Exercícios de Estilo
O título impõe a auto-referencialidade de uma obra que compreende a escrita como um laboratório, realizando exercícios práticos, experimentais, sobre o material linguístico. Esta auto-referencialidade revela-se a dois níveis: por um lado, a capacidade de multiplicar tipos de registos (lírico, confessional, sarcástico, panfletário), e por outro, um nível de metalinguagem onde desconstrói (em apartes, comentários) a linguagem literária, refletindo ironicamente sobre os seus estereótipos e tendências ("Numa grande doidice de beijos e carícias leves beijei seus pés de espuma macia... em lírica, diria: pés de sereia; em realística, diria: pés de virgem (feia); em novelística, da antiga, diria: pés de deusa brinca-brincando na areia; em novelística, novíssima: patitas catitas de centopeia...", p. 18). Experimentalismo manifestado na liberdade gráfica que coloca frequentemente em causa as fronteiras entre prosa e poesia, que joga com os caracteres na articulação de níveis de discurso (o da escrita e da reflexão sobre a escrita), que assume - para as subverter - intertextualidades (cf. "Um Casto Milagre"); que tenta a linguagem fonética ("Poizos meus também não chegaram a criar bolor", "quantozanos tinha?", etc. in "Conversa de Três"), num discurso fragmentário, assumidamente livre de compromissos com cânones de géneros. É assim que desmonta as categorias narrativas questionando a possibilidade de articulação cronológica da narração, mesmo quando enceta um discurso de tipo memorialístico ("Com a minha infância, se me permitem um depoimento formal, passa-se algo de curioso, de ambíguo. Entro e saio nela quase sem dar por isso, às vezes mesmo não reparo ou não sei se estou para trás ou fiquei aqui e agora.", p. 49), ou lembrando a omnipotência do narrador ("É verdade que podia parar em qualquer altura... uma historieta é assim, não é? Começa-se não se sabe quando e acaba sem se dar por isso...", p. 99). Esse laboratório de escrita culmina com o assumir do texto como rascunho, entrecortando-o com anotações sobre o estilo, a estrutura, cortes a efetuar (cf. "O Caso do Pai-Chocadeira") e com uma mise en abîme, pela qual o narrador decide escrever um livro onde encontrasse "uma fórmula nova de cultivar o género 'memórias', que consistiria em "fazer várias experiências de estilo. Seria um livro alegre, barreira contra o sofrimento que me rodeia, isto é: um livro cheio de Vida. Grotesco, lírico, amalgamado, um Caos", p. 259).
A postura de irreverente insubmissão, inflexível recusa de mudar a sua "canção" ("Nem VV. Por mais que me façam tenham a pretensão de me mudar o riso, a minha canção" (p. 251), aquilo a que chama a libertinagem "pachacaliana", mesmo se o preço for a perda da família e das condições mínimas de sobrevivência, a cultivada marginalidade do eu que se exibe, com (auto)ironia, complacência, cinismo, na sua revolta anárquica contra uma sociedade institucionalizada, onde a liberdade da escrita e a liberdade do amor são incompatíveis com a ordem e os valores burgueses, constituem o fio condutor da maior parte do textos reunidos em Exercícios de Estilo, conferindo à narração uma tendência recorrente para efabular sobre o percurso biográfico da personagem eu, uma personagem "polifacetada ou iluminada por focos diversos e em atitudes até contraditórias [...] explicando assim como esta se corrompeu e desagregou" (p. 273), num ciclo de experiências sobre a decadência pessoal e coletiva que seria completado com edições posteriores como Literatura Comestível. Numa reiterada defesa da autonomia do ato literário e da impossibilidade referencial da linguagem ("Escrever é inventar, logo aldrabar", p. 245), alerta, porém, o leitor sobre a mentira como condição fundamental na redação da verdade autobiográfica: "As palavras não somos nós. E tu, leitor, és um pretexto: testemunha, confidente, cúmplice, vítima ou juiz, jamais nos conheceremos, jamais saberás quem sou, onde te minto, onde chorei, onde nos podíamos ambos rir a bom rir da nossa pavorosa condição de gente morta ou gente que vai morrer.", p. 56.
A postura de irreverente insubmissão, inflexível recusa de mudar a sua "canção" ("Nem VV. Por mais que me façam tenham a pretensão de me mudar o riso, a minha canção" (p. 251), aquilo a que chama a libertinagem "pachacaliana", mesmo se o preço for a perda da família e das condições mínimas de sobrevivência, a cultivada marginalidade do eu que se exibe, com (auto)ironia, complacência, cinismo, na sua revolta anárquica contra uma sociedade institucionalizada, onde a liberdade da escrita e a liberdade do amor são incompatíveis com a ordem e os valores burgueses, constituem o fio condutor da maior parte do textos reunidos em Exercícios de Estilo, conferindo à narração uma tendência recorrente para efabular sobre o percurso biográfico da personagem eu, uma personagem "polifacetada ou iluminada por focos diversos e em atitudes até contraditórias [...] explicando assim como esta se corrompeu e desagregou" (p. 273), num ciclo de experiências sobre a decadência pessoal e coletiva que seria completado com edições posteriores como Literatura Comestível. Numa reiterada defesa da autonomia do ato literário e da impossibilidade referencial da linguagem ("Escrever é inventar, logo aldrabar", p. 245), alerta, porém, o leitor sobre a mentira como condição fundamental na redação da verdade autobiográfica: "As palavras não somos nós. E tu, leitor, és um pretexto: testemunha, confidente, cúmplice, vítima ou juiz, jamais nos conheceremos, jamais saberás quem sou, onde te minto, onde chorei, onde nos podíamos ambos rir a bom rir da nossa pavorosa condição de gente morta ou gente que vai morrer.", p. 56.
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Como referenciar
Exercícios de Estilo na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$exercicios-de-estilo [visualizado em 2026-06-20 17:24:35].
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