A Confissão de Lúcio
O poeta Mário de Sá-Carneiro publica pelos seus próprios meios (em edição de autor), em 1914, a novela A Confissão de Lúcio.
Vista por José Régio como a obra-prima daquele autor, ela constitui uma narrativa capaz de prender os leitores pelos efeitos de surpresa e suspense presentes e onde vamos encontrando uma série de tendências como o desejo de viajar, o gosto pela civilização cosmopolita, a descoberta e exploração de novos sentidos/sensações, a presença explícita de considerações do autor (de defesa ou de oposição), como uma afirmação face à moral corrente, o narcisismo e fundamentalmente as suas obsessões consubstanciadas na obsessão do suicídio, na do amor pervertido (sexualidade ambígua) e na da anormalidade e mesmo loucura. Como todas as obras do autor, Confissão de Lúcio, reflete um abismo difícil de transpor entre o mundo do que é real e a idealidade.
Na verdade, o autor/narrador e personagem, demonstrando uma apetência compulsiva para se ultrapassar a si próprio como "pessoa social e existencial", pretende atingir um mundo utópico e fantástico. Este mundo, onde o raro, o singular e o maravilhoso são seus constituintes, é vislumbrado através do "delírio sensorial" fruto do consumo do ópio e do álcool que caracterizava muitos dos poetas simbolistas e decadentistas, seus contemporâneos (Baudelaire, Rimbaud, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro e outros).
Desejando o impossível face a uma sociedade com regras organizadas, estes acabam por responder ao apelo do suicídio, do desaparecimento ou da loucura.
Os Leit-motiv (temas) recorrentes na literatura simbolista/decadentista, aparecem ampliados na Confissão de Lúcio, que nos apresenta um protagonista transfigurado por um destino absurdo e sem lógica que se vai deixar prender por um crime que não cometeu e que nem existiu. Na verdade, neste homicídio (ou melhor duplo suicídio), Lúcio dispara o revólver sobre Marta (figuração de Ricardo), mas mata o seu amigo preferido Ricardo de Loureiro, que conheceu numa festa de lésbicas. Este episódio remete-nos para a alteridade que caracteriza Ricardo, na medida em que nos permite perceber, desde já, que dentro de Ricardo existe um "outro eu" que é Marta. Contudo, ao fazer desaparecer Marta (fruto de uma materialização irreal) o cenário vai pressupor um crime pelo qual Lúcio é acusado e condenado. Assim, a morte que se abate sobre Ricardo de Loureiro vai constituir-se também no suicídio de Lúcio (seu alter-ego), enformando, então, a vocação suicida do autor, resultado de uma vida completamente desordenada. É neste momento que o absurdo transborda, na medida em que Ricardo de Loureiro é, simultaneamente, Marta e o narrador Lúcio, cuja confissão desfecha no suicídio lento mas fatal. Dividida em duas partes distintas, a obra remete-nos, no início, para um reino utópico, um reino da alteridade do sujeito (o outro eu) experienciado na cidade de Paris e concretamente na festa mágica da Americana Fulva. A segunda parte centra-se no desenlace da intriga, através do reconhecimento da amizade entre Lúcio e Ricardo de Loureiro. Desenlace que se fará absurdo, trágico e alucinante devido às características ambíguas dessa amizade. Ricardo de Loureiro quer possuir o amigo Lúcio (seu outro eu) e desdobra-se na sua própria mulher Marta que é ele próprio. Estamos, então, perante uma aventura homossexual, uma aventura que aborda os amores, na época vistos como pervertidos, entre Lúcio e Ricardo de Loureiro.
Vista por José Régio como a obra-prima daquele autor, ela constitui uma narrativa capaz de prender os leitores pelos efeitos de surpresa e suspense presentes e onde vamos encontrando uma série de tendências como o desejo de viajar, o gosto pela civilização cosmopolita, a descoberta e exploração de novos sentidos/sensações, a presença explícita de considerações do autor (de defesa ou de oposição), como uma afirmação face à moral corrente, o narcisismo e fundamentalmente as suas obsessões consubstanciadas na obsessão do suicídio, na do amor pervertido (sexualidade ambígua) e na da anormalidade e mesmo loucura. Como todas as obras do autor, Confissão de Lúcio, reflete um abismo difícil de transpor entre o mundo do que é real e a idealidade.
Na verdade, o autor/narrador e personagem, demonstrando uma apetência compulsiva para se ultrapassar a si próprio como "pessoa social e existencial", pretende atingir um mundo utópico e fantástico. Este mundo, onde o raro, o singular e o maravilhoso são seus constituintes, é vislumbrado através do "delírio sensorial" fruto do consumo do ópio e do álcool que caracterizava muitos dos poetas simbolistas e decadentistas, seus contemporâneos (Baudelaire, Rimbaud, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro e outros).
Os Leit-motiv (temas) recorrentes na literatura simbolista/decadentista, aparecem ampliados na Confissão de Lúcio, que nos apresenta um protagonista transfigurado por um destino absurdo e sem lógica que se vai deixar prender por um crime que não cometeu e que nem existiu. Na verdade, neste homicídio (ou melhor duplo suicídio), Lúcio dispara o revólver sobre Marta (figuração de Ricardo), mas mata o seu amigo preferido Ricardo de Loureiro, que conheceu numa festa de lésbicas. Este episódio remete-nos para a alteridade que caracteriza Ricardo, na medida em que nos permite perceber, desde já, que dentro de Ricardo existe um "outro eu" que é Marta. Contudo, ao fazer desaparecer Marta (fruto de uma materialização irreal) o cenário vai pressupor um crime pelo qual Lúcio é acusado e condenado. Assim, a morte que se abate sobre Ricardo de Loureiro vai constituir-se também no suicídio de Lúcio (seu alter-ego), enformando, então, a vocação suicida do autor, resultado de uma vida completamente desordenada. É neste momento que o absurdo transborda, na medida em que Ricardo de Loureiro é, simultaneamente, Marta e o narrador Lúcio, cuja confissão desfecha no suicídio lento mas fatal. Dividida em duas partes distintas, a obra remete-nos, no início, para um reino utópico, um reino da alteridade do sujeito (o outro eu) experienciado na cidade de Paris e concretamente na festa mágica da Americana Fulva. A segunda parte centra-se no desenlace da intriga, através do reconhecimento da amizade entre Lúcio e Ricardo de Loureiro. Desenlace que se fará absurdo, trágico e alucinante devido às características ambíguas dessa amizade. Ricardo de Loureiro quer possuir o amigo Lúcio (seu outro eu) e desdobra-se na sua própria mulher Marta que é ele próprio. Estamos, então, perante uma aventura homossexual, uma aventura que aborda os amores, na época vistos como pervertidos, entre Lúcio e Ricardo de Loureiro.
Partilhar
Como referenciar
A Confissão de Lúcio na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$a-confissao-de-lucio [visualizado em 2026-07-21 02:37:51].
Outros artigos
-
RicardoFutebolista português, Ricardo Alexandre Martins Soares Pereira nasceu no Montijo a 11 de fevereiro ...
-
ParisAspetos Geográficos Cidade do Norte de França e capital do país, está situada a 370 km da foz do rio...
-
Eugénio de CastroPoeta e autor dramático, nasceu a 4 de março de 1869, em Coimbra, e morreu a 17 de agosto de 1944, n...
-
Mário de Sá-CarneiroPoeta e ficcionista, Mário de Sá-Carneiro foi, tal como Fernando Pessoa e Almada-Negreiros, um dos p...
-
Amor Crioulo: Vida ArgentinaÚltimo romance de Abel Botelho, deixado incompleto por morte do autor e publicado postumamente por J
-
Amor DivinoRomance publicado pela primeira vez em 1877, pertencente à série Comédia do Campo, subintitulado Est
-
O Crime do Padre AmaroRomance que oferece uma interessante história textual: a primeira versão surge nas páginas da Revist
-
O Amor em VisitaA publicação de O Amor em Visita, de Herberto Helder, em 1958, representa, para Fernando J. B. Marti
-
Os Cavaleiros do AmorObra póstuma, subintitulada Plano de um Livro a Fazer. Dispersos e Inéditos, cuja edição foi organiz
-
Só Para o Meu Amor é Sempre maioEsta obra colige a correspondência trocada entre António José Saraiva e a sua futura esposa durante
Partilhar
Como referenciar 
A Confissão de Lúcio na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$a-confissao-de-lucio [visualizado em 2026-07-21 02:37:51].