Companheiros
Modelo de romance polifónico, de Ester de Lemos, publicado em 1959, cada capítulo de Companheiros é escrito a partir do ponto de vista interno e da corrente de consciência de cada uma das personagens principais.
Três homens incapazes de cumprirem o seu destino: um médico, Zé Pedro, que não estuda Medicina, leitor de Sartre, embrenhado na luta clandestina mas pouco convicto quanto à possibilidade de mudança das coisas; um escultor que não faz escultura, Marcelo; e um padre, Gabriel, em revolta consigo mesmo, por se ter transformado, devido a dificuldades financeiras, num burocrata; multiplicam os pontos de vista sobre Flávia, uma órfã autossuficiente, olhada com estranheza pela sociedade, por tentar conservar a sua independência como mulher e como intelectual.
Todos irremediavelmente sós, todos minados por um sentimento de impotência, todos na encruzilhada da vida e todos confrontados com situações-limite de necessidade de efetuar uma escolha existencial, a dispersão dos pontos de vista fecha cada personagem na sua consciência, relativizando as noções de bem e de mal e agudizando a difícil conciliação entre consciência moral e consciência social.
Cada um "fechado em si, sem saber o caminho que dá para os outros..." (p. 304), presos num ambiente burguês, que os condena a arrastar o "absurdo da vida"; todos dependendo de uma maneira ou de outra de Flávia; cada uma das três personagens que rodeiam Flávia cumpre uma forma de sacerdócio social (a cura das almas, a cura dos corpos e a arte), que as eleva a figuras simbólicas de uma larga reflexão ética sobre a condição do intelectual cristão sob a ditadura. No capítulo LXXIX, quando as três perspetivas se encontram, desvenda-se a metáfora-Flávia: "uma espécie de consciência aguda" que toca todos, incapaz de sobreviver num ambiente burguês, inocente, pura, Flávia "É a vida [...] é a vida toda...".
O romance encerra com uma mensagem otimista de esperança no poder de mudança social que atingiria uma comunidade cristã consciente, recordando, então, a etimologia da palavra "companheiro", que dá título ao romance: "cumpanarius, os que comem do mesmo pão...: de sangue e corpo de Cristo", "para além do amor e do ódio [...] era preciso que todos os homens se sentassem em paz à volta da mesa, se tornassem na verdade companheiros".
-
mudança socialA mudança social dá-se quando se alteram as estruturas básicas que compõem um grupo social ou uma so...
-
Algo Parecido Com isto, da Mesma Substância. Poesia reunida 1974-1992Coletânea de 1992 que reúne todos os volumes de poesia publicados em livro, desde 1974, ou inéditos,
-
Tudo o Que Não Escrevi. Diário I (1991-1992)Primeiro tomo de memórias da autoria de Eduardo Prado Coelho, que colige apontamentos redigidos entr
-
Estudos Críticos. Apreciações Literárias (3 vols.)Três volumes de ensaios de crítica literária, correspondentes aos volumes 32 a 34 da edição das Obra
-
O Fogo Repartido. Poesia (1960-1980)Reúne, com variações, os volumes de poesia publicados pelo autor: Circulação (1960),A Hipérbole na C
-
30 Anos de Poesia30 Anos de Poesia, de 1995, reúne a quase totalidade da obra poética de Manuel Alegre, produzida ent
-
Poesia (1958-1978)A primeira parte desta antologia poética, da autoria de Ana Haterly, inclui excertos de Um Ritmo Per
-
Café 25 de abrilTrata-se da terceira parte da trilogia Folhetim do Mundo Vivido em Vila Velha, publicada em 1987, ao
-
Corpo Sitiado (1955-1963)Obra publicada em 1976 que reúne as composições que o autor, Casimiro de Brito, selecionou ou depuro
-
Transe. Antologia 1960-1990Herdeira do modernismo, a poesia de Gastão Cruz acentua, ao longo da antologia, alguns dos traços es