariam por um simples caixão ou caixa de madeira. Nos finais do Império Novo (1560-1070 a. C.) é de referir o facto do interior dos sarcófagos ter começado a ser decorado, principalmente a partir da XXII dinastia, quando debaixo da tampa, por exemplo, apareciam muitas vezes representações de Nut, a deusa do céu, enquanto que no chão se representava Hathor, a deusa em forma de vaca, a "deusa do oeste", ou o Pilar Djed, recordando Osíris. Depois começaram a surgir também excertos do Livro dos Mortos inscritos nos sarcófagos.
A partir da XXV dinastia (747-656 a. C.), de origem núbia, dita Kushita, a variedade de caixões aumentou, divulgando-se o uso de sarcófagos que contêm vários de diferentes tamanhos, uns dentro dos outros, como já se fazia no Império Novo, como é o célebre caso do sarcófago intacto de Tutankhamon (1336-1327 a. C.), faraó da XVIII dinastia (1550-1295 a. C.), no Império Novo, com o terceiro e mais pequeno caixão todo feito em ouro, atualmente conservado no Museu Egípcio do Cairo, Egito. Na Época Baixa (664-332 a. C.) voltou-se ao arcaísmo decorativo e formal dos sarcófagos, com o olho pintado, novamente, e imitando as primeiras formas destes caixões. Da Época Ptolemaica, ou Grega (a partir de 332 a. C., misturando-se com a romanização), chegaram até nós inúmeros sarcófagos, mas desproporcionalmente anatómicos, com largas cabeleiras e cabeças. Depois colocar-se-iam, também naquela época, máscaras de gesso do defunto, ou retratos pintados em tabuinhas (Época Romana, a partir de 30 a. C.), fixados à múmia através de tiras de linho. Depois foi-se perdendo a tradição dos sarcófagos à maneira egípcia, com novas práticas de enterramento (inumação) pelos Cristãos e, mais tarde, pelos Muçulmanos, embora já entre os Romanos tenha diminuído esta tradição sarcofagal.
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