hagiografia
A hagiografia é um subgénero narrativo composto com vista à promoção da santidade de um herói, o santo, pelo relato das ações miraculosas da sua vita. Redigidas ad gloriam Dei, a função primeira das vidas de santos canonizados ou cujo culto recebeu um reconhecimento oficial é a de apoiar a Igreja no seu trabalho missionário, uma vez que inspiram cada indivíduo a empenhar-se na salvação, sendo as ações dramatizadas uma reatualização paradigmática da vida de Cristo, proposta como imitação à audiência ou aos leitores.
A estrutura paradigmática que define a vita permitia ao hagiógrafo manejar um fundo de ações preestabelecidas e aprovadas que podiam ser empregues nos textos, numa repetição de eventos e quadros, retirados das Escrituras ou de santos anteriores, guardados pela comunidade de crentes. Nesta medida, vita e vitae são termos muitas vezes substituíveis, visto que mais do que a história concreta da vida de um determinado santo, importava principalmente a sua exemplaridade, alimentada de um arquétipo evangélico de que divergia apenas acidentalmente.
O universo excecional e maravilhoso próprio dos discursos hagiográficos, nutrindo-se fundamentalmente de eventos miraculosos, de martírios e taumaturgias, não se confunde, pois, com o registo historiográfico, embora contribua para o aperfeiçoamento dos seus instrumentos linguísticos, comparecendo mesmo como um discurso que resistiu longamente, até bem entrado o século XVI, à influência das duas principais modalidades do fazer história do período moderno, a crónica e a história humanista.
A literatura hagiográfica medieval em língua portuguesa encontra a sua expressão mais acabada nas compilações de vidas de santos, os Flos Sanctorum, publicados a partir do início do século XVI, e sucessivamente reeeditados ao longo da época moderna. Existiram, de forma dispersa, registos hagiográficos em latim, anteriores às duas primeiras coletâneas de vidas de santos, o Flos Sanctorum em lingoagê portugues e o Livro e Legenda que fala de todolos feitos e paixões dos santos martires em lingoagem portugues, mandadas imprimir, em 1513, por D. Manuel, como a Vita Sancti Brandani Abbatis, Vita Sanctae Senorinae Virginis, a Vita Sancti Theotonii ou a Passio Sanctae Barbarae Virginis et martiris. Ainda para o período medieval, em língua portuguesa, destaca-se o Livro que fala da boa vida que fez a Rainha de Portugal, Dona Isabel, de autor anónimo, composto no século XIV.
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