Diário (Miguel Torga)
Miguel Torga é a voz de uma terra - Trás-os-Montes -, frequentemente, isolada e inóspita, mas de uma grandeza ímpar. É também a voz de um povo rude e melancólico, mas de carácter firme e nobre. A sua obra é um todo literário e humano, desde os livros autobiográficos como A criação do Mundo ou os Diários até aos seus poemas. Preocupado com a autenticidade criadora, na linha do pensamento inicial do grupo da revista Presença, recusou pertencer a escolas ou movimentos. Sem deixar de parte um certo comprometimento social, Torga projeta na escrita as suas preocupações com o ser humano, as suas limitações e a sua necessidade de transcendência. Há um sofrimento magoado, feito desassossego, que tanto permite a esperança como conduz ao desespero.
A partir de 1941, foram sendo publicados sucessivos volumes do Diário que contêm as suas reflexões sobre os mais diversos acontecimentos do quotidiano e que demonstram, inequivocamente, uma reflexão madura e uma análise singular.
Para Torga, o Homem deve ser capaz de realizar-se no mundo. Deve unir-se à terra, ser-lhe fiel, para que a vida tenha sentido e o próprio sagrado se exprima. A terra é o lugar concreto e natural do Homem. Na sua terra natal, encontrou a ternura e o sofrimento, o povo concreto com as suas alegrias e as suas tristezas, a sua tranquilidade e o seu esforço.
O telurismo de Torga exprime-se constantemente no seu apego à terra, na sua fidelidade ao povo, na sua consciência de português, de ibérico, no espírito de comunhão europeia e universal. Mas o Poeta não se contenta com cantar a terra com os seus frutos, o mar, o sol ou o vento. Há sempre uma insatisfação mesmo quando afirma que é necessário "nascer e ficar aqui / Onde os pés sentem firmeza". Busca na terra a sua verdade universal, mas sente a condição humana com todos os seus limites.
O mito de Anteu surge em Torga a exprimir o telurismo. O Poeta sente-se revigorado sempre que toca o solo e, por isso, canta ou invoca a aliança com a terra.
No Diário XII, a propósito de uma deslocação a Bruxelas para receber o Prémio Internacional de Poesia (atribuído na XII Bienal de Knocke Heist, em 1976), Miguel Torga analisa o caminho percorrido, recorda as dificuldades passadas e destaca a importância que elas tiveram, quer na opção de vida que tomou, quer na escolha do seu rumo na vida literária. Observe-se ainda a paráfrase de Camões ("Numa mão sempre a espada e noutra a pena" – Os Lusíadas, Canto VII, 79), na parte final desta página do Diário XII: 4 de junho de 1977 - "O rapazinho de outrora ia comer o pão que o diabo amassou; o velho de agora vinha receber um prémio internacional. O prémio de ser fiel às origens, e de ter sempre, como os antepassados, mourejado na mesma humildade e tenacidade, de enxada na mão ou de caneta na mão." (Diário XII, 3.ª edição revista, Coimbra, Ed. do Autor, 1986, pp. 191 192.)
A partir de 1941, foram sendo publicados sucessivos volumes do Diário que contêm as suas reflexões sobre os mais diversos acontecimentos do quotidiano e que demonstram, inequivocamente, uma reflexão madura e uma análise singular.
Para Torga, o Homem deve ser capaz de realizar-se no mundo. Deve unir-se à terra, ser-lhe fiel, para que a vida tenha sentido e o próprio sagrado se exprima. A terra é o lugar concreto e natural do Homem. Na sua terra natal, encontrou a ternura e o sofrimento, o povo concreto com as suas alegrias e as suas tristezas, a sua tranquilidade e o seu esforço.
O telurismo de Torga exprime-se constantemente no seu apego à terra, na sua fidelidade ao povo, na sua consciência de português, de ibérico, no espírito de comunhão europeia e universal. Mas o Poeta não se contenta com cantar a terra com os seus frutos, o mar, o sol ou o vento. Há sempre uma insatisfação mesmo quando afirma que é necessário "nascer e ficar aqui / Onde os pés sentem firmeza". Busca na terra a sua verdade universal, mas sente a condição humana com todos os seus limites.
O mito de Anteu surge em Torga a exprimir o telurismo. O Poeta sente-se revigorado sempre que toca o solo e, por isso, canta ou invoca a aliança com a terra.
No Diário XII, a propósito de uma deslocação a Bruxelas para receber o Prémio Internacional de Poesia (atribuído na XII Bienal de Knocke Heist, em 1976), Miguel Torga analisa o caminho percorrido, recorda as dificuldades passadas e destaca a importância que elas tiveram, quer na opção de vida que tomou, quer na escolha do seu rumo na vida literária. Observe-se ainda a paráfrase de Camões ("Numa mão sempre a espada e noutra a pena" – Os Lusíadas, Canto VII, 79), na parte final desta página do Diário XII: 4 de junho de 1977 - "O rapazinho de outrora ia comer o pão que o diabo amassou; o velho de agora vinha receber um prémio internacional. O prémio de ser fiel às origens, e de ter sempre, como os antepassados, mourejado na mesma humildade e tenacidade, de enxada na mão ou de caneta na mão." (Diário XII, 3.ª edição revista, Coimbra, Ed. do Autor, 1986, pp. 191 192.)
Partilhar
Como referenciar
Diário (Miguel Torga) na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$diario-(miguel-torga) [visualizado em 2026-08-06 11:32:51].
Outros artigos
-
Indianas e Portuguesas (1870-1875)Volume de poesias dedicado a Tomás Ribeiro, amigo pessoal do autor. No prefácio, Cristóvão Aires afi
-
Novos Combates e Críticas (1875-1884)Nova recolha de textos disseminados pela imprensa, classificados pelo autor, Silva Pinto, como "prot
-
Raios de Extinta Luz - Poesias Inéditas (1859-1863)Volume póstumo que reúne poesias ainda inéditas de Antero de Quental, coligidas e prefaciadas por Te
-
Livro de Crítica - Arte e Literatura de Hoje (1868-1869)Livro que reúne vários ensaios de crítica literária, incluindo a conferência "A arte realista", prof
-
Crónica Geral de Espanha de 1344Redigida em 1344 por D. Pedro, conde de Barcelos, autor do Livro de Linhagens, e refundida em cerca
-
Estreias Poético-Musicais para o ano de 1853Coleção de hinos instrutivos sobre o trabalho, a lavoura, a instrução, musicados por F. N. Santos Pi
-
Combates e Críticas (1875-1881)Importante coletânea de artigos de Silva Pinto dispersos pela imprensa, publicada em 1882 e prefacia
-
Terceiro Livro de Combates e Críticas (1874-1886)Terceira recolha de textos dispersos pela imprensa, que retoma muitos artigos incluídos em livros an
-
As Moradas 1 & 2Numa poesia definida como "negação determinada de certas evidências ou razões aparentemente plausíve
-
A Proposição 2.01. - Poesia ExperimentalVerdadeiro manifesto da poesia experimental, de E. M. de Melo e Castro, publicado em 1965, enunciand
Partilhar
Como referenciar 
Diário (Miguel Torga) na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$diario-(miguel-torga) [visualizado em 2026-08-06 11:32:51].