Tshokwe

Povo do Nordeste de Angola (províncias de Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico), do Noroeste da Zâmbia e do Sudoeste da República Democrática do Congo (Katanga, Kasaï, alto Kwango), estimado em 1 000 000 de indivíduos. O nome Tshokwe apresenta algumas variantes (Tchokwe, Chokwe, Batshioko) e, entre os portugueses, ficaram conhecidos por Quiocos.
De origem Banto, a etnia Tshokwe, matrilinear, patrilocal e falante do idioma utshokwe, estava sob a autoridade política, legal e religiosa de um chefe tribal, o mwanangana, que reinava com o apoio dos seus antepassados aos quais prestava culto.
Os Tshokwe viviam na Serra de Muzamba, a norte de Angola, quando foram invadidos, no final do século XV, pelos Lunda. A partir de 1830, conseguiram libertar-se do poderio dos invasores e empreenderam uma enorme expansão com o apoio de armas e de tráfico, essencialmente, de marfim, escravos e cera. A expansão dos Tshokwe atingiu o seu auge social e cultural durante os séculos XVIII e XIX, chegando a apoderar-se da capital dos Lunda, em 1887. Posteriormente, enfraquecidos pelas doenças e submetidos ao domínio dos portugueses e dos belgas, os Tshokwe procuraram salvaguardar a sua autonomia, migrando para leste e tornando-se semi-nómadas. Dos principais cultos e cerimónias culturais destacam-se mahamba, ukule e mucanda.
Quanto à mahamba (plural de hamba), esta trata do culto aos espíritos tutelares (espíritos ancestrais ou da natureza) que estão representados por estatuetas, árvores, pedaços de termiteiras e máscaras. Para garantir a proteção diária ou apaziguar um espírito, são realizadas ofertas, sacrifícios e orações. Se algum hamba estiver zangado, pode provocar doenças ou prejuízos no transgressor, como infertilidade nas mulheres e azar na caça feita pelos homens.
Relativamente à ukule, que consiste num ritual de iniciação feminina, realiza-se aquando da primeira menstruação (ukule) da adolescente. Esta cerimónia é constituída por várias etapas durante as quais a jovem (kafundeji) aprende uma dança do ventre (apreciada pelos Tshokwe e que antecipa as relações sexuais), recebe instruções sobre o acasalamento, é pintada com tatuagens púbicas (mikonda) para fins eróticos e, juntamente, com o seu futuro noivo, procede a diversos rituais que culminam na consumação do casamento dos dois jovens.
No que respeita à mucanda, que se efetua durante a puberdade, trata-se dum ritual de iniciação masculina durante o qual as crianças são circuncidadas. Mucanda designa o campo cercado com palhotas redondas, no qual os iniciados, tundandji (plural de kandandji), vivem afastados das suas famílias por um período de um a dois anos. A iniciativa de um ritual mucanda é tomada pelo chefe da aldeia. A máscara kalelwa marca o início e o fim do ritual e proíbe severamente a aproximação de mulheres à mucanda. Durante o retiro, os iniciados aprendem os procedimentos das cerimónias de culto, fazem máscaras para os rituais e exercitam diferentes tipos de dança, que serão executadas diante da comunidade a fim de mostrarem o seu talento como dançarinos.
Relativamente às máscaras, há três grandes tipos de máscaras: o primeiro tipo, designado por Cikungu ou mukishi wa mwanangana, corresponde à máscara sacrificial sagrada e representa os antepassados do chefe tribal; o segundo tipo denomina-se mukishi a ku mukanda e equivale às máscaras da mucanda, das quais são exemplo a Cikunza e a Kalelwa que, depois do ritual, são queimadas; finalmente, o terceiro tipo, designado mukishi a kuhangana, corresponde às máscaras de dança - as mais conhecidas e as mais frequentes em museus e coleções privadas - sendo as máscaras Cihongo (para os homens) e Pwo (para as mulheres) os modelos principais. Salienta-se que a palavra mukishi (plural de akishi) indica que um espírito ancestral ou da natureza encarna na máscara. O mascarado não é identificável, pois está encoberto com a máscara e com um fato feito de fitas entrelaçadas que lhe cobre as mãos e os pés. Segundo a tradição dos Tshokwe, aquele que põe a máscara perde as suas qualidades humanas e incorpora o espírito.
Este povo desenvolveu também uma arte de corte refinada e poderosa, sobretudo, através da escultura de estátuas, cetros, tronos, instrumentos de música, entre outros. De destacar a famosa estatueta do Pensador ou Velho (Kalamba Kulu), que se tornou um símbolo de Angola.
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