Joana Carda
Personagem fundamental do enredo da obra Jangada de Pedra de José Saramago.
"Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se." A simultaneidade entre os dois acontecimentos, sugerindo uma relação de causa a efeito, confere a Joana Carda o poder de, com o simples gesto de riscar ocasionalmente o chão, quebrar "os sete selos do Livro do Apocalipse [...] desentranhando o poder do discurso em todas as suas potencialidades de transformação" (REBELO, Luís de Sousa - posfácio a A Jangada de Pedra, Lisboa, Caminho, 2.ª ed., 1986, p. 338).
O seu gesto prodigioso, antecedendo a fenda que iria separar a Península Ibérica da Europa, deixando-a à deriva, encontra paralelo, ainda no capítulo inicial do romance, no trajeto extraordinário descrito pela pedra que Joaquim Sassa lança à água, no dom de sismógrafo adquirido pelos pés de Pedro Orce, no bando de estorninhos que persegue José Anaiço, ou no pé-de-meia cujo fio, ao ser desenredado por Maria Guavaira, não para de crescer. Embora mantendo relativamente aos seus pares uma posição de relevo confirmada pelo poder conferido à vara de negrilho, com os quatro companheiros, um cão e dois cavalos, Joana Carda, errando pela Península, tornada uma jangada de pedra, protagoniza, com o grupo, uma aventura fabulosa, fundada também na descoberta do amor, da sexualidade e da complexidade das relações humanas.
No final da narrativa, Joana Carda, grávida, como todas as mulheres da Península, espeta a vara de negrilho na cova de Pedro Orce, fechando, pela sua mão, circular e simbolicamente a narrativa: "Lenho do sacrifício, árvore da vida, bíblica vara de Jessé, símbolo da fertilidade e da renovação, ela é também a vara que traça o risco na areia, ponta do stilus, que inventa a letra e regista a palavra" (id. ibi, p. 348).
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