A Condição Reflexa. Poemas (1952-1982)
Dois terços das obras reunidas em A Condição Reflexa foram escritas e publicadas entre os anos 50 e o início da década de 60, coligindo uma poesia que, nascendo de preocupações humanas e sociais e apostando numa linguagem despida de todo o ornamento supérfluo, parece aproximar-se da intenção de uma segunda geração neorrealista, revelada no âmbito das tendências diversas da Geração de 50.
A deambulação urbana motiva composições de estrutura quase diegética, protagonizadas por personagens anónimas do quotidiano, surpreendidas visualmente na sua abjeção, na sua morte inútil, na sua vida falhada. "Cesário no Porto", segundo definição de Maria da Glória Padrão, o poeta "encena as disforias e os absurdos" (PADRÃO, Maria da Glória, prefácio a A Condição Reflexa, Lisboa, INCM, 1989, p. 10), não em versos rigorosamente metrificados, como os do autor de O Sentimento de Um Ocidental, mas "em versos heterométricos movediços de fumo e de irónico fracasso, às horas mais diversas das faces do pessimismo" (id. ib.).
Essa digressão geográfica e noturna por um mundo povoado por seres perdidos, alienados, mortos, é fixada num estilo deliberadamente despido de metaforismos, onde, para Fernando J. B. Martinho, "a procura de uma linguagem chã que seja a mais adequada para representar um quotidiano chão é, todavia, compensada pelo recurso abundante a outras figuras (especialmente a anáfora, o assíndeto, a enumeração), que, como dispositivos atinentes à função poética, vão contrariar o relevo excessivo da função referencial em textos que se pretendem eminentemente realistas" (MARTINHO, Fernando J. B. - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, Colibri, 1996, p. 378).
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