Ombro, Arma!
A novela Ombro, Arma!, que dá título a esta coletânea de contos, tem como objeto a resistência a uma formação militar rígida e reacionária, a partir do ponto de vista satírico de um narrador que, integrado na luta clandestina contra o fascismo, lança mão de qualquer recurso para se furtar às manobras de preparação para a guerra colonial e subverter a disciplina militar.
Paralelamente à experiência de desumanização imposta pela vida da caserna, a narrativa descreve uma outra formação, no sentido da libertação da consciência, e cujos agentes serão o amor e a leitura, não hesitando o autor em introduzir no discurso ficcional a reflexão ideológica e de estética literária, numa defesa firme de uma literatura empenhada: "É esta a diferença fundamental: nós estamos aqui para transformar a vida. Escrevemos por um compromisso com os explorados, por uma lógica irrepreensível de combate. [...] Os nacional-versejadores e romancistas, de extrema direita ou com um estalado verniz democrático, fazem-no para gloriar a abulia passadista, colher os proventos das suas 'epanáforas de vária história', destilar a água chilra do subjetivismo com um fim. Ou para encanecer vanguardas esterilizadoras."
Escritas entre 1973 e 1977, as narrativas aqui coligidas, fazendo compaginar a esperança revolucionária que amadurece num contexto de repressão e a frustração de constatar que a revolução de abril vai sendo a pouco e pouco traída, são um exemplo perturbador da capacidade de conciliar uma escrita que faz questão de ostentar, sem pudor, o seu compromisso social, com a renovação dos processos narrativos (caso, por exemplo, do conto Até Amanhã, que contrapõe, num texto a duas colunas, os discursos não cruzados, de Cristina e de Pedro) e com um discurso ficcional que recorre frequentemente à metáfora.
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