José Afonso. Texto e Canções
Reúne o repertório completo das canções de Zeca Afonso e textos inéditos do poeta.
Do confronto entre as duas partes que compõem o volume - uma em que o texto poético é indissociável da pauta musical e outra escrita não necessariamente para ser musicada - destaca-se a presença necessária, na primeira parte, a das canções, de uma série de traços estilísticos (regularidade métrica e rítmica, as repetições, as estruturas paralelísticas, refrão, investimento em figuras fónicas) que resultam do trabalho sobre um texto poético destinado a ser cantado, e não simplesmente lido. Incluindo textos que comungam desses caracteres musicais e que confirmam a opção por uma poesia de combate e de intervenção, inclusivamente política, a segunda parte (aumentada com um "Apêndice") revela, porém, a par de composições de "circunstância" ou de encomenda (cf. poemas destinados a musicar peças teatrais ou bandas sonoras de filmes), e de um núcleo de poemas escritos na prisão, uma faceta mais lírica e íntima do compositor, em composições como «setembro Mês que Surge no Ocaso», «Meia Hora Basta para o Regular», «Sabia Antigamente de Palavras» ou «Tu Morres Todos os Dias», onde o recurso à musicalidade da linguagem poética é significativamente menor e onde por vezes se descobre um tom de desalento ("Tudo está vazio e morto", "Morres e vais caminhando / sobre uma estrada de fumo / o lume que nos sustenta / Já não cheira não tem vida", de «Tu morres todos os dias»), de retrospetiva existencial ("Por ti ?Meu filho? lutei sem saber por que lutava / Culpava-me de tanta fome tanta mágoa", «Meia Hora Basta para o Regular»), e de reflexão sobre a escrita: "A palavra precisa de ternura" («A Palavra»), "Sabia antigamente de palavras / E nelas eu dizia / Como é forçoso estar vivo" («Sabia Antigamente de Palavras»).
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