misticismo
O misticismo é uma temática tão vasta que se perde nos tempos, perde-se também nos limites do espaço, pois aparece em todo o lugar da Terra. Dir-se-ia mesmo que onde quer que haja homens há místicos; não que se entenda que todo o homem é místico, mas, sem dúvida, todo o homem experimenta na sua vida um ou outro momento de misticismo, na medida em que seja confrontado com o grande mistério da existência, com o grande enigma da vida e da morte.
Todavia, esta conceção tão geral não serve a uma definição de misticismo, vamos por isso restringir o seu sentido apenas àqueles homens que doaram a sua vida à busca do mistério. Neste sentido, mais restrito, encontramos místicos ao longo da história de toda a humanidade. Antes de mais, o misticismo é uma via de conhecimento, quer dizer, uma via que procura desvelar o mistério do real, pois para o místico o real aparece como um mistério. Esta via, embora englobando em si a racionalidade, ao contrário do que muitas vezes de maneira apressada se tem dito, não se limita a ela e anseia por uma visão intuitiva direta, pois sabe que, em última instância, o mistério é suprarracional. São Tomás de Aquino, na linha do seu mestre, Santo Alberto Magno, definiu a mística como "conhecimento experimental de Deus". O objetivo, primeiro e último, do místico é encontrar Deus - em quem ele deposita a raiz do mistério. O místico entende que é o conhecimento que salva o homem e lhe permite voltar ao estado que tinha antes de ter decaído. Por esta razão o misticismo se associa frequentemente à religião, embora não possamos falar aqui de uma relação exclusiva, pois há místicos fora de uma religião instituída. Apesar de tudo, o misticismo mais elaborado e mais coerente é aquele que toma por base uma religião e no seio da sua doutrina explora, por uma hermenêutica profunda os textos sagrados da sua revelação. A via que o misticismo assume para si próprio assenta numa constatação prática da teoria, numa vivência da crença. Tal como o místico não aceita a via da razão exclusivamente, também não aceita a via da teoria exclusivamente e, por isso, acentua o lado prático, quer dizer, vivencial, da experiência. Por esta razão, o místico é frequentemente um asceta.
Supõe-se que a pré-história teria uma vivência essencialmente mística, na medida em que, tanto quanto nos é dado saber, para esses povos o sagrado podia-se manifestar em qualquer lugar. A natureza era vista ela própria como uma teofania, determinados lugares "transbordavam" de sagrado, de poder divino. O místico aqui era sobretudo o feiticeiro, a quem cabia, depois de uma longa e terrível iniciação, a mediação entre Deus e os homens. Apesar de esta função mediadora se ver centralizada no feiticeiro, o homem primordial tinha a noção de que a liberdade divina se podia manifestar a qualquer momento e noutros membros da comunidade, sobretudo através do sonho. Numa época mais recente encontramos um florescimento de místicos, numa espantosa quase simultaneidade do ocidente ao oriente: Lao-Tsé, Buda, Pitágoras, Moisés. Numa outra época mais recente ainda, depois de Cristo, encontramos o gnosticismo, os Padres do deserto e as diferentes heterodoxias, como o priscilianismo, para só dar um exemplo português. Outro ciclo importante é o que se segue ao século XIII e ao século XVII. O místico interpreta o real como um símbolo de Deus, sob a sua forma dupla, quer dizer, na dupla revelação divina, na natureza ou sob a sua forma escrita, nos livros sagrados. Tanto a natureza como esses livros têm um lado exterior ou aparente e um lado interior ou oculto. Por isso, face a um texto como a Bíblia, um místico, não descurando a interpretação literal, prefere o sentido simbólico. Há inúmeras formas de mística, mas podem ser metodologicamente dividas em duas grandes classes: aquela que acentua o lado do imanente e aquela que acentua o lado do transcendente da sua experiência. Por exemplo, no cristianismo encontramos S. Francisco ao lado da primeira e Mestre Eckhart ao lado da segunda. Todavia, transcendência e imanência estão ambas presentes em todos os místicos, mas em graus diferentes. Aliás, poder-se-ia dizer que o ponto nuclear do misticismo é precisamente a certeza paradoxal que o místico tem de que entre a transcendência de Deus e a imanência do homem há um ponto de contacto e é este ponto ou ponte que ele procura toda a sua vida. Tem-se acusado os místicos de se encerrarem numa experiência puramente subjetiva, mas uma leitura atenta destes autores perceberá imediatamente que um dos seus primeiros e principais objetivos é o de vencerem a sua subjetividade, o seu ego, que consideram o seu grande inimigo. Estudiosos como Carl Gustav Jung, na psicologia, e Mircea Eliade, na história dos mitos e das religiões, têm ajudado a compreender que a linguagem dos místicos é universal, e que podemos encontrar as mesmas experiências desde o oriente ao ocidente, nas mais variadas épocas.
Supõe-se que a pré-história teria uma vivência essencialmente mística, na medida em que, tanto quanto nos é dado saber, para esses povos o sagrado podia-se manifestar em qualquer lugar. A natureza era vista ela própria como uma teofania, determinados lugares "transbordavam" de sagrado, de poder divino. O místico aqui era sobretudo o feiticeiro, a quem cabia, depois de uma longa e terrível iniciação, a mediação entre Deus e os homens. Apesar de esta função mediadora se ver centralizada no feiticeiro, o homem primordial tinha a noção de que a liberdade divina se podia manifestar a qualquer momento e noutros membros da comunidade, sobretudo através do sonho. Numa época mais recente encontramos um florescimento de místicos, numa espantosa quase simultaneidade do ocidente ao oriente: Lao-Tsé, Buda, Pitágoras, Moisés. Numa outra época mais recente ainda, depois de Cristo, encontramos o gnosticismo, os Padres do deserto e as diferentes heterodoxias, como o priscilianismo, para só dar um exemplo português. Outro ciclo importante é o que se segue ao século XIII e ao século XVII. O místico interpreta o real como um símbolo de Deus, sob a sua forma dupla, quer dizer, na dupla revelação divina, na natureza ou sob a sua forma escrita, nos livros sagrados. Tanto a natureza como esses livros têm um lado exterior ou aparente e um lado interior ou oculto. Por isso, face a um texto como a Bíblia, um místico, não descurando a interpretação literal, prefere o sentido simbólico. Há inúmeras formas de mística, mas podem ser metodologicamente dividas em duas grandes classes: aquela que acentua o lado do imanente e aquela que acentua o lado do transcendente da sua experiência. Por exemplo, no cristianismo encontramos S. Francisco ao lado da primeira e Mestre Eckhart ao lado da segunda. Todavia, transcendência e imanência estão ambas presentes em todos os místicos, mas em graus diferentes. Aliás, poder-se-ia dizer que o ponto nuclear do misticismo é precisamente a certeza paradoxal que o místico tem de que entre a transcendência de Deus e a imanência do homem há um ponto de contacto e é este ponto ou ponte que ele procura toda a sua vida. Tem-se acusado os místicos de se encerrarem numa experiência puramente subjetiva, mas uma leitura atenta destes autores perceberá imediatamente que um dos seus primeiros e principais objetivos é o de vencerem a sua subjetividade, o seu ego, que consideram o seu grande inimigo. Estudiosos como Carl Gustav Jung, na psicologia, e Mircea Eliade, na história dos mitos e das religiões, têm ajudado a compreender que a linguagem dos místicos é universal, e que podemos encontrar as mesmas experiências desde o oriente ao ocidente, nas mais variadas épocas.
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Como referenciar
misticismo na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$misticismo [visualizado em 2026-06-08 20:14:53].
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