Jorge Ferreira de Vasconcelos
Conhecem-se muito poucos dados biográficos deste notável comediógrafo português.
Mesmo as datas de nascimento e morte são incertas - nasceu cerca de 1515 e as opiniões quanto à data da morte do autor dividem-se entre os anos de 1563 e 1585.
A sua obra não obedece aos cânones tradicionais da comédia e não se destina a ser representada em palco. O autor, consciente deste facto, assinala-o no anterrosto do livro que diz ser o seu primeiro trabalho literário, a Eufrósina, publicado em 1555. Inspirou-se para a redação do mesmo na célebre Celestina, de Fernando de Rojas.
Como foi já atrás referido, a sua obra, distante dos modelos normalmente adotados para a comédia, pertence a uma nova forma de género narrativo em que o diálogo adquire uma função e importância capitais.
A intriga aproxima-se das novelas do picaresco espanhol e apresenta-nos algumas figuras bem conhecidas como a alcoviteira. Há um esmero na caracterização das personagens, embora estas sejam tipicamente renascentistas, com contornos psicológicos muito esbatidos e, na sua maioria, tipificadas: Eufrósina, a heroína de "olhar quebrado"; Sílvia de Sousa, a confidente modesta que auxilia os amores de seu primo Zelótipo, esquecendo os seus; Cariófilo, o homem prático, que aceita cinicamente a nova realidade; o doutor Carrasco, o legista pedante e finório.
O conflito entre um idealismo amoroso cavaleiresco e um amor de cariz mais realista, um dos dilemas mais largamente explorados na literatura da Europa Ocidental, é um dos temas desta comédia.
Contudo, o tema central gira em torno de uma história de amor que se desenvolve lenta e pormenorizadamente, dando o sentido da duração, o reflexo da ação do tempo que passa e o subtil jogo psicológico que leva ao enamoramento de Eufrósina. O idealismo feudal está também presente nesta obra, representado no amor de corte.
Foca-se a vida do burgo universitário, a febre do ouro e da aventura ultramarina, a clausura e a vida borralheira da mulher na sociedade portuguesa de Quinhentos. Movido por um forte nacionalismo linguístico, Jorge Ferreira de Vasconcelos incorporou na sua obra diversas locuções populares, ditados, idiotismos característicos do seu tempo, à mistura com cuidadosas descrições de peças de vestuário e de hábitos e de usos locais.
A sua erudição clássica torna a leitura difícil, interrompe o fio da ação e contribui para quebrar a unidade da narrativa. O autor escreveu ainda outra novela dramática, também dividida em cinco atos, intitulada Ulissipo. Seguindo o estilo da anterior, esta comédia satiriza agora a hipocrisia e o convencionalismo de uma família burguesa de Lisboa.
As figuras principais são Ulissipo, o pai libertino e tirano, e a alcofeta Macarena, que explora a crendice de Filotecnia, mãe de duas raparigas namoradeiras.
Aulegrafia, outra das suas obras, transporta-nos, por outro lado, para o ambiente de corte, versando o tema do idealismo amoroso, representado nas figuras de Grasidel e Filomela, sob o fito de provar a sua falência total perante a realidade prática. A técnica literária é aqui mais elaborada.
Além destas novelas dramáticas, o autor escreveu ainda um romance de cavalaria, o Memorial da Segunda Távola Redonda, que possui intuitos pedagógicos e moralizantes, próprios da educação de príncipes.
O estilo de Jorge Ferreira de Vasconcelos tende para o barroco e denota uma influência da historiografia latina, visível na apresentação das personagens e na amplitude retórica dos seus discursos.
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