A Epopeia da Planície. Poemas da Terra e do Sangue
O principal volume de poesia de António Sardinha, publicado em 1915, contrapõe ao saudosismo dos primeiros volumes um apego ao concreto que decorre da exaltação da terra natal e da inspiração familiar e que se consubstancia numa profusão de notações realistas ancoradas em pormenores do quotidiano doméstico e rural.
É dedicado ao seu único filho, cuja chegada é louvada como sinal da continuidade da raça abençoada e dedicado às terras de "Antre Tejo e Guadiana, /onde há contrabandistas e malteses", / "[...] Terra das claras vilas com cegonhas", "berço amigo", "Terra de Crisfal e Bernardim". Em A Epopeia da Planície ecoam caracteres saudosistas como certo sentido épico da composição, consubstanciado em pequenas estruturas narrativas; a consciência de ter recebido do "sangue antigo" a "virtude lírica da Raça"; ou um visionarismo histórico que permite ouvir "o louvor do sangue antigo" ("A Elvas, Chave do Reino"), ou fantasgoricamente assistir, em "Cântico do Sangue", a uma "Visitação da Raça" ("e num cortejo lento, lento, passa, / se tu, visão humana, não me iludes, / o desfilar brumoso da Ascendência. / Figuras graves, graves atitudes, / deslizam com cadência. / Deslizam majestosas. Rompe à frente / o lavrador anónimo que outrora / nos deu um teto e nos ganhou raiz. / Seguem-no nobremente, / de toga e espadim, p'los tempos fora / esses que a minha Árvore bendiz.").
À sugestão de vago misticismo ou ao descritivismo panteísta típico das composições saudosistas, este volume de António Sardinha contrapõe, porém, uma "comoção rural" que dota de uma dimensão ritual cada ínfimo ato do quotidiano. Títulos como "Ladainha à Água dos Cântaros" ou "Redondilhas da Roupa Lavada" são significativos quer desta atenção ao concreto quer do louvor de um Portugal rural onde é possível entrever ainda um "Portugal antigo".
A poesia de António Sardinha integra, ao mesmo tempo, uma tradição oral onde se fundem temáticas cristãs com crenças rurais, e que toma frequentemente a forma de invocação de uma religião doméstica que tem, por insígnias, elementos como a cal, a roca, o ramo de oliveira, a lareira, o pucarinho de barro, e que se realiza, do ponto de vista estilístico, sob a forma de correspondências simbólicas de fundamento religioso, a partir das quais, por exemplo, uma luz é sempre a outra Luz, a da redenção, cada noite é a noite das origens, cada momento reatualiza liturgicamente um tempo divino: "E os carros voltam. Voltam com o trigo. / Não sei que génio antigo / me acode ao avistá-los em cortejo! / Minh' alma sobe ao longo das idades. / Que estranhas divindades / são essas que me falam, quando os vejo?" ("Geórgica da Colheita").
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