Canções
Reúne letras dos discos Os Sobreviventes (1971), Pré-Histórias (1972), À Queima-Roupa (1974), De Pequenino se Torce o Destino (1976) e Textos Dispersos.
A condição específica da produção destes textos poéticos, escritos para serem musicados e cantados, explica características estilísticas obrigatórias no texto da canção como a regularidade métrica e rítmica, as repetições, as estruturas paralelísticas (seja sob a forma de paralelismo anafórico ou semântico), a presença de um refrão, a utilização de estruturas estróficas simétricas, entre outros elementos que resultam da indissociabilidade texto/música.
Comparado com Bob Dylan, Brassens ou Caetano Veloso, Sérgio Godinho afirmou-se no panorama musical português do fim dos anos 60 e início dos anos 70 pela mordacidade, numa visão crítica da sociedade e dos seus fantasmas político-burgueses; pela sobriedade da interpretação em palco e pela introdução, na canção, de personagens e de fórmulas da linguagem coloquial (desconstrução de provérbios, de frases feitas).
Nascidas da convicção de que "toda a canção é política" (entrevista a O Século Ilustrado, 16-04-76), as canções de Sérgio Godinho, com humor e sem pretensões idealistas, com um léxico simples e imagens de comunicação direta, apelam à igualdade, à liberdade, à justiça social, acusam a exploração capitalista ("Ó meu caro vamos lá pôr os pontos nos ii / de quem são os campos deste país / de você que diz que são seus porque os herdou / ou da gente que neles sempre trabalhou", «Os Pontos nos ii»), ridicularizam o fundo passivo e fatalista do português ("Vivo com uma faca enterrada nas costas ai / [...] sentado à espera de D. Sebastião", «Que Bom Que É»), alguns heróis confrontando o destinatário com a afirmação intransigente da dignidade humana ("Casa comigo Marta / tenho rédeas para mandar / tenho gente que trata / de me fazer respeitar / tenho meios de sobra para te nomear / rainha dos pacóvios de aquém e de além-mar / [...]
Casar contigo não maganão / só me levas contigo dentro dum caixão", «Casa Comigo Marta»). A luta pelas palavras encontra, no entanto, um momento de tréguas em algumas conhecidas canções de amor, que, através de estruturas narrativas («Romance de um Dia de Estrada») ou do diálogo, revelam uma faceta mais lírica e metafórica do autor, como, por exemplo, a canção «A Noite Passada».
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