O Mensageiro Diferido
A transgressão dos moldes narrativos tradicionais, obtida pela redução da pontuação, pela mistura dos registos lírico, epistolar e de diário, pela diluição das fronteiras entre poesia e prosa, em benefício da "fulguração gráfica" do texto, pela conversão das personagens em meras vozes (tudo está "condenado aos anonimatos dos interiores absolutos", p. 39) que suportam um discursivo reflexivo, apelativo, num contínuo monólogo que sintetiza o romance como uma "trama de nomes e apelos" (p. 53), pela subalternização das coordenadas de tempo, espaço ou intriga relativamente a um vazio existencial onde todas as ações são gratuitas, agudiza-se ainda nesta obra pela introdução de um narrador-personagem que se declara incapaz de estruturar a história porque todas as personagens parecem ausentes de "quaisquer desígnios".
O Mensageiro Diferido insere-se no contexto da novelística portuguesa pós-revolução enquanto trajeto de autognose de um eu à procura da sua pátria (Portugal ou a linguagem?: "Jan, que país é este? que ficção onde / pernoito? que palavras nenhumas? / me vou a locais de partida, sem ti / e com um nome já quase de pouco," - p. 40), português à procura de um país perdido algures entre o fim do Estado Novo e a condição de Estado comunitário; europeu no tempo de reposição de uma ordem no pós-guerra europeu, que não preencheu, porém, a ausência de sentido da pós-modernidade; ou, num alcance mais vasto, um eu à procura do seu lugar num mundo que atingiu a saturação.
Espécie de "noite contínua de João da cruz", a expressão do niilismo que reduz a existência a um choro de raiva sobre uma época e sobre um país - o sexo, por exemplo, enquanto potencial imagem da vitalidade, é continuamente convertido num ato gratuito -, só encontra forma de exorcismo da dor numa linguagem revoltadamente excessiva, escatológica, febril.
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