O Problema do Romance Português Contemporâneo
Editado pelos cadernos Seara Nova, este texto, que reproduz uma conferência proferida na Voz do Operário, a 8 de junho de 1942, tem como objetivo "ajuizar das relações que a literatura, e em especial o romance, pode ou deve manter com os alvoroçados tempos que decorrem".
A tese defendida por João Pedro de Andrade é de que o romance pode e deve conciliar as preocupações sociais com o interesse estético. Fazendo uma análise sobre a evolução do romance na sua dupla vertente de romance de tradição regional versus romance reflexo da realidade social, romance de linguagem castiça versus romance de estilo simples, a partir dos dois mestres que inauguraram estas duas tendências, Camilo e Eça, chega à conclusão que o romance contemporâneo caíra numa dispersão que lhe conferia características de amadorismo.
Sendo, para o autor, o problema do romance "mais um problema de conteúdo do que um problema de forma", defende que esse conteúdo, salvaguardando a possibilidade de conciliar a análise das paixões humanas com preocupações coletivas, não pode ser alheio ao período especialmente conturbado que a Humanidade atravessa: perguntando-se se a literatura poderia ser espelho do cataclismo que convulsionava espíritos e nações, afirma que "o drama coletivo, desentranhando-se em dramas e tragédias individuais que desafiam as mais extraordinárias imaginações, deixa na sombra todas as criações do espírito. Perante ele, toda a obra de ficção nos parece mesquinha, e até, por vezes, de singular inoportunidade" (p. 19).
Frisando a importância da época no aparecimento de uma nova literatura e considerando que não existe nenhum homem que não sofra a influência dos acontecimentos presentes, passa, então, à refutação de hipotéticas objeções que seriam necessariamente levantadas contra uma arte que dá voz às inquietações do seu tempo, tais como a problemática da efemeridade ou da eternidade dos temas literários ou a possibilidade de conciliar as preocupações sociais com o interesse estético, bastando, para tal, que "o romancista, sendo homem do seu tempo, não seja o propagandista dum sistema". Compreendendo que "a análise pura conduziria a um novo academismo", explica que a noção de "romance de tese", também por si só, é insustentável, conciliando essas duas tendências extremadas na expressão lapidar: "para fazer romances é preciso ser-se romancista" (p. 43).
Depois de uma revisão sobre os nomes do romance português dos últimos 20 anos, destaca o vulto de Ferreira de Castro na introdução de preocupações imediatamente ligadas a problemas sociais e económicos no romance português moderno. Enumera ainda as influências do romance estrangeiro sobre as novas gerações, nomeadamente a influência de Gide e Proust, nas tentativas de romance intelectual, e a influência do romance brasileiro nos primeiros romancistas da nova geração, como Alves Redol. Antes de terminar, saúda a emergência de uma nova literatura da região, pela qual "o alegre e fácil pitoresco da nossa literatura regional de outros tempos cede [...] o passo a uma visão mais direta e mais real do drama do trabalhador" (p. 55), concluindo com a reafirmação do compromisso que a arte deve estabelecer entre o individual e o universal, o efémero e o eterno, o coletivo e o individual.
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