Para Sempre
Para Sempre representa, no itinerário novelístico de Vergílio Ferreira, talvez o ponto de maior sintonia entre o público e um universo romanesco que caminhara para a máxima fusão entre lirismo, narrativa e ensaio numa indagação obsidiante e angustiada sobre a condição humana. Obtendo sucesso quer junto do grande público (3.ª edição no ano seguinte ao da publicação), quer junto da crítica especializada, foi distinguido com o Prémio PEN Clube Português, o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários e o Prémio do Município de Lisboa.
Essa aceitação funda-se tanto no reconhecimento de um longo itinerário novelístico sempre construído na experiência limite de um eu que se buscara dolorosa e melodiosamente a si mesmo, subvertendo toda a temporalidade narrativa, como na identificação de um público, já auto-assumidamente pós-moderno, consciente de habitar um tempo de ausência, com a voz de um narrador cujo regresso à casa da infância será a pedra de toque para um auto-interpelamento, descontínuo porque constantemente atravessado por fragmentos de diálogos, pelos fantasmas de seres ausentes ou mortos, cenas, rostos, memórias.
Qualquer coisa mais alta do que tu te assumiu e rejeitou como a árvore que se poda para crescer. Que te dá pensares-te o ramo que se suprimiu? A árvore existe e continua para fora da tua acidentalidade suprimida. O que te distingue e oprime é o pensamento que a pedra não tem para se executar como pedra. [...] Funda aí a tua grandeza se quiseres, mas que reconheças e aceites a grandeza que te excede. Há uma palavra que deve poder dizer isso, não a sabes - e porque queres sabê-la? É a palavra que conhece o mistério e que o mistério conhece - não é tua. De ti é apenas o silêncio sem mais e o eco de uma música em que ele se reabsorva. [...] É a palavra final a da aceitação." (Para Sempre, 3.ª ed., Lisboa, Bertrand, 1984, pp. 305-306.)
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