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literatura policial
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A literatura policial é uma construção narrativa que impõe um trabalho de reconstrução de um itinerário retrospetivo, de reconstituição dos passos dados do efeito até à causa, da constatação do facto, o crime, até ao momento da sua ocorrência.

A escrita em dois níveis narrativos, o da ocorrência dos factos e o da ordenação dos factos, determinará a configuração das várias categorias narrativas, como a de narrador, dada a impossibilidade de lhe conferir a omnisciência, uma vez que a sua tarefa é deslindar o mistério, em benefício, assim, de um ponto de vista externo que se coaduna melhor com a própria objetividade - muitas vezes revestida de cientificismo - a que é obrigado no seu trabalho de investigação; ou de uma focalização interna, dado que o investigador é essencialmente um observador, frequentemente obrigado a guardar para si as suposições e as hipóteses que vai formulando.

Usando um jogo de palavras, para Kayman (in From Bow Street to Baker Street. Mystery, Detection and Narrative, Londres, 1992), o que é explorado primordialmente na narrativa policial, também designada de narrativa de mistério, é o próprio mistério da narrativa (id. ibi., p. 10): isto é, a instituição da leitura enquanto percurso de conhecimento pelo qual o leitor segue as etapas entre a ignorância e a descoberta de uma solução, etapas predefinidas por um narrador que criou um enigma com o único objetivo de o resolver.

O leitor é mantido, através de técnicas como o suspense, num estado de dependência relativamente à procura de um sentido, numa lógica pela qual apenas "o que falta ler irá reestruturar o sentido provisório do que já foi lido", porque só a conclusão da narrativa trará um sentido que, afinal, já estava contido no início e disseminado ao longo do texto (id. ibi., p. 12).Na medida em que, tradicionalmente, parte do ponto de vista da oposição entre o polícia, o detetive (tipos de personagem que podem ser alargados a outras classes profissionais, como o jornalista, o espião, o advogado, o familiar da vítima, etc.), e o criminoso, por outras palavras, o conflito entre os representantes da moral, do bem, da correção, do heroísmo e os infratores, os representantes do mal, da desordem, da patologia, é um tipo de narrativa que se presta a uma análise sociológica enquanto suporte de um discurso ideológico revelador da mentalidade, dos medos, do imaginário e das normas da sociedade em que se desenvolve.

Por outro lado, enquanto texto literário, a novela policial explora os mecanismos da ficção narrativa, sendo equívoco estabelecer uma distinção rígida entre "romance policial" e "romance", num sentido lato. Muitas das vezes, não apenas o romancista tem a capacidade de cultivar vários géneros narrativos - ou até de evoluir do género policial para outras formas romanescas, como é o caso de Dinis Machado -, como pode usar as técnicas exploradas pelo romance policial para colocar os mecanismos narrativos em questão, como é o caso dos romances de José Cardoso Pires.

Na evolução da novelística portuguesa contemporânea, o romance policial, de influência norte-americana, ou reequacionado através da prática do nouveau roman francês, jogou um papel indispensável na evolução do (neo) realismo para um "paradigma moderno de realismo", no qual o leitor do romance contemporâneo compreende que, por detrás das questões que se colocam sobre o que vai acontecer a seguir ou sobre o significado do que é dito, mau grado a sua nostalgia de "um universo de sentido estável e permanente, já não encontrará a chave para um conhecimento absoluto da verdade" (id. ibi., p. 16).

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Como referenciar
literatura policial na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$literatura-policial [visualizado em 2026-06-09 00:50:27].

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