Diário de Édipo
O autor do Diário, seu primeiro leitor, quando fecha a última página do livro fica perplexo: "Terminara a leitura de quê? Não era romance, não era poema, nem drama, nem ensaio. Bem ou mal (e assim para si mesmo dizia ignorando que Montaigne já escrevera algo de muito parecido...), o autor encontrara as palavras para exprimir as provisões do seu próprio espírito... Ao cabo, cogitou, é vida cristalizada. Ou não? Não lhe acudiam as palavras justas. Ficção, simples realidade transfigurada pelo pensamento? Lirismo, drama, epopeia? Poesia, romance? É necessário contar com tudo isso, tentar a integração do universo numa forma autónoma que englobe arte e filosofia: um novo modo de ensaiar o ensaio..." (p. 14). Com efeito, Diário de Édipo inaugura em Portugal um novo tipo de literatura, a "literatura de ideias", definida por Augusto da Costa Dias como "simbiose de ensaio e de ficção, na qual o imediatamente humano confessável e pessoal se integra, formando corpo único, na indagação filosófica, na crítica des-substancializante dos problemas mais angustiosos do homem contemporâneo" (cf. DIAS, Augusto da Costa, prefácio a Diário de Édipo, Lisboa, s. n., 1965), exigindo, por consequência, um novo estilo romanesco, mais flexível, capaz de "cingir no mesmo ritmo a imagem e a abstração, o fogo lírico e a severidade do pensamento" (id. ib.). Escrita que continua leituras, num diálogo permanente com outros autores, Diário de Édipo formula, ao mesmo tempo, a defesa de um ideal de ação, uma postura ideológica de inspiração existencialista definida como "humanismo integral": "o sacrifício pelo homem é um ato singular resultante de longa e penosa aspiração coletiva. Enquanto singular exige do sujeito firme responsabilidade, logo, porém, compartilhada pela comunidade dos homens livres. Momento solene e momento difícil. Tão forte apelo vai ao encontro do mais forte do homem: a sua responsabilidade moral. A opção vem acompanhada de renúncia: renúncia à descuidada alegria. Vê-se então o homem perante a perplexidade de uma ação negativa que o impele a repudiar o passado que cessa inconforme com o ideal coletivo. A vida porém está eleita; daí em diante começa a autêntica significação do seu destino. Por mais miserável que a comunidade se apresente há sempre um horizonte à sua frente" (pp. 262-263).
Partilhar
Como referenciar
Diário de Édipo na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$diario-de-edipo [visualizado em 2026-06-04 21:42:02].
Outros artigos
-
LisboaAspetos geográficos Cidade, capital de Portugal, sede de distrito e de concelho. Localiza-se na Regi...
-
PortugalGeografia País do Sudoeste da Europa. Situado na parte ocidental da Península Ibérica, abrange uma s...
-
Líricas PortuguesasAntologia da poesia lírica portuguesa contemporânea organizada por Jorge de Sena e publicada em 1958
-
Lusitânia TransformadaA Lusitânia Transformada apresenta como cenário principal a Natureza, elemento tradicional da novela
-
Monteiro LobatoEscritor brasileiro, José Bento Monteiro Lobato nasceu a 18 de abril de 1882 na cidade de Taubaté, S
-
Lya LuftEscritora brasileira, descendente de Alemães, nascida a 15 de setembro de 1938, em Santa Cruz do Sul
-
Serra-MãeO primeiro livro publicado por Sebastião da Gama, Serra-Mãe, reúne uma série de composições que tend
-
Obra LíricaNa obra lírica de Camões confluem três correntes líricas: a da poesia peninsular, constituída por vi
-
Poemas LusitanosA obra lírica de António Ferreira - sonetos, cartas, odes, elegias, éclogas, epitáfios, epigramas, u
-
Lourenço SeruyaEscritor português, nascido a 9 de novembro de 1992, em Lisboa, Seruya enveredou pela área do Teatro
Partilhar
Como referenciar 
Diário de Édipo na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$diario-de-edipo [visualizado em 2026-06-04 21:42:02].